“Há verdades que só reconhecemos quando já não podemos mais tocá-las.”
Cássio permanecia sentado à bancada da cozinha, uma xícara de café quente a sua frente. Quando seus pais e Silvia finalmente se recolheram, a madrugada já se despedia. Ele até tentara deitar, mas a situação da empresa — agora ameaçada por mais um escândalo — não lhe concedeu descanso.
Chegou a cochilar por alguns minutos no sofá, um sono raso e inquieto, interrompido cedo demais pelo barulho da empregada chegando para iniciar o dia. Desde então, alternava o olhar entre o relógio e o celular, conferindo a tela a cada poucos minutos, à espera de alguma mensagem de Riviera. Nada. Apenas o silêncio, que só fazia sua ansiedade crescer.
Por fim, inclinou-se sobre a bancada, apoiando os cotovelos e enterrando o rosto nas mãos. Tudo parecia pesado demais.
Foi então que o celular vibrou.
Ele ergueu a cabeça devagar e, ao olhar o visor, reconheceu o nome de Renato chamando.
Cássio atendeu no terceiro toque.
— Fala. — a voz saiu rouca, cansada.
— Você não dormiu, né? — Renato perguntou do outro lado, sem rodeios.
Cássio soltou um riso curto, sem humor.
— Dormir como? — passou a mão pelo rosto. — Alguma novidade?
Houve uma breve pausa antes da resposta.
— Ainda não sobre a Viviane. A audiência deve sair só mais tarde. Mas… — Renato hesitou. — Tem outra coisa.
O estômago de Cássio se contraiu. Já havia levado golpes demais e temia não resistir a mais um.
— O que aconteceu agora?
— Helena fez uma live agora a pouco. — Renato disse com cuidado. — Explodiu. Está em tudo quanto é lugar. Portais, perfis grandes...
Cássio fechou os olhos com força. Sentiu como se alguém tivesse girado lentamente uma lâmina dentro dele.
— Mas o que ela falou? — perguntou já sentindo o sangue esvair do corpo.
— Coisas demais — Renato abaixou o tom, como se ainda estivesse digerindo o impacto. — Ela jogou tudo no ventilador. E até sobre algumas coisas estranhas sobre tentativa de atropelamento e de sequestro… não citou seu nome diretamente, mas deixou claro que, desde o divórcio, vem sendo perseguida e ameaçada… então…
— Vai respingar em mim — Cássio completou, a voz vazia.
Do outro lado da linha, houve uma breve hesitação.
— E por que você não parece surpreso? — Renato perguntou, agora preocupado de verdade. — Cássio… não me diga que você tem alguma coisa a ver com isso.
A imagem do bar atravessou sua mente. A tentativa frustrada de levá-la à força. Dante apagando rastros que nunca deveriam ter existido.
— Não. Claro que não — respondeu rápido demais. — Mas… eu soube por alto na audiência de anulação do divórcio.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Um silêncio que não absolvia.

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