Silvia acordou e não encontrou Cássio ao seu lado. Conhecia-o bem demais para saber que provavelmente ele não havia dormido.
Vestiu-se em silêncio e desceu os degraus da escada nas pontas dos pés.
Olhou rapidamente a sala, vazia. Por um instante pensou que ele pudesse ter saído, ido para a empresa ou tentar resolver a situação de Viviane.
Seguiu então para a cozinha, com o intuito de beber um copo de água.
Foi quando o viu.
Cássio estava de costas, apoiado na bancada, os ombros curvados num cansaço que não era apenas físico. A luz que entrava pela janela desenhava sua silhueta rígida, imóvel demais para alguém distraído. Ele segurava o celular com as duas mãos, completamente absorvido.
Silvia diminuiu o passo. Sabia que havia falado demais na noite anterior. Tinha sentido o incômodo dele, o limite sendo ultrapassado. Antes, era mais cuidadosa, mais calculada. Agora… talvez por causa da gravidez, estava irritadiça, sem conseguir pensar direito antes de falar. Ainda mais quando se tratava daquela mulher.
Aproximou-se devagar, decidida a surpreendê-lo com um abraço, uma tentativa de reconciliação.
Foi então que a tela do celular chamou sua atenção.
Não era um vídeo. Era uma imagem pausada.
Alguém segurava uma fotografia diante da câmera.
Silvia reconheceu o rosto antes mesmo de o cérebro formular o nome.
Márcio.
O mundo pareceu desabar.
O coração disparou num ritmo que denunciava mais do que surpresa. Era pânico puro, frio, imediato. A sensação de que o chão sob seus pés havia desaparecido e estivesse em queda livre.
Ela congelou a poucos passos dele.
— O que você está assistindo? — perguntou, a voz alta demais para o silêncio da cozinha, escapando antes mesmo que pudesse pensar.
O pulo de Cássio foi imediato — seco, instintivo. E, no mesmo segundo, Silvia soube que havia errado.
Engoliu em seco, sentindo o estômago afundar. Precisava reagir. Rápido.
Ele se virou para ela, o cenho franzido, o celular ainda firme na mão.
— O que foi isso? — perguntou, alerta.
— Desculpa… — Silvia apressou-se, forçando um riso curto. — Eu não quis te assustar.
Cássio a encarou por alguns segundos.
— Pelo jeito que você gritou, quem parecia assustada era você. — Inclinou levemente a cabeça. — Parece até que viu um fantasma.
O sorriso dela se manteve no rosto, treinado, quase automático. Por dentro, porém, tudo desmoronava.
— Eu entrei distraída… — respondeu, buscando naturalidade. — Achei que você tivesse saído.
Cássio não respondeu de imediato. Apenas a observou. O rosto de Silvia estava pálido demais, a respiração ligeiramente acelerada. O sorriso não chegava aos olhos. Era um detalhe pequeno, mas suficiente para acender algo nele — uma sensação incômoda, difícil de nomear.
Ela percebeu o olhar e agiu.
Aproximou-se, contornando-o com cuidado, posicionando-se atrás dele. As mãos pousaram em seus ombros, começando uma massagem lenta, quase íntima.
— Eu não queria mesmo te assustar — murmurou, baixando o tom, tentando envolvê-lo. — Sei que você não dormiu… — deslizou os dedos com suavidade. — Por que não larga esse celular um pouco?
Cássio permaneceu imóvel por um instante. A tela do celular escureceu quando ele a bloqueou, mas não o guardou
— Depois — respondeu, finalmente. — Tem coisa demais acontecendo.
Silvia apertou um pouco mais os ombros dele, como se quisesse ancorá-lo ali. Como se, ao tocá-lo, pudesse impedir que pensamentos perigosos se organizassem.
— Você precisa descansar — insistiu, com a voz doce. — Isso tudo já está pesado o suficiente.
Ele assentiu de leve, mas não se virou. O silêncio voltou a ocupar a cozinha, denso, carregado.
Silvia soube, com um frio percorrendo-lhe a espinha, que Cássio não estava apenas cansado. Ele estava começando a desconfiar.
O celular de Cássio voltou a vibrar em sua mão. Ele lançou um olhar rápido para a tela antes de atender.
— E então? — perguntou assim que levou o aparelho ao ouvido.
— A audiência de custódia vai acontecer daqui a uma hora — informou Riviera, direto.
— Entendi. Estou indo pra aí. — respondeu, já se levantando, e encerrou a chamada sem esperar mais detalhes.
Silvia acompanhou cada gesto, atenta demais para parecer casual.
— Vou me arrumar rápido pra ir com você — disse, já dando um passo à frente.
Cássio parou por um segundo, virou-se apenas o suficiente para encará-la.
— Não precisa. — o tom era firme, definitivo. — Você está muito pálida. E, grávida, isso não é um bom sinal. Fique aqui com meus pais e descanse. Vai ser bom pra distraí-los também.
Ela abriu a boca para contestar, o impulso quase escapando. Estendeu o braço, tentando segurá-lo pelo antebraço.
— O senhor Villar não estava em condição de consentir. Isso não é uma interpretação emocional, é um dado objetivo: ele estava dopado, desorientado, com perda progressiva de consciência. O que impediu o abuso consumado não foi arrependimento, foi intervenção.
Viviane encolheu-se levemente na cadeira.
— Tratar isso como um simples “excesso” ou “mal-entendido” seria ignorar o risco real que meu cliente correu ontem à noite — continuou Lívia. — Risco físico e psicológico.
O juiz a observava com atenção total.
— A vítima não está aqui hoje porque ainda se recupera — completou. — E isso só demonstra o impacto concreto da violência que sofreu.
Lívia então concluiu, sem elevar o tom:
— O que pedimos é que a justiça seja feita e que a ré seja punida conforme a lei orienta. E a garantia de que meu cliente não voltará a ser exposto a qualquer risco semelhante.
Sentou-se.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Viviane tinha os olhos marejados. O corpo parecia menor sobre a cadeira. Não havia ali força para confrontar, apenas medo do que viria a seguir.
Após alguns minutos de deliberação, o juiz falou:
— Considerando que o abuso não foi consumado, que a ré é primária e possui endereço fixo, concedo a liberdade provisória mediante fiança.
Viviane soltou um suspiro irregular, quase um soluço contido.
— A fiança será convertida na doação de cem salários mínimos — continuou o magistrado. — E deixo claro que esta decisão não representa absolvição moral ou jurídica.
Ele então voltou-se diretamente para Viviane, com voz mais dura:
— A senhora se aproximou de uma pessoa em estado de vulnerabilidade extrema. Isso é grave. E não será tratado com tolerância.
Folheou o processo.
— Fica decretada medida protetiva imediata. A senhora está proibida de se aproximar ou manter qualquer tipo de contato com o senhor Santiago Villar, direta ou indiretamente.
O martelo soou.
— O descumprimento implicará em prisão preventiva.
Viviane assentiu, derrotada. As lágrimas finalmente escaparam, mas sem força, sem revolta — apenas o peso da queda.
Lívia permaneceu sentada, respirando fundo apenas depois que tudo terminou. Não havia satisfação em seu rosto. A decisão do juiz lhe parecera branda demais, insuficiente diante do que havia sido exposto ali. Mas como o próprio nome diz, a liberdade concedida a Viviane era apenas provisória. O processo criminal ainda viria. E, quando viesse, Lívia estaria lá para garantir que ela não tivesse tanta sorte.

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