Na manhã seguinte, Helena acordou cedo com o som do despertador. Mais do que um aviso de que era hora de levantar, aquele sinal a lembrava que faltavam apenas dois dias para que finalmente pudesse ser ela mesma, livre para seguir seus próprios passos.
Vestiu uma calça wide de jeans, uma camiseta cinza de algodão e um par de tênis baixos. Prendeu os cachos em um rabo alto com um lenço de seda, compondo um visual prático e confortável — exatamente o que precisava para enfrentar as tarefas que planejara para o dia.
Estendeu aquela cama pela última vez e desceu as escadas, observando o vazio da casa, que já não guardava muitos vestígios de que um dia ela já estivera ali.
Tirou seu relógio antigo da parede e, com um último olhar, fechou a porta atrás de si, arrastando consigo as duas malas que havia arrumado com os poucos pertences que levaria.
Dirigiu até o bairro antigo, parando em frente a um antiquário que tinha notado na caminhada com Aurora no dia anterior.
Ao abrir a porta, um pequeno sino anunciou sua entrada com um som suave. O ar do local carregava histórias antigas — uma mistura de madeira envelhecida, verniz e poeira de memórias.
Os móveis de outras eras se alinhavam em uma desordem charmosa, completamente diferente das peças modernas que ela havia projetado nos últimos cinco anos.
Ela parou diante de uma mesa de carvalho com tampo lustroso, marcada por pequenos riscos que o tempo transformara em charme. Tocou a madeira com delicadeza, sentindo o calor das mãos que haviam passado ali antes.
A cômoda de nogueira com puxadores trabalhados em bronze chamou sua atenção em seguida. Ela se inclinou, acariciando o entalhe delicado de flores e ramos, imaginando as mãos que o esculpiram com tanta paciência. Sobre ela repousava um relógio de bolso que já não marcava as horas, mas parecia guardar todas elas.
No fundo da loja, uma cristaleira exibia taças com pequenas bolhas no vidro — imperfeições que as tornavam únicas.
Pequenas partículas de poeira dançavam na luz dourada que atravessava as janelas, refletindo-se em feixes de cor que lembravam pinceladas suaves sobre uma tela. Enquanto o chão de tacos rangia sob seus passos, e cada som parecia dialogar com o sussurro dos objetos, como se o lugar tivesse aprendido a falar em silêncio. O tipo de silêncio que só existe em lugares que já viveram demais.
Helena sorriu, sentindo um fio de emoção se desenrolar dentro dela, como tinta fresca sobre a tela em branco de sua vida.



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