“Quando tudo o que sustenta um homem lhe é arrancado, o desespero não grita.
Ele se aquieta. E, no silêncio, até o medo aprende a ir embora.”
Cássio estava em um lugar que não reconhecia, sentado na grama macia de um campo coberto por flores miúdas. Utópico demais para ser real.
Protegia os olhos do sol com a mão enquanto observava Helena correr, rindo, atrás de uma criança. Uma menina pequena, de cabelos da cor da terra molhada — exatamente como os dela.
Inspirou fundo, sentindo o ar leve, limpo, tão puro quanto a alegria que lhe preenchia o peito. Por um instante, tudo parecia inteiro outra vez.
Então Helena parou e olhou para ele. Do mesmo jeito que o olhava antes. Havia amor neles. O mundo pareceu suspender o fôlego.
Até que algo o empurrou.
Seu corpo tombou de lado na grama e o impacto o arrancou do sonho. Piscou pesado, desorientado. O campo havia desaparecido. As flores, a luz, a criança — tudo se dissolvera. Estava de volta ao parque. O céu já começava a perder o azul intenso, anunciando o fim do dia.
Piscou mais algumas vezes até a visão se ajustar. Foi então que distinguiu duas figuras à sua frente: homens altos, largos, imóveis demais. Por um segundo, pensou que fossem seguranças do parque, prontos para repreendê-lo por ter dormido ali. Endireitou-se no banco.
— Me desculpe, eu…
A frase morreu antes de se completar.
O preto absoluto dos ternos chamou sua atenção. Não apenas o paletó — a camisa, a gravata, tudo seguia o mesmo tom fechado. Aquilo não combinava com advertências banais. Cássio ergueu o olhar, confuso, até que um deles deu um passo à frente.
— Você vem com a gente.
A voz era firme. Sem emoção alguma.
— Desculpe… acho que estão me confundindo com outra pessoa — respondeu, já se levantando, pronto para se afastar.
O movimento cessou quando percebeu que, atrás dele, outros dois homens bloqueavam o caminho. Um deles afastou levemente o paletó, o suficiente para revelar o cabo de uma arma presa à cintura.
— O que vocês querem? — perguntou, o impulso de correr latejando no corpo inteiro, mesmo sabendo que não havia para onde ir.
— Nosso chefe quer falar com você — respondeu um deles, sem alterar o tom.
— Podemos fazer isso do jeito fácil… — acrescentou outro, aproximando-se um passo — …ou do jeito difícil.
— Quem é o seu chefe? — Cássio insistiu, a mente trabalhando rápido demais, tentando encaixar rostos, nomes, motivos. Nada fazia sentido.
— Você pergunta demais — cortou um deles, empurrando-o com força no peito. — Anda. Logo vai descobrir.
Sozinho contra quatro homens armados, qualquer resistência era inútil. O corpo entendeu antes da cabeça. Sem alternativas, deixou que o conduzissem até um sedã preto estacionado mais adiante.
Foi jogado no banco traseiro. O estofado de couro gelado contrastava com o calor que subia pela sua nuca. Ainda assim, um resquício de orgulho — talvez desespero — aflorou.
— Vocês sabem quem eu sou? — disse, a voz trêmula de indignação. — Não podem simplesmente fazer isso comigo.
A resposta veio em forma de riso. Curto. Desdenhoso.
Logo havia um homem de cada lado dele. Um deles estendeu uma venda escura.
— Coloca isso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio