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Quadros de um divórcio romance Capítulo 193

“Quando tudo o que sustenta um homem lhe é arrancado, o desespero não grita.

Ele se aquieta. E, no silêncio, até o medo aprende a ir embora.”

Cássio estava em um lugar que não reconhecia, sentado na grama macia de um campo coberto por flores miúdas. Utópico demais para ser real.

Protegia os olhos do sol com a mão enquanto observava Helena correr, rindo, atrás de uma criança. Uma menina pequena, de cabelos da cor da terra molhada — exatamente como os dela.

Inspirou fundo, sentindo o ar leve, limpo, tão puro quanto a alegria que lhe preenchia o peito. Por um instante, tudo parecia inteiro outra vez.

Então Helena parou e olhou para ele. Do mesmo jeito que o olhava antes. Havia amor neles. O mundo pareceu suspender o fôlego.

Até que algo o empurrou.

Seu corpo tombou de lado na grama e o impacto o arrancou do sonho. Piscou pesado, desorientado. O campo havia desaparecido. As flores, a luz, a criança — tudo se dissolvera. Estava de volta ao parque. O céu já começava a perder o azul intenso, anunciando o fim do dia.

Piscou mais algumas vezes até a visão se ajustar. Foi então que distinguiu duas figuras à sua frente: homens altos, largos, imóveis demais. Por um segundo, pensou que fossem seguranças do parque, prontos para repreendê-lo por ter dormido ali. Endireitou-se no banco.

— Me desculpe, eu…

A frase morreu antes de se completar.

O preto absoluto dos ternos chamou sua atenção. Não apenas o paletó — a camisa, a gravata, tudo seguia o mesmo tom fechado. Aquilo não combinava com advertências banais. Cássio ergueu o olhar, confuso, até que um deles deu um passo à frente.

— Você vem com a gente.

A voz era firme. Sem emoção alguma.

— Desculpe… acho que estão me confundindo com outra pessoa — respondeu, já se levantando, pronto para se afastar.

O movimento cessou quando percebeu que, atrás dele, outros dois homens bloqueavam o caminho. Um deles afastou levemente o paletó, o suficiente para revelar o cabo de uma arma presa à cintura.

— O que vocês querem? — perguntou, o impulso de correr latejando no corpo inteiro, mesmo sabendo que não havia para onde ir.

— Nosso chefe quer falar com você — respondeu um deles, sem alterar o tom.

— Podemos fazer isso do jeito fácil… — acrescentou outro, aproximando-se um passo — …ou do jeito difícil.

— Quem é o seu chefe? — Cássio insistiu, a mente trabalhando rápido demais, tentando encaixar rostos, nomes, motivos. Nada fazia sentido.

— Você pergunta demais — cortou um deles, empurrando-o com força no peito. — Anda. Logo vai descobrir.

Sozinho contra quatro homens armados, qualquer resistência era inútil. O corpo entendeu antes da cabeça. Sem alternativas, deixou que o conduzissem até um sedã preto estacionado mais adiante.

Foi jogado no banco traseiro. O estofado de couro gelado contrastava com o calor que subia pela sua nuca. Ainda assim, um resquício de orgulho — talvez desespero — aflorou.

— Vocês sabem quem eu sou? — disse, a voz trêmula de indignação. — Não podem simplesmente fazer isso comigo.

A resposta veio em forma de riso. Curto. Desdenhoso.

Logo havia um homem de cada lado dele. Um deles estendeu uma venda escura.

— Coloca isso.

Foi conduzido para o fundo do espaço, passando por tonéis vazios, caixotes empilhados, estruturas improvisadas que denunciavam abandono e precariedade. Tudo ali parecia provisório — exceto a ameaça. Até que pararam diante de uma velha porta de ferro pintada de um vermelho escuro, quase cor de sangue seco.

O brutamontes com uma tatuagem de arame farpado marcada no rosto ergueu o punho e bateu três vezes. Em seguida, pronunciou a palavra inferno, num tom grave, como uma senha.

A porta se abriu por dentro.

Ao dar o primeiro passo para atravessá-la, Cássio teve a sensação física de cruzar um limite invisível. O que encontrou do outro lado não combinava em nada com o galpão decadente.

Havia luxo ali. Um luxo antigo, pesado, quase opressivo. Um lustre imponente dominava o teto. Obras de arte ocupavam as paredes. Tapetes persas cobriam o chão com cores profundas. Tudo exalava riqueza — e poder.

Por um instante fugaz, os olhos de Cássio brilharam. Qualquer uma daquelas peças, em um leilão, seria suficiente para cobrir boa parte de suas dívidas.

Mas o ar do lugar esmagou qualquer ilusão.

Não havia janelas visíveis. A iluminação era baixa, calculada demais, projetando sombras exageradas que distorciam as formas. Nada ali parecia feito para conforto — e sim para controle. Quem quer que estivesse naquele lugar sabia se esconder. E sabia mandar.

Foi conduzido até uma grande porta no extremo oposto da antessala.

— Senhor, nós o trouxemos. — anunciou um dos homens, ainda do lado de fora.

Houve uma breve pausa.

Então a resposta veio de dentro, numa voz firme, segura… e estranhamente familiar:

— Deixem-no entrar.

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