“Ninguém foge do que cultivou. Algumas colheitas não gritam — cercam-te.”
Cássio fitava a grande porta de madeira talhada à sua frente. As figuras esculpidas nela eram antigas, agressivas — formas retorcidas que lembravam demônios em tormento. Havia algo profundamente perturbador naquela imagem, como um aviso silencioso.
A porta se abriu.
Um dos homens fez um gesto curto, ordenando que entrasse.
Ele hesitou por um segundo a mais do que devia. O empurrão veio discreto, porém firme, suficiente para forçá-lo a avançar alguns passos para dentro da sala.
Ao recuperar o equilíbrio e erguer o olhar, o mundo pareceu se ajustar de repente.
Ali estava o homem que ele quase conseguira apagar da memória.
A cicatriz longa e irregular que rasgava a lateral esquerda do rosto, da maçã da face até perto do canto da boca. Os olhos escuros e fundos — como poços que não devolvem o que engolem. A mandíbula marcada, dura como pedra talhada. E o nariz… levemente quebrado para o lado.
Agora Cássio sabia por experiencia próprio como aquela fratura havia acontecido.
Dante.
Ele estava sentado numa ampla poltrona dourada, estofada em veludo escuro, completamente à vontade. Uma mesa maciça de mogno os separava, larga o bastante para funcionar como fronteira. O ambiente lembrava um escritório, mas algo estava errado ali. Não havia livros. Nenhum.
Nas estantes, em vez disso, armas expostas como obras de arte: revólveres antigos, facas ornamentadas, objetos de procedência duvidosa — souvenirs de violência.
— Você… — Cássio balbuciou, a palavra morrendo antes de ganhar forma.
— Senhor Amaral. — Dante o cumprimentou com um aceno seco de cabeça. — Sente-se.
Indicou com dois dedos a cadeira à frente da mesa.
— No nosso último encontro, eu fiz uma visita à sua casa. — continuou, num tom calmo demais. — Achei justo que agora fosse você a retribuir a gentileza.
Um leve sorriso, sem humor, tocou-lhe os lábios.
— Espero que meus homens não o tenham assustado demais.
Por mais que sua voz parecesse cordial, aquilo não parecia um convite.
— Senhor… ah… — Cássio começou, ainda de pé, a voz ligeiramente trêmula. — Se a sua intenção hoje é cobrar pelo favor que me fez antes, sinto dizer que este não é exatamente o meu melhor momento. Eu...
Dante ergueu a mão, interrompendo-o sem precisar dizer uma palavra.
Levantou-se com calma e caminhou até um aparador de madeira escura. Pegou dois copos de cristal e serviu uma dose generosa de uísque em cada um, o líquido âmbar reluzindo sob a luz baixa do ambiente.
— Já ouviu falar do Macallan Adami 1926? — perguntou, como quem comenta o clima. — Um uísque escocês raríssimo. Arrematei está garrafa em um leilão há alguns anos… treze milhões muito bem pagos.
Virou-se e estendeu um dos copos para Cássio com naturalidade quase ofensiva, como se estivesse oferecendo água.
Cássio hesitou.
Dante percebeu. Sempre percebia.
— Cássio… — disse com um meio sorriso. — Posso chamá-lo assim? Afinal, depois do que fiz por você, imagino que já me considere, no mínimo, um amigo.
O silêncio pesou. Sem alternativa, Cássio assentiu e aceitou o copo.
Dante voltou à poltrona e levou a bebida aos lábios. Tomou um gole lento, fechado os olhos por um segundo. Um som baixo de satisfação escapou-lhe involuntariamente quando o álcool desceu pela garganta.
— É quase um insulto beber algo assim em pé — comentou.
Cássio então se sentou, ainda segurando o copo sem levá-lo à boca. Observava o líquido com atenção excessiva, como se ali houvesse uma armadilha invisível.
Se uma garrafa custava treze milhões… quanto valeria aquela dose em suas mãos?
E, mais importante: qual seria o preço real que Dante estava prestes a cobrar?
— Que tal esquecermos o que aconteceu antes? — propôs Dante, com um meio sorriso que não chegava aos olhos. — Realmente não costumo fazer favores gratuitamente… mas encare aquilo como um presente.
Cássio estreitou o olhar cheio de suspeitas.
— Então por que me trouxe aqui?
Dante recostou-se na poltrona com a tranquilidade de quem controlava cada centímetro da sala.
— Para lhe oferecer outro favor.
A desconfiança transbordou no rosto de Cássio. Ninguém era generoso daquele jeito sem cobrar algo depois. Aquele homem exalava perigo — não pelo que dizia, mas pelo que escolhia não dizer.
— Que favor? — perguntou, cauteloso.
Dante uniu as pontas dos dedos, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona, num gesto quase didático.
— Soube que você anda enfrentando problemas na empresa… — fez uma breve pausa, saboreando o silêncio. — ... e que está precisando urgentemente de dinheiro.
O ar pareceu ficar mais denso.
Dante sabia.
Sabia demais.
— Como você sabe disso? — Cássio perguntou, o pânico escapando antes que conseguisse conter.
Dante inclinou levemente a cabeça, quase divertido.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio