“Quando todas as saídas desaparecem, descobrimos que o labirinto sempre foi interno. E que fomos nós que o desenhamos.”
Dante conhecia aquele tabuleiro como poucos. Já havia atraído muitos para dentro da sua teia, observando cada movimento até o momento exato em que a resistência se desfazia. Alguns ainda tentavam manter a pose, fingiam firmeza, ensaiavam recusas… mas no fim, todos cediam. Sempre cediam. Ele nunca saía de mãos vazias.
— O que eu quero é algo muito simples — disse com tranquilidade. — Quase insignificante diante da minha boa vontade. Quero apenas o controle do setor de logística da sua fábrica.
Cássio o encarou, surpreso, tentando encontrar lógica naquele pedido específico.
— Eu não entendi… — disse, cauteloso. — Eu não posso entregar a fábrica. A empresa depende dela para existir.
Dante ergueu levemente a sobrancelha, paciente, como quem explica o óbvio a uma criança.
— Eu não estou pedindo a fábrica. Fui claro. — Inclinou-se um pouco à frente. — Quero apenas a logística. Só isso. Você continua criando, produzindo, vendendo. Tudo segue igual… na superfície. Eu apenas passo a cuidar das entregas.
Cássio sentiu o gosto metálico da própria ansiedade na boca. Se aceitasse, se sujeitaria a algo que ainda não entendia. Se recusasse, talvez não tivesse mais nada a perder — e isso, de alguma forma, era ainda mais perigoso.
O diabo nunca se apresentava como inimigo. Ele vinha sempre com propostas atraentes.
Ele não estava sendo testado apenas pela falta de opções, mas pela tentação de resolver tudo de forma rápida e fácil.
— Mas… por quê? — insistiu, a voz mais baixa do que gostaria.
— Precisa mesmo existir um porquê? — Dante respondeu com naturalidade, quase divertido.
Cássio entendeu que a pergunta já não era mais o que Dante queria. A verdadeira questão era até onde ele estaria disposto a ir para não perder o pouco que ainda lhe restava.
— Seja lá o que você estiver planejando… — disse, escolhendo as palavras com cuidado — isso vai afetar a empresa?
Dante sorriu de canto, tranquilo demais.
— De forma alguma. — Deu um gole no uísque. — O que tem afetado a sua empresa é o seu talento particular para se envolver em escândalos. — Zombou. — Inclusive… isso é algo que eu gostaria de incluir na nossa negociação.
Cássio ergueu o olhar, atento.
— Se aceitar, esse tipo de exposição precisa acabar. — Continuou Dante, agora sério. — Discrição é essencial para um homem de negócios. E, convenhamos… você anda chamando atenção demais.
O silêncio se alongou entre eles, denso como o cheiro de fumaça de charuto que dominava a sala.
Cássio manteve os olhos fixos na superfície escura da mesa, mas era Helena quem ele via.
Viu-a sentada à mesa do escritório em casa, de cabelo preso de qualquer jeito, explicando com entusiasmo uma ideia que ele mal escutava. Viu as noites em que chegava tarde e a encontrava acordada, mesmo exausta, apenas para perguntar se ele havia comido. Viu a paciência. O cuidado. O jeito como ela se diminuía para caber em um mundo que ele jamais se preocupou em dividir.
Ela confiava em mim, pensou. E a constatação veio como um golpe baixo.
Aceitar aquele acordo não era apenas salvar a própria pele. Era admitir, de uma vez por todas, que tudo o que Helena dissera sobre ele era verdade. Que ele sempre escolhera o caminho mais fácil. O mais confortável. O mais covarde.
A mão dele apertou o copo de uísque com força excessiva.
Mas que outra escolha ele tinha?
Levou anos para erguer aquele patrimônio e bastaram poucos dias para vê-lo ruir. Mesmo que conseguisse algum empréstimo, quantos anos seriam necessários para quitar tudo? Quanto tempo levaria para recuperar não apenas o dinheiro, mas o lugar que perdera no mundo?
A memória o puxou para trás. Os turnos intermináveis para conseguir pagar seus estudos. Dividindo um único lanche entre todas as refeições do dia. A fome não era apenas física — era uma companhia constante durante as longas noites de estudo. Se exauria movido mais pelo pavor do fracasso do que por vocação.
E, no fim, o que havia se tornado?
Um designer medíocre. Incapaz de criar algo verdadeiramente seu, sustentado por talentos alheios, vivendo de uma reputação que agora se desfazia diante de seus olhos.
Talvez Dante estivesse certo. Talvez aquela fosse a única saída que ainda lhe restava.
Sentindo a hesitação do homem à sua frente, Dante fez o movimento final. O xeque-mate que nunca falhava.
Abaixou-se com calma e puxou debaixo da mesa uma maleta grande, de metal escuro, com travas laterais. Colocou-a entre os dois, como quem deposita algo banal, e a abriu sem pressa. Em seguida, girou-a para que Cássio pudesse ver o conteúdo.
O empresário acompanhou cada gesto, o estômago se contraindo quando a tampa se ergueu por completo.

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