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Quadros de um divórcio romance Capítulo 196

“O veredicto não vem de uma vez; o processo é que se torna o castigo.” Franz Kafka

Cássio deixou a sala sentindo o peso do valor de sua alma na maleta. Não carregava apenas dinheiro, mas o preço exato daquilo que havia acabado de entregar.

Do lado de fora, os homens o aguardavam em silêncio. Não houve palavras, apenas gestos objetivos. Foi conduzido de volta ao carro, e o ritual se repetiu: a venda sobre os olhos, o nó firme atrás da cabeça, o mundo novamente reduzido ao escuro.

No banco traseiro, com a maleta apoiada sobre o colo, o silêncio do veículo se tornou ensurdecedor. Não havia ameaças, não havia pressa — apenas o vazio. Um vazio amplo, pesado, que se espalhava por dentro dele como uma sala sem móveis. Era como se tivesse deixado algo importante para trás, algo que não cabia na maleta. Algo que não poderia ser recuperado.

Sentia-se oco. Inerte.

Quando o carro finalmente parou, ele arrancou a venda quase por reflexo. Ninguém tentou impedi-lo. Um dos homens desceu primeiro e fez um gesto seco para que ele saísse.

Cássio desceu.

Não estava de volta ao parque. Não estava na frente da empresa. Estava na esquina de casa.

A rua comum iluminada por postes cansados, com luzes amareladas demais para afastar completamente a escuridão. O mundo seguia como sempre, indiferente ao acordo recém-selado.

Nenhum dos homens disse uma palavra. Nenhum olhar de ameaça ou despedida. Apenas entraram novamente no carro, fecharam as portas e partiram, como se jamais tivessem estado ali.

Cássio permaneceu parado por alguns segundos, sozinho na calçada, segurando a maleta fria nas mãos.

Parecia ter surgido do nada. Ou pior — como se tivesse sido devolvido a um lugar que já não reconhecia mais como seu.

O dinheiro estava ali. Mas algo dentro dele tinha ficado para sempre naquele galpão.

...

No meio da tarde, Helena e sua equipe haviam concluído toda a parte interna do estande. Restavam apenas ajustes finos no balcão de informações.

Duas telas de oitenta e três polegadas haviam sido instaladas de costas uma para a outra com um filete de madeira contornando-as como se fossem uma peça única, posicionada na lateral do espaço. Em looping contínuo, exibiam vídeos institucionais da Orsini: fragmentos de histórias, processos criativos, closes dos produtos, o comercial da nova coleção. Quem passava pelo corredor da feira era fisgado pelas imagens em movimento; assim como quem se aproximava do balcão também mergulhava em seu conteúdo.

Sobre o tampo, folders, catálogos, panfletos e brindes estavam dispostos com cuidado. Helena reorganizava uma das pilhas quando uma voz conhecida a fez erguer o rosto.

— Como sempre, você não decepciona.

Ela sorriu antes mesmo de identificar o dono da voz. Francesco Orsini estava ali, impecável como sempre.

— Que surpresa boa! — respondeu, genuinamente feliz.

— Vou precisar viajar ainda hoje, mas não resisti a passar aqui antes — disse ele, caminhando devagar, analisando cada detalhe com o olhar atento de quem conhecia o próprio DNA da marca. — Vocês estão de parabéns.

Voltou o olhar para a parede, onde a escultura dourada de Igor se impunha com elegância.

— Essa peça ficou extraordinária. Depois da feira, quero levá-la para a recepção da empresa. Seria um desperdício deixá-la exposta apenas por alguns dias.

— Vai ficar perfeita lá — Helena concordou, orgulhosa. — Quer ver como ficou por dentro?

Ela afastou uma das cortinas, convidando-o a entrar.

Orsini percorreu os ambientes com passos lentos, sem dizer uma palavra. Observava como quem lê uma obra — não buscando defeitos, mas camadas. Quando terminou o percurso, parou no centro do estande e deixou escapar um meio sorriso satisfeito.

— Você conseguiu algo raro aqui — disse enfim. — Dá vontade de redecorar a casa. É convidativo… no sentido mais honesto da palavra.

Helena sorriu, sentindo um alívio quente se espalhar pelo peito. Aquela sempre fora a intenção.

— A empresa tem muita sorte de ter você — completou Orsini, balançando a cabeça em aprovação sincera.

Ao retornarem para a área externa, ele deteve o olhar novamente no balcão de informações. Mais especificamente, no nome ORSINI DESIGN, recortado em letras de forma grandes e douradas que reluziam sob a iluminação cuidadosamente pensada.

Ficou alguns segundos em silêncio, avaliando.

— Acho que só está faltando uma coisa.

O coração de Helena deu um salto curto.

— O quê? — perguntou, imediatamente preocupada, repassando mentalmente cada detalhe.

Orsini sorriu de canto.

— Antoni…

O especialista em impressão 3D levantou os olhos na mesma hora, já com um brilho travesso no olhar.

— Providenciou o que pedi?

— Sim, senhor — respondeu, orgulhoso, movendo-se rápido até a prateleira interna do balcão.

Voltou carregando um volume considerável, cuidadosamente embrulhado em papel de seda.

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