“Há escolhas que não nos empurram para o abismo. Nós apenas descobrimos tarde demais
que já estávamos andando em sua direção.”
Cássio caminhou até a casa com a maleta colada ao corpo, desconfortável, como se carregasse algo que queimava através da superfície. Não era apenas dinheiro. Era a materialização da própria vergonha. Cada passo parecia denunciá-lo, cada olhar imaginário dos vizinhos soava como julgamento.
Entrou apressado, fechando a porta atrás de si com cuidado excessivo. O interior da casa estava mergulhado na penumbra — sinal de que Silvia ainda não havia chegado. Um alívio breve, quase culpado.
Se ela o visse com aquela maleta, faria perguntas que ele não estava disposto a responder. Na verdade, nem saberia como.
Precisava esconder aquilo o quanto antes.
Subiu as escadas em passos rápidos, o coração batendo descompassado. No quarto, pousou a maleta sobre a cama como se ela pudesse explodir a qualquer momento. Abriu o closet e começou a revirar prateleiras, gavetas, caixas antigas — até encontrar, esquecida no fundo, a mochila gasta dos tempos de faculdade.
Voltou para o quarto às pressas.
Abriu a maleta. Abriu a mochila.
Os maços de dinheiro surgiram ali, alinhados, frios, silenciosos. Começou a transferi-los de um lugar para o outro com movimentos quase mecânicos, as mãos ligeiramente trêmulas. Cada bloco que mudava de lugar parecia arrancar dele mais um pedaço de dignidade.
O som seco das notas se chocando ecoava alto demais naquele quarto silencioso.
E, enquanto enchia a velha mochila com o que restava da própria consciência, Cássio teve a nítida sensação de estar enterrando algo que jamais conseguiria recuperar.
Devolveu a mochila ao lugar onde a encontrara, empurrando-a para o fundo do armário e soterrando-a sob camadas de roupas há muito esquecidas. Peças que já não lhe serviam — ou talvez nunca tivessem servido de verdade.
Ao voltar para o quarto, encarou a maleta agora vazia sobre a cama. O objeto parecia acusá-lo. Havia algo nela que gritava uso indevido. Precisava desaparecer.
Desceu as escadas com pressa e atravessou o corredor lateral da casa — aquele que terminava no pequeno depósito de limpeza quase nunca usado. O mesmo lugar onde Helena havia pintado a mulher em chamas.
Ao abrir a porta, o cheiro de mofo tomou o ar de imediato. Acendeu a luz e estacou. Pincéis antigos, tubos de tinta ressecados, telas cobertas de poeira. Materiais antigos de Helena.
Sentiu um arrepio subir pela espinha, como se olhos invisíveis se cravassem em sua pele. Como se ela estivesse ali, silenciosa, observando-o. Julgando-o.
Pensou em fechar a porta e procurar outro lugar. Qualquer outro. Mas, naquele instante, o som da porta da frente se abrindo ecoou pela casa.
Silvia havia chegado.
O tempo se fechou ao redor dele. Sem escolha, empurrou a maleta para um canto do armário abarrotado de tralhas, escondendo-a o melhor que pôde, e fechou a porta às pressas.
— Cássio! — a voz veio alta, insistente, repetida mais de uma vez.
Ele passou a mão pela roupa, como se alisar o tecido pudesse alinhar também a própria postura, e seguiu para a sala.
— Que gritaria é essa?
Não era apenas Silvia. Renato também estava ali.
— Amor, o que aconteceu com você? — ela correu até ele com tanta rapidez que a preocupação parecia genuína.
— Como assim? Não aconteceu nada. Por quê?
Renato se aproximou, o rosto sério.
— A gente ficou preocupado. Te procuramos por horas. Ligamos várias vezes, até descobrir que seu celular tinha ficado na sua sala. — Fez um gesto breve com a mão. — Você sumiu.
— Você não tem noção do susto que nos deu — completou Silvia. — Onde você estava?
— Fui espairecer — respondeu ele, sem hesitar. — Não foi você mesma que disse hoje cedo que eu precisava descansar?
Ela abriu a boca, mas nenhuma resposta veio de imediato.
— Mas custava avisar alguém? — Renato retrucou, a indignação transparecendo. — Você deixou o celular, o paletó… até o carro. O que você esperava que a gente pensasse?
Cássio sustentou o olhar por um instante antes de responder:
— Como podem ver, eu estou bem.
E, ainda assim, tudo nele dizia o contrário.
Silvia lançou um olhar atento — interessado demais — para o corredor de onde Cássio havia surgido. Nunca o vira ali antes.
Ele percebeu e se apressou em puxar o foco para outro lugar.
— Mas fico feliz que você tenha vindo — disse, voltando-se para Renato com um sorriso rápido demais para ser natural. — Faz tempo que você não aparece por aqui. A gente pode conversar com calma… você me atualiza sobre o estande. A feira começa amanhã, não é?
Renato assentiu, ainda avaliando Cássio com cautela.
Então ele se virou para Silvia, o tom já diferente. Prático. Impessoal.
— Já que temos visita, prepara alguma coisa pra gente.
Não esperou resposta. Não esperou nada. Apenas tocou o braço de Renato e o conduziu para o escritório, fechando a porta atrás de si como quem encerra um assunto menor.
Silvia ficou parada no meio da sala.
Por um instante, achou que tinha ouvido errado.
— Você está louco. — Cássio o encarou, sério. — Eu já falei. Saí pra espairecer.
— Assim? Do nada? Sem celular, sem carro, sem avisar ninguém?
— Ou fazia isso… ou tinha uma e****a. — Ele suspirou, passando a mão pelo rosto.
Renato ficou em silêncio por alguns segundos, observando-o com atenção. O cansaço ali não era encenação. Era real, profundo, quase palpável.
— Tá… — disse por fim, mais brando. — E foi pra onde?
— Saí andando. Sem rumo. Quando vi, estava no parque. — Deu de ombros. — Acabei dormindo num banco.
Por um segundo, Renato apenas o encarou. Depois, o canto da boca tremeu. Em seguida, a gargalhada veio sem freio.
— Não… — disse entre risos. — Você dormiu no banco do parque?
As lágrimas começaram a se formar nos olhos dele à medida que a risada crescia.
— Qual é a graça? — Cássio perguntou, tentando manter a seriedade… mas falhando.
— A imagem, Cássio! — Renato conseguiu dizer, enxugando os olhos. — O todo-poderoso Amaral largado num banco de parque.
Cássio tentou sustentar a expressão fechada por mais alguns segundos, mas perdeu a batalha. Um riso escapou. Depois outro. Quando percebeu, estava rindo também — daquele jeito raro, quase esquecido, em que o peso parecia afrouxar por um instante.
Riram juntos. Aos poucos, a gargalhada foi cedendo espaço a um silêncio mais pesado, daqueles que não incomodam, mas revelam. Cássio apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para o chão, como se encarasse a própria trajetória espalhada ali.
— Olha a que ponto eu cheguei… — murmurou, mais para si do que para o amigo.
Renato se inclinou para frente.
— Para de se flagelar assim. — disse, sincero. — Você vai se casar, vai ter um filho, amanhã começa a feira… a equipe criativa já está trabalhando na próxima coleção. — Fez um gesto amplo com a mão. — Você realmente acha que está tão mal assim?
Cássio sustentou o olhar do amigo por um instante longo demais. Sabia que aquelas palavras só soavam possíveis porque Renato desconhecia a parte invisível da história. A parte suja. A parte que ele mesmo evitava encarar.
Não podia culpá-lo.
Nem corrigi-lo.
— Você tem razão. — respondeu por fim, com um meio sorriso que não alcançou os olhos.
Renato pareceu satisfeito com a resposta, enquanto na mente de Cássio havia apenas a lembrança da maleta. Do acordo. E do preço que ainda teria que pagar por tudo aquilo.

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