“O medo não impede a morte. Impede a vida.” Albert Camus
A quarta-feira tão aguardada acabara de clarear. Helena terminava de se arrumar diante do espelho. O macacão de alfaiataria em tom nude abraçava seu corpo com elegância, a parte superior desenhava o tronco, enquanto a amarração delicada na cintura marcava o centro do seu corpo. As pernas se abriam em uma pantalona fluida que escondia quase por completo a sandália de salto grosso — confortável, pensada para o longo dia que teria.
Metade do cabelo estava preso em um meio-coque simples, o restante caia em ondas macias, uma cascata de chocolate até a base das costas. Uma maquiagem leve, brincos dourados em forma de nó capturavam a luz com discrição nos lóbulos de suas orelhas.
Ao tentar colocar o colar herdado da avó, com o pingente de coração que carregava mais memória do que ouro, hesitou por um segundo.
“Use quando precisar se lembrar de quem você é, minha menina.”
Quase podia ouvir a voz de sua avó.
A simples ideia de Cássio ter tido a ousadia de oferecê-lo a outra mulher a enchia de revolta. Não pelo preço, mas pelo peso emocional que aquela peça sempre teve para ela.
Santiago se aproximou por trás, atento ao gesto interrompido. Ele sabia, estava lá no dia em que ela o recuperou.
— Deixa eu te ajudar — disse, tomando a corrente com cuidado.
Helena afastou o cabelo para o lado, facilitando o fecho. Assim que o colar repousou em seu lugar, ele a envolveu em um abraço sereno, ambos contemplando a imagem refletida no espelho.
— Ansiosa para hoje?
Ela pensou por um instante, o olhar atravessando o próprio reflexo.
— Para falar a verdade, não muito. Tenho uma equipe maravilhosa. Sei que vai dar tudo certo.
Santiago pousou as mãos sobre o ventre dela e beijou-lhe o rosto, com a calma de quem promete sem alarde.
— Você nunca mais vai estar sozinha.
Helena se virou para ele, o sorriso grato e inteiro.
— Eu sei.
— É melhor irmos. O Pedro já deve estar lá fora te esperando.
Inícios de feira costumavam ser sempre movimentados e corridos. Santiago sabia disso e, além disso, precisava se preparar para a nova exposição que aconteceria dali a dois dias. Por isso, não a acompanharia na estreia.
Antes de seguir para a galeria, havia combinado com Marcelo de passarem pela delegacia para saber se havia alguma novidade sobre a investigação.
Ele sabia que Helena permanecia constantemente apreensiva — ainda mais agora, grávida do filho deles, e depois do que lhe acontecera no fim de semana. Por mais que demonstrasse força, aquela preocupação a consumia por dentro.
Pedro já a aguardava ao volante. Santiago abriu a porta de trás para que ela entrasse, inclinou-se e lhe deu um selinho rápido.
— Quebre as pernas. — disse, desejando-lhe sorte.
Ela assentiu com um sorriso, e o carro partiu.
Santiago permaneceu na calçada, observando o veículo desaparecer rua afora. Marcelo se aproximou, conhecendo-o bem:
— Está preocupado com ela, não é?
— Estou mais preocupado com a preocupação dela — respondeu ao amigo. — Vamos?
Quando chegaram à delegacia, o movimento ainda era discreto. Alguns detetives conversavam com copos de café quente nas mãos; outros analisavam papéis sobre as mesas.
Santiago aproximou-se do balcão da recepção:
— Bom dia. Gostaria de falar com o delegado Augusto Faria, por favor.
Alguns minutos depois, foram conduzidos até sua sala.
— Senhor Villar, detetive Marcelo… sentem-se, por favor — pediu o delegado. — Em que posso ajudá-los hoje?
— Acredito que saiba o motivo de estarmos aqui — intuiu Santiago se acomodando na cadeira.


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