“Todo pecado é uma escolha.” Oscar Wilde
Helena chegou ao São Paulo Expo acompanhada de um Pedro muito mais atento e alerta do que nos últimos dias. Do lado de fora, filas e mais filas aguardavam o horário de abertura do evento. O número de pessoas circulando era surpreendente.
Após apresentarem os crachás de expositores na entrada, foram autorizados a entrar. Lá dentro, o ambiente parecia ainda mais agitado, carregado de expectativa.
Helena caminhou até o estande da Orsini Design observando tudo ao redor, tomada por um orgulho silencioso por fazer parte daquilo.
Encontrou a equipe igualmente animada. Todos vestiam camisas brancas impecáveis, com o logotipo dourado da empresa bordado ao peito — um detalhe que traduzia o cuidado e o orgulho de representar aquela marca. Eles seriam responsáveis por apresentar as peças aos visitantes, explicar o conceito dos móveis, conduzir praticamente um tour imersivo pelo espaço e pela coleção.
No balcão de informações, duas recepcionistas da empresa, já experientes e seguras, estavam prontas para informar, atrair e captar novos clientes.
Helena respirou fundo e abraçou cada um deles. Até Pedro parecia contagiado pela empolgação do grupo. Não pôde deixar de imaginar como seria quando, um dia, conseguisse abrir o próprio centro de treinamento.
As cortinas ainda permaneciam fechadas, protegendo o interior do estande e aguçando a curiosidade dos concorrentes que passavam.
Ao olhar para o relógio, Helena notou que ainda faltava mais de meia hora para a abertura. Então, chamou a atenção de todos:
— Que tal fazermos uma oração? Independente de religião ou crença. Apenas um pedido… para que tudo corra bem.
Todos concordaram e se uniram em uma roda, de mãos dadas. Por alguns segundos, ninguém disse nada. O burburinho distante do pavilhão — passos apressados, vozes misturadas, o arrastar metálico de estruturas sendo ajustadas — atravessava o silêncio pesado que se instalara entre eles.
Helena fechou os olhos. Respirou fundo antes de falar, como se buscasse algo dentro de si.
“Que está feira seja leve. Que nossas mãos transmitam verdade no que fazem, e nossas palavras encontrem quem precisa ouvi-las.
Que cada pessoa que entrar aqui sinta respeito, cuidado e intenção. Que o trabalho feito até agora encontre bons caminhos e que a dedicação de cada um seja reconhecida.
Que a gente tenha serenidade diante dos desafios, presença no agora e alegria em compartilhar o que criamos juntos.
E que, ao final deste evento, possamos sair daqui com a certeza de que demos o nosso melhor.
Que Deus nos abençoe!”
Um “amém” coletivo ecoou esperançoso. As mãos se soltaram devagar, e o som do pavilhão voltou a invadir o espaço, como um lembrete de que o mundo lá fora ainda estava em movimento.
...
Seria balela dizer que Cássio dormira naquela noite. Revolvera-se na cama como alguém a quem faltava um pedaço, como se houvesse olhos demais presos à escuridão, observando-o em silêncio.
Por fim, com medo de acordar Silvia, levantou-se. Caminhou pela casa escura sentindo o frio subir do chão, ocupar-lhe os ossos, enquanto sombras se alongavam pelas paredes. Parou diante da lareira apagada e deixou-se cair no sofá. Cinza fria. Pedra morta. Nenhum vestígio de calor.
Pensou na última vez em que a vira acesa. Helena sentada no tapete, uma taça de vinho entre os dedos, as chamas dançando e se refletindo em seus olhos vivos. Perguntou-se se teria sido naquela noite que ela pintara aquele quadro — a única coisa que restara dela ali. Como brasas enterradas sob as cinzas, insistindo em não se apagar.
Pensou em tudo e em nada, a mente infestada de “ses”, como frases mal formuladas que jamais encontrariam correção.
E se não tivesse se aproveitado dela?
E se a tivesse tratado de outra forma?
E se a tivesse amado como ela merecia?
Mas os “ses” pertenciam a um tempo morto. Um passado mais-que-perfeito, fechado como uma sentença gramatical sem direito a revisão. Não havia conjugação possível depois do erro: o verbo já estava concluído, o sentido fixado, o dano feito.
Era como uma pintura abandonada após a última camada secar. A tinta endurecida não aceitava novos retoques; qualquer tentativa de correção apenas deixaria marcas mais visíveis. O verniz, já rachado, denunciava o que fora feito às pressas e sem cuidado. Não existia gesto capaz de devolver frescor à cor. Tudo o que restava era olhar para a tela arruinada e aceitar que não havia tempo verbal onde ainda fosse permitido consertar.
E ainda havia Dante. Aquele homem estranhamente assustador, com quem ele sentia não ter firmado apenas um acordo, mas um pacto.

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