“A inveja é um sentimento tão torto que quem o sente nem percebe o quanto se diminui.” Clarice Lispector
O motorista estacionou no prédio adjacente ao grande salão do evento. Assim que Cássio desceu do carro, Silvia posicionou-se ao seu lado e enlaçou-lhe o braço, num gesto calculado. Ele permitiu, ainda que o contato lhe pesasse mais do que deveria.
Atravessaram juntos a travessa que ligava os dois edifícios. Ele seguia com o queixo erguido, a postura de quem sempre estivera no controle — ao menos por fora. Ela caminhava com a convicção de quem ocupava, enfim, o lugar que merecia.
O vestido lilás, de ombro único, moldava-lhe o corpo. O corpete estruturado se abria em tecido fluido logo abaixo do busto, disfarçando a barriga já saliente, embora Silvia mantivesse a mão pousada sobre o ventre, quase ostentatória. Queria que todos vissem que ali crescia o futuro herdeiro dos Amaral. E ela, muito em breve, seria a senhora daquela casa. Cássio percebeu o gesto — e desviou o olhar.
Ela não lançou mais do que olhares rápidos às pessoas que aguardavam nas filas. A expressão era de superioridade silenciosa enquanto cruzavam o mar de gente e entravam sem esperar, após a apresentação dos crachás de expositores.
Lá dentro, Silvia observou os estandes com interesse genuíno. Aquilo parecia menos uma feira e mais uma cidade erguida para impressionar. Empresas de renome, reconhecidas, prestigiadas — e a do seu em breve futuro marido estava entre elas. Seus olhos brilhavam diante dos móveis de luxo, das esculturas espalhadas pelos corredores, do festival de cores, formas e luzes.
Sentiu-se satisfeita ao perceber os olhares que recaíam sobre ela. Estava sendo vista. Era ela ao lado de Cássio agora — não mais Helena.
Na verdade, nem mesmo antes, quando Cássio ainda era casado com aquela mulher, ele a tratava como se fosse alguém a ser exibido. Helena sempre fora mantida à margem, quase como um incômodo. Silvia, não. Silvia desfilava. Agora era a oficial. E jamais seria escondida.
Ainda que sua participação naquela feira tivesse sido mínima — restrita ao marketing e aos materiais de divulgação —, uma sensação de mérito distorcido a preenchia. Como se aquele brilho também lhe pertencesse. Como se tudo aquilo fosse, de algum modo, conquista sua.
Cássio caminhava ao lado, atento demais aos detalhes: o som dos passos atrás deles, os olhares que se prolongavam um segundo a mais, a sensação incômoda de estar sendo medido.
Quando pararam diante do estande do Studio Cassiani, Silvia estacou, incrédula. O espaço era visivelmente menor do que a maioria dos estandes ao redor.
— Por que o nosso estande é tão pequeno assim? — questionou, sem disfarçar o desagrado.
Renato, que se aproximava para recebê-los, respondeu antes mesmo que Cássio pudesse dizer algo:
— Porque nos inscrevemos de última hora. Só conseguimos esse espaço por causa da desistência de outra empresa.
Ele percebeu o semblante de Silvia murchar quase de imediato. Para Renato, já era evidente que havia algo estranho naquela mulher — embora ainda não soubesse exatamente o quê. A sensação o deixava frustrado e, ao mesmo tempo, apreensivo em sua presença. Era como se ela estivesse sempre encenando um papel… e nem sempre fiel ao próprio personagem. Aquilo o inquietava.
Silvia voltou a observar o estande com mais atenção. Ainda que o espaço fosse reduzido, a coleção Inércia estava impecavelmente disposta. As peças se impunham com elegância, sem dever nada às grandes empresas pelas quais haviam passado minutos antes.
Ela afastou-se deles para falar com os funcionários, aproveitando para desfilar, mais uma vez, sua postura arrogante de futura dona. Distribuía ordens, exigia perfeição, como se o espaço já lhe pertencesse por direito.
Cássio percebeu o olhar atento de Renato acompanhando cada gesto dela.
— Algum problema? — perguntou ao amigo.
— Não — respondeu Renato, desviando o olhar para o outro lado do pavilhão. — Está tudo certo.
Ele sabia exatamente para onde o amigo estava olhando. Para o estande da Orsini Design. E, por mais que resistisse, Cássio não conseguiu evitar fazer o mesmo.
A sensação de déjà-vu o atingiu antes mesmo de localizá-la. Lá estava Helena, conversando, sorridente, segura de si. A imagem o atravessou com a mesma força da primeira vez em que a vira pintando — distraída, inteira, existindo sem pedir licença ao mundo.
Enquanto isso, Silvia passava instruções aos funcionários, exigindo impecabilidade. Mas as palavras pareciam não alcançar ninguém. Eles estavam atentos demais a algo além dela.
Incomodada, Silvia franziu a testa e se virou. Não muito longe, avistou o grande logotipo da Orsini, a escultura entre plantas… e Helena.
Todos observaram quando os funcionários da Orsini se aproximaram dela. Viram-nos dar as mãos. Viram Helena dizer algumas palavras, recebidas com olhares atentos e concordantes. Estavam longe demais para ouvir o que ela dizia, mas o “amém” coletivo e os aplausos que se seguiram chegaram claros o suficiente.
O sorriso de Silvia congelou no rosto. Não era possível que aquela mulher também estivesse ali. Ainda mais cercada por funcionários da Orsini. Aquilo só podia significar uma coisa: Helena trabalhava com eles agora.
Virou-se para Cássio. O olhar dele também estava fixo nela — mas não havia surpresa. Ele já sabia.
O peito de Silvia se contraiu, quente demais. Uma sensação infantil e humilhante tomou-lhe o corpo, como se tivesse sido empurrada para fora do centro da cena mais uma vez.


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