“Há versões de nós que precisam morrer para que outras sobrevivam.” Clarice Lispector
Silvia caminhou até o antigo quarto com passos incertos, como se o próprio corpo não estivesse completamente sob seu comando. Parou diante do espelho e levou alguns segundos para reconhecer o reflexo. A mulher que a encarava tinha os olhos fundos e inseguros, o rosto tenso e assustado, a expressão frágil demais para alguém que decidira não ser mais fraca.
Não era mais ela.
Ou talvez fosse — apenas sem disfarces.
Por um instante, viu outra imagem se sobrepor àquela: a garota de antes, sentada na cama estreita, ouvindo a mãe cantar baixinho enquanto dobrava roupas. A Silvia que acreditava que amor era abrigo. Que as pessoas ficavam. Que o mundo, apesar de injusto, ainda podia ser bom.
— Você morreu — murmurou para o espelho, a voz falhando. — Morreu com ela.
O peito apertou como se algo tentasse romper por dentro. Uma parte dela queria chorar, cair no chão, pedir colo. Outra — maior, mais feroz — exigia silêncio, controle, sobrevivência.
— Se eu continuasse sendo aquela menina… — disse entre dentes — …eu teria morrido também.
A imagem da mãe doente, frágil, consumida aos poucos, atravessou-lhe a mente. O pai afundado no álcool. A casa ruindo. A fome de segurança. De poder. De nunca mais depender de ninguém.
Silvia levou a mão ao rosto e riu — um riso curto, quebrado, que rapidamente se transformou em soluços. As lágrimas vieram, mas não eram limpas. Vinham misturadas com raiva, vergonha, medo.
— Eu fiz o que precisava — repetiu, como um mantra. — Eu fiz o que precisava.
Mas o espelho não concordava. Silvia fechou os olhos com força, como se pudesse expulsá-la de vez. Porque, sabia que se deixasse a antiga Silvia voltar, mesmo que por um segundo, tudo o que construiu desmoronaria junto com ela.
...
Santiago e Marcelo entraram no pavilhão já no final da tarde. O fluxo de pessoas havia diminuído em relação à manhã, e faltava pouco menos de uma hora para o encerramento daquele dia de evento. Ainda assim, o ambiente seguia vibrante, carregado do cansaço satisfeito de quem fechara bons negócios.
Encontrar o estande da Orsini era impossível de errar. O grande O luminoso pendia sobre o espaço como uma auréola — uma sacada brilhante de um dos colegas de Helena, que transformara o logotipo em farol.
Cássio estava a poucos metros dali, conversando com Renato de forma conveniente demais, apoiado no balcão do estande de revestimentos ao lado. Falava animado com um arquiteto conhecido, mas seu interesse parecia dividido. O brutamontes do Éden — que não desgrudava de Helena — mantinha os olhos atentos, quase cravados nele.
Santiago se aproximou sem anunciar a presença. Enlaçou Helena por trás num gesto espontâneo, familiar.
Ela levou um susto breve, o corpo se enrijecendo por um segundo, até reconhecer o toque.
— Santiago… — disse, aliviada, inclinando a cabeça para trás.
Ele sorriu contra o cabelo dela.
— Vim te buscar.
Helena sorriu também, sentindo algo raro naquele dia longo: descanso.
Do outro lado do corredor, Cássio ergueu o olhar no exato momento em que viu os dois juntos. E, por um instante, tudo o que ele dizia perdeu completamente o sentido.
Helena cumprimentou Marcelo com um sorriso aberto e, em seguida, virou-se para Santiago, envolvendo-o pela cintura e apoiando a cabeça em seu peito. Um suspiro escapou-lhe dos lábios.
— Cansada? — ele perguntou, baixinho.
— Um pouco — admitiu.
— Que tal uma massagem quando a gente chegar em casa?
— Hmmm… — ela sorriu, preguiçosa. — É tudo o que eu preciso.
— Então me guia primeiro na minha visita oficial — pediu Santiago, lançando um olhar curioso para o estande. — Quero ver tudo.
Helena assentiu, divertida, e o conduziu para dentro do espaço. Marcelo veio logo atrás, incapaz de conter os elogios, comentando sobre as escolhas de materiais, a disposição das peças, a atmosfera que criaram ali. Helena respondia com naturalidade, explicando conceitos, contando pequenos bastidores do processo criativo.
Quando retornaram para fora do estande, Santiago a puxou para mais perto e brincou, orgulhoso:
— Depois que nosso filho nascer… — pousou a mão com cuidado sobre o ventre dela — acho que posso virar aquele pai babão que fica em casa cuidando das crias enquanto minha esposa incrível nos sustenta.
Helena riu e lhe deu um tapinha de leve no braço.
— Nem pensar — respondeu, ainda sorrindo.
Renato também observava a cena. Sabia que aquilo não era fácil de assistir para Cássio — e, mesmo assim, não havia nada que pudesse ser feito.
...
Cássio deixou o paletó cair sobre o encosto do sofá assim que entrou em casa. O corpo pedia para se largar ali também, mas a mente não permitiu. Havia combinado com Riviera, que provavelmente já estava a caminho.
A casa estava quieta demais, sinal de que Silvia ainda não havia chegado.
Subiu os degraus sem pressa e entrou no closet do quarto. Ajoelhou-se diante do fundo do armário e puxou a mochila escondida ali. O zíper soou alto demais naquele ambiente fechado. Precisava separar os quarenta e quatro milhões que ainda faltava repor aos cofres da empresa.
Pegou uma caixa grande de sapato da prateleira superior e sentou-se no chão acarpetado. O dinheiro passou por suas mãos com um cuidado quase ritualístico. Separou o valor que não precisaria de imediato, organizando as notas dentro da caixa antes de devolvê-la ao mesmo lugar de antes — alto o bastante para não chamar atenção.
Fechou a mochila, respirou fundo e se levantou levando-a consigo escada abaixo.
Jogou a mochila sobre o sofá e foi até o aparador servir-se de uma dose de uísque. O líquido âmbar caiu pesado no copo. Caminhou com ele na mão até que algo sobre a bancada que separava a cozinha da sala chamou sua atenção.
A boleira.
Parou. Franziu a testa. Aproximou-se e levantou a tampa com curiosidade. O impacto foi imediato.
Bolo de cenoura. A cobertura de chocolate quebradiça, craquelada na superfície.
A tampa quase escorregou de sua mão.
Era óbvio que aquilo não era obra de Helena. Ela partira havia tempo demais para isso. Provavelmente fora a empregada. Ainda assim, o pensamento nela veio automático, cruel. A memória não pedia permissão.
Cássio deixou o copo de lado sem sequer provar a bebida. Abriu a gaveta, pegou uma faca e sentou-se em uma das banquetas altas. Puxou o prato para perto e cortou o bolo sem hesitar, arrancando uma fatia generosa.
Levou à boca.
O gosto o atingiu em cheio.
Quase gemeu.
Não era apenas um bolo. Era o bolo. O sabor exato, a textura certa, o doce equilibrado — como se tivesse sido feito pelas mãos dela. Como se o passado tivesse decidido atravessar a cozinha sem aviso.

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