“Habitamos lugares muito depois de termos partido deles.” Virginia Woolf
O som da campainha arrancou Cássio do torpor. Quando se deu conta, as mãos estavam sujas de chocolate, assim como os lábios. Baixou o olhar para o bolo à sua frente e percebeu, com um leve sobressalto, que quase um terço já havia desaparecido.
— Só um momento! — gritou, levantando-se às pressas.
Limpou a boca com o dorso da mão. Correu até a pia, esfregou as mãos sob a água e as secou de qualquer jeito na própria calça. Respirou fundo e foi até a porta.
Era Riviera.
— Senhor Amaral, peço desculpas pela demora — disse o advogado, ajustando a pasta sob o braço.
— Não tem problema — respondeu Cássio, abrindo passagem para que entrasse.
— Então… — Riviera começou, acomodando-se com a pasta sobre o colo. — No que posso te auxiliar desta vez?
— Na verdade, eu já solucionei todos os nossos problemas.
Cássio puxou a velha mochila erguendo-a na direção do advogado. Riviera franziu a testa, confuso, sem entender o que aquilo significava.
— É o que faltava do dinheiro.
O advogado se sobressaltou. Pegou a mochila das mãos de Cássio e a abriu. Os olhos se arregalaram. A mochila estava abarrotada de maços de notas, organizados com um cuidado quase obsessivo.
— Meu Deus… — murmurou, antes de erguer o olhar novamente para ele. — De onde saiu isso? — A pergunta escapou sem filtro.
— Isso não importa — disse Cássio, passando a mão pelo rosto, visivelmente cansado. — O importante é que agora está resolvido.
Riviera ainda mantinha os olhos na mochila aberta. Era dinheiro demais para simplesmente surgir do nada. Mas Cássio era o chefe — e havia perguntas que advogados experientes aprendiam a engolir.
— Certo… — respondeu, fechando o zíper com cuidado. — Mas como eu vou sair daqui com isso? É dinheiro demais.
Cássio ficou em silêncio por um instante. O advogado tinha razão. Se algo desse errado, se aquela mochila desaparecesse, ele acabaria arrumando outro problema.
— Vou chamar um dos seguranças para te acompanhar. — decidiu, por fim.
Riviera assentiu, aliviado.
Algum tempo depois, o segurança chegou. Riviera deixou a casa levando consigo a mochila.
Ao menos, o peso de uma parte daquele dinheiro agora estava fora das mãos de Cássio. Ele observou-os se afastar antes de fechar a porta.
Finalmente se permitiu cair no sofá. Esfregou o rosto com força, como se pudesse arrancar o cansaço à força bruta. O silêncio da casa se impôs o fazendo se perguntar onde estava Silvia.
Mal o pensamento se assentou, o som da porta se abrindo novamente cortou o ar.
Silvia entrou sem esperar encontrá-lo ali.
Tomara um banho demorado em seu apartamento, permanecendo sob a água como se ela pudesse, de algum modo, lavar também sua consciência. Vestira uma das roupas antigas que ainda mantinha ali: uma calça jeans agora justa demais por causa do ventre saliente e uma camiseta simples, sem qualquer esforço de composição. O vestido velho fora ensacado e descartado numa lixeira da rua por medo de que ainda carregasse algum vestígio do que fizera.
O que mais surpreendeu Cássio, porém, foi o rosto dela.
Limpo. Nu. Sem maquiagem alguma e ainda por cima pálido como a morte.
Ele não se lembrava de tê-la visto assim antes. Nem mesmo ao acordar — Silvia sempre parecia pronta, impecável, como se jamais permitisse ao mundo vê-la sem armadura.
— Onde você estava? — perguntou com suspeita. — E o que aconteceu? Por que está assim?
Ela hesitou por um segundo antes de responder. Ainda estava atordoada demais para atuar com a precisão de sempre.
Fizera o que julgara necessário para preservar aquela vida, para garantir que Márcio não falasse. Mas a verdade pulsava incômoda: se alguém descobrisse o que fizera, perderia tudo do mesmo jeito.
— Passei mal — disse, escolhendo as palavras com cuidado. — Acabei vomitando… como estava perto do apartamento, fui até lá me limpar.
Cássio franziu levemente a testa.
— Por que não me ligou?
— Você estava tão ocupado com a feira… — respondeu, num tom baixo. — Não quis te atrapalhar.
Venda era venda. Dinheiro era dinheiro. Aquilo deveria bastar. Deixá-lo feliz. Mas não deixava.
Aquilo só lhe dava a impressão de que Helena ainda era o pilar invisível do Studio Cassiani.
Precisava de uma nova coleção — e rápido.
Mesmo com o dinheiro finalmente reposto no caixa, sua cabeça continuava a prêmio. Depois de tanta repercussão negativa, precisava apresentar algo forte o suficiente para silenciar o conselho. Algo novo. Irretocável. Algo que recolocasse a empresa sob os holofotes — desta vez sem ruídos, sem manchas.
Pensou no estande da Orsini.
Aquilo tinha Helena em cada detalhe. Por mais que tentasse negar, não podia ignorar o fato de que estava impecável. Ela sempre soubera atrair as pessoas — como um chamado silencioso de volta para casa.
Casa.
A palavra ecoou estranha.
Cássio olhou ao redor. Aquele lugar nunca parecera exatamente um lar — mas agora, sem ela, parecia menos ainda. Cada detalhe fora escolhido segundo o gosto dele… ou ao menos ele acreditara que fosse o seu, na época. Agora, pela primeira vez, percebia a frieza do ambiente. As linhas duras. O silêncio excessivo.
Nada ali acolhia.
Era apenas um espaço grande demais, vazio demais — e, pela primeira vez, desconfortavelmente honesto.
Pensou no dinheiro ainda guardado no closet. Talvez fosse hora de se mudar dali. Encontrar um lugar novo, neutro, sem paredes carregadas de ecos. Um espaço onde pudesse, ao menos em teoria, recomeçar. A ideia não lhe pareceu ruim.
Mas então olhou para o balcão.
O bolo ainda estava ali.
Um resto quente de algo que já não existia. Mesmo que mudasse de endereço, percebeu, as lembranças saberiam encontrá-lo. Não precisavam de chaves. Bastava um cheiro, um gosto, um detalhe fora do lugar.
Aproximou-se devagar, como quem cede a um vício pequeno demais para ser confessado. Baixou a voz, quase constrangido consigo mesmo, e murmurou:
— Só mais um pedaço.

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