Santiago acabara de encerrar uma reunião com um jovem e promissor escultor. A sala ainda guardava o cheiro de argila úmida trazido nas roupas do rapaz, que era um daqueles talentos raros que, mesmo na aspereza de uma obra imperfeita, deixa transparecer o potencial de algo grandioso.
Ele tinha esse dom: reconhecer a arte ainda escondida no bruto. Foi assim que construiu seu nome e manteve vivos a honra e prestígio do sobrenome Villar, símbolo de excelência entre as galerias, artistas e colecionadores.
Havia dias em que se esquecia do peso desse nome — mas, em outros, ele o sentia como uma sombra constante, lembrando-o de que perfeição e controle eram tudo o que lhe restava. Talvez por isso se encantasse tanto pelo espontâneo, pelo que escapava das formas previsíveis.
Como já era hora do almoço, acompanhou o rapaz até a saída do prédio. Conversavam de modo leve e cordial enquanto cruzavam a porta de vidro que se abria para a rua ensolarada.
Mas, assim que pisou na calçada, Santiago ergueu os olhos — e o mundo parou.
Desde o episódio no Scarlet Bar, não tivera coragem de procurá-la. Temeu ser invasivo, estragar algo que talvez nem tivesse começado. Ainda assim, ela nunca saiu do seu pensamento — cada detalhe dela parecia ter ficado preso em algum canto da sua memória.
E agora, ali estava ela, tão linda, do outro lado da rua.
Helena.
O coração dele tropeçou dentro do peito.
Ela vestia um vestido cor de terra, que o vento insistia em mover a saia com doçura.
Alguns fios de cabelo escapavam e roçavam-lhe o rosto.
Havia algo de irreal naquela cena — ela parecia um anjo.
Por um breve instante, Santiago esqueceu quem era, onde estava, o tempo à volta. O sol refletia nos fios castanhos claros do cabelo dela e criava uma aura tênue, como se a realidade se transformasse em pintura diante dele.
O escultor ao seu lado ainda falava, alheio ao silêncio que tomou conta de Santiago.
Ele não ouvia mais nada. O trânsito, as vozes, o ruído da cidade — tudo se apagou. Restava apenas o som abafado do próprio coração.
Então ela começou a atravessar a rua.
Sorrindo. Um sorriso sútil, quase distraído, que se abriu como um raio de sol entre nuvens.
Ela tentou se mover, mas ele a segurou por reflexo — devagar, ainda com o instinto de quem temia perdê-la para o perigo que já passou.
Então, ela ergueu o rosto.
E Santiago a viu de verdade.
Os olhos dela tão perto — verdes, vivos, profundos — o atingiram com uma força que não sabia explicar.
Olhar para eles era como atravessar um bosque recém-molhado pela chuva: o ar frio, o silêncio suspenso, e o coração batendo de um jeito novo, sem aviso.
E naquele instante, ele entendeu.
Não eram apenas olhos.
Eram um lugar — em que ele, sem perceber, acabara de entrar.

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