“Há momentos que parecem um erro de pincel, mas acabam se tornando o traço mais bonito da tela.”
Helena mal conseguia respirar.
O coração batia com força contra as costelas, o mundo girava devagar, como se ela ainda estivesse presa no instante anterior ao impacto.
Ele estava ali — sob ela — os braços ainda a envolvendo com força, resistindo a soltá-la.
Por um instante, nada fazia sentido.
Aquele homem com o peito ofegante parecia ter surgido do nada, moldado pelo próprio destino para salvá-la.
Ela o observou.
Os cabelos desalinhados, o rosto sério, e aqueles olhos — estavam tão próximos que ela conseguia enxergar a cor levemente mais clara em torno da iris cor de mel — intensos e calmos ao mesmo tempo.
Percebeu que o encarava por tempo demais, mas não conseguiu desviar o olhar.
O tempo parecia se dobrar entre eles.
— Você... — tentou dizer algo, mas a voz falhou. Havia um tremor nela, o som de quem quase se despede da vida, mas é trazido de volta por um milagre.
A mão dele, ainda trêmula, tocou de leve o rosto dela só para se certificar de que ela era real. E sorriu, um meio sorriso que nascia entre o alívio e a ternura.
— Foi por pouco — murmurou, a voz rouca, baixa demais para o caos que ainda ecoava ao redor.
O mundo voltou a existir quando pessoas começaram a se aproximar, curiosas.
Helena se ergueu e ele a ajudou a sentar-se, ainda sem soltar seu braço, como se temesse que ela desaparecesse.
O olhar dela refletia algo entre confusão e gratidão.
— Eu... — tentou de novo, mas o fôlego ainda não acompanhava as palavras.
Santiago se levantou e estendeu as mãos, puxando-a com delicadeza.
— Está machucada?
Ela olhou o próprio corpo, só então percebendo o arranhado no joelho — o tipo de ferida leve que lembra a infância.
— Estou bem... eu acho. — E então olhou para ele, dos pés à cabeça. — Seu ombro... está sangrando. Acho melhor irmos ao hospital.
Ele franziu o cenho, movendo o braço.
— Não precisa. Não quebrou nada.
— Mas não pode ficar assim... — disse, olhando ao redor, aflita, talvez à procura de uma farmácia.
Ele notou o ferimento no joelho dela e respondeu:
— Venha. Tenho uma caixa de primeiros socorros no escritório.
Segurou a mão dela, conduzindo-a pela rua como quem guia alguém de volta à segurança.
No elevador, Helena olhou para a mão ainda entrelaçada na dele — e se surpreendeu ao perceber que não sentia necessidade de soltá-las.
Santiago também olhou, e aquilo pareceu-lhe tão natural.
Inclinou-se ligeiramente e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, prendendo-a delicadamente atrás da orelha. O gesto durou mais do que o necessário, como se cada segundo tivesse sido esticado para apreciar o momento, a intimidade silenciosa entre eles.
Seus olhos, quase sem querer, deslizaram para os lábios dela — carnudos, levemente rosados, com uma curva que o desafiava a resistir.
Helena sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Constrangida, mordeu o lábio inferior de forma involuntária, e ele desviou o olhar, capturado pela profundidade dos olhos dela. Por um instante, o mundo parecia se reduzir àquele espaço apertado, ao calor entre eles e à eletricidade do toque de suas mãos.
Estavam de frente um ao outro quando as portas se abriram, trazendo-os de volta a realidade.
A recepcionista se levantou assustada.
— Sr. Villar... meu Deus! O senhor está bem?
— Está tudo certo. Não se preocupe — respondeu com serenidade, guiando Helena até sua sala.
Só então soltou a mão dela. Foi até um pequeno banheiro, embutido em uma parede ripada, e retornou com uma caixa branca.
— Sente-se aqui, por favor. — Disse, indicando o sofá. Ajoelhou-se diante dela e estendeu as mãos hesitantes para o joelho ferido. — Deixe-me ver.
Helena piscou, surpresa, antes de entender.
— Oh, não... estou bem. É você quem precisa de cuidado.
— Mas está sangrando.
— Eu caí sobre você — respondeu com calma, quase sorrindo. — Isso é só um arranhão. Me dê isso.
Tomou a caixa das mãos dele com firmeza. Ele a encarou, surpreso, os lábios entreabertos.

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