Helena se recompôs no banheiro enquanto Santiago vestia uma camisa limpa em sua sala. O reflexo no espelho revelava suas bochechas ainda coradas e o coração um pouco descompassado.
Deveria estar abalada pelo susto, mas, curiosamente, sentia-se mais desperta do que nunca — como se algo dentro dela tivesse sido reanimado, como se o susto lhe tivesse dado mais do que tirado.
Ao sair, o encontrou ajeitando os cabelos com as mãos, diante da janela aberta por onde entrava o ar morno do meio-dia.
— Está pronta? — perguntou ele, ao vê-la se aproximar.
— Sim. — respondeu com um sorriso contido, e, sem pensar, ergueu a mão para ajeitar uma mecha teimosa sobre a testa dele.
O gesto saiu natural demais. Só percebeu a intimidade daquilo quando sentiu o olhar dele preso ao seu.
O tempo pareceu suspenso por um breve instante — um fio invisível ligando os dois.
— Vamos? — murmurou, tentando disfarçar o embaraço e retomar o controle da própria respiração.
Ele assentiu com um sorriso breve, e desceram juntos.
Quando chegaram à calçada, Santiago fez menção de seguir para a garagem, mas Helena o deteve:
— Acho melhor irmos no meu carro. Seu ombro... você não deveria dirigir assim.
Ele a olhou por alguns segundos, como se ponderasse algo além da proposta.
— Está bem. — concordou, rendendo-se com uma expressão serena.
O sol refletia no capô do carro, projetando pequenos brilhos nas laterais. Quando Santiago abriu a porta do passageiro, deteve-se ao ver um grande embrulho repousando sobre o banco.
Lançou-lhe um olhar divertido.
— Acho que o banco está ocupado.
Helena deu a volta até ele e, só então, lembrou-se do motivo de ter ido até lá.
— Ah, meu Deus... com tudo que aconteceu, acabei esquecendo. — disse, rindo nervosa. — Isto é pra você. Uma forma de agradecer pelo outro dia.
— Você veio até aqui pra me ver? — perguntou, surpreso.
O peito dele se aqueceu. Não a procurara por medo de afastá-la, mas saber que ela estava ali por ele reacendeu algo que tentava ignorar — esperança.
— Sim, mas... — desviou o olhar — não é nada luxuoso. É só algo que eu fiz.
Santiago pegou o embrulho com cuidado.
— Posso abrir?
— Claro. — respondeu Helena, tímida.
Ela assentiu, baixando o olhar.
Santiago sentiu um nó na garganta.
Queria dizer tantas coisas — sobre o quanto aquela pintura o tocava, sobre o quanto ela o tocava, mas não havia palavras que coubessem.
O peito dele se encheu de uma esperança que parecia antiga, guardada em algum canto do coração e esquecida pelo tempo.
Uma esperança simples, mas devastadora: a de tê-la por perto.
De, enfim, não precisar apenas admirá-la de longe.
Ele engoliu em seco, e por fim disse, baixo, mas com uma sinceridade que o fez estremecer:
— É a coisa mais impressionante que já ganhei.
O olhar dele a encontrou, intenso, firme — e nela, algo se desfez.
Por um breve instante, o mundo pareceu um quadro que só os dois habitavam.
E o sol, refletindo na pintura, tingia tudo com um brilho de começo.

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