O carro avançou pelas ruas banhadas de luz.
O sol filtrava-se pelas copas das árvores, projetando sombras dançantes no painel.
Helena dirigia tranquila, mas o coração insistia em acelerar — cada vez que o via pelo canto do olho, relaxado no banco ao lado, o braço apoiado na porta, a luz desenhando dourados nos fios de seu cabelo.
— Onde vamos almoçar? — perguntou ele, num tom casual, tentando quebrar o silêncio que, apesar de leve, carregava tensão demais.
— Há um restaurante perto da praça central — disse ela. — Pequeno, mas encantador. A comida é boa e o lugar tem uma varanda com vista para o jardim.
— Parece perfeito. — comentou Santiago, sorrindo de canto. — Você parece ter um talento pra encontrar refúgios bonitos.
Ela riu, virando a esquina.
— Acho que sempre procurei lugares onde o tempo desacelera um pouco.
— Entendo bem. — admirou-a discretamente, algo dentro dele o impelindo a dizer que gostaria de ser um desses refúgios para ela, mas se conteve. Queria ir com calma para não assustá-la.
O trânsito era calmo, e o som da cidade se misturava com o de alguma música leve que tocava no rádio.
Por alguns instantes, Helena esqueceu o turbilhão dos últimos dias. O ar parecia mais leve, e o mundo, de repente, cabia dentro daquela pequena distância entre eles.
Quando estacionaram, o restaurante se revelava sob toldos brancos, com mesas à sombra de jabuticabeiras em flor. A luz atravessava as folhas, projetando pequenos desenhos sobre o chão e sobre os rostos.
Helena desligou o carro e respirou fundo antes de sair.
— Curioso como o sol parece mais brilhante depois de um susto, não acha?
Santiago sorriu, abrindo a porta pra ela.
— Ou talvez seja a gente que passa a enxergar melhor a luz.
Ela o olhou, por um segundo longo demais, antes de desviar o olhar e caminhar à frente. O som dos passos sobre o cascalho, o aroma de comida fresca e a conversa leve de outros clientes enchiam o ar de uma paz quase palpável.
Escolheram uma mesa na varanda.
— Espero que goste daqui — disse ela, enquanto se sentava. — É simples, mas acolhedor.
— É perfeito — respondeu ele. — Acho que estou começando a entender o que te inspira.
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida. — E o que seria isso?
— A beleza das coisas que quase passam despercebidas. — Ele deu um meio sorriso. — Você tem um dom pra enxergar o extraordinário no comum.
Helena desviou o olhar, mexendo no guardanapo, e ele a observou em silêncio, sentindo as palavras se acumularem na garganta.
Não era apenas a beleza dela que o prendia — havia algo mais profundo, quase imaterial, que lhe tocava a alma.
Ao longo dos anos, aprendera a reconhecer os olhares que o buscavam pelo nome que carregava, pelas portas que podia abrir. Acostumara-se a olhares interessados demais, a gestos ensaiados, a conversas que soavam ocas apesar do brilho.
Mas Helena...
Helena não queria nada dele.
Era isso que o desarmava.
Tinha uma luz própria, uma simplicidade que não se confundia com ingenuidade — e uma presença que parecia restaurar o que o tempo havia endurecido nele.
Havia verdade em cada gesto, em cada palavra.
E, diante dela, ele se descobria vulnerável de um modo que nem sabia ser possível.
O garçom se aproximou, interrompendo a tensão suave que os envolvia.
— O de sempre pra mim, por favor — disse Helena.
Santiago a olhou, curioso. — “O de sempre”?
— Sim. — Ela riu. — Quando preciso pensar, venho aqui. E sempre peço o mesmo prato: risoto de limão siciliano com filé de salmão. É leve e tem gosto de claridade.
— Então eu quero o mesmo. — respondeu ele. — Gosto da ideia de provar o sabor que te traz clareza.
Helena sorriu sentindo o coração disparar.
Havia algo no modo como ele dizia as coisas — uma gentileza que soava quase perigosa.
Enquanto esperavam, ele observou o reflexo dela no copo d’água.
O sol brincava com os fios do cabelo dela, e por um instante, teve certeza:
nenhuma obra, por mais bela que fosse, conseguiria capturar o que Helena irradiava naquele momento.
Ela o notou observando.
— O que foi? — perguntou, sorrindo.
— Só pensei... — ele hesitou, depois completou: — que o mundo anda um pouco mais bonito hoje.
— E é exatamente isso que te torna única. — completou ele. — Você não pinta o que vê, pinta o que sente. Isso é raro.
Ela ficou em silêncio por um momento, tocando distraidamente o anel fino no dedo.
— A verdade é que quero voltar a me dedicar à pintura. Tenho pensado nisso há algum tempo ... só estava tentando entender como dar os primeiros passos, sem grandes pretensões.
— Então comece. — disse ele, firme, com aquele brilho determinado que ela sempre associara ao nome Villar. — E deixe-me te ajudar.
Ela o olhou, surpresa. — Ajudar como?
Santiago se inclinou um pouco mais, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
— Com a sua primeira exposição.
— O quê? — ela sussurrou, incrédula.
— Eu quero apresentar o seu trabalho, Helena. Quero que as pessoas vejam o que eu vi hoje, não só no quadro, mas em você. — Ele deu um pequeno sorriso. — E seria uma honra para mim ser o primeiro a expor sua arte.
Ela piscou, confusa entre emoção e descrença. — Santiago, eu... eu estou enferrujada. Não estou pronta para algo assim.
— Está. — respondeu ele sem hesitar. — Talvez não perceba, mas está. Às vezes, o talento só precisa de um empurrão gentil.
Helena sentiu algo dentro dela se abrir, como se uma porta tivesse se destrancado.
— Você fala como se acreditasse mais em mim do que eu mesma.
— Eu acredito. — disse ele, baixo. — Sempre acreditei. Desde a faculdade, quando todos viam só uma menina distraída com tintas, eu já enxergava o que você podia se tornar.
Ela prendeu a respiração. O pensamento de que ele já a notava antes lhe aquecendo o coração.
— E se eu aceitar? — perguntou, a voz quase um sussurro. — Por onde começamos?
— Pelo que você faz de melhor — respondeu ele, sorrindo. — Pintando.
O garçom se aproximou discretamente para retirar os pratos, e eles agradeceram em uníssono. Quando ficaram sozinhos novamente, o silêncio que veio não era incômodo. Era cheio.
Cheio de promessas, de cores ainda não misturadas, de uma história que começava a ser esboçada ali, sob o sol da tarde que se iniciava.
Lá fora, o mundo seguia apressado, indiferente.
Mas entre eles, o tempo se dilatava, movendo-se devagar — como tinta fresca deslizando sobre a tela — desenhando, aos poucos, o contorno de algo que ainda não tinha nome, mas já pulsava no ar, como algo inevitável.

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