O sol já havia descido um pouco, derramando um brilho quente pelas calçadas quando eles saíram do restaurante. O ar tinha cheiro de flor e de rua aquecida.
Helena dirigia de volta ao escritório, em silêncio, sentindo o vento brincar com seus cabelos.
Santiago parecia distraído, mas havia algo pensativo em seu olhar — algo que se misturava entre preocupação e desejo contido.
Ao chegarem, ele a fitou por um instante. O silêncio entre os dois pareceu ganhar corpo, denso e confortável ao mesmo tempo.
Foi então que ele perguntou, com a voz baixa, quase hesitante:
— Naquele dia... no hospital... — fez uma pausa breve, escolhendo as palavras. — você disse que já estava resolvendo as coisas. Conseguiu?
Helena o olhou surpresa. Por um instante, o coração perdeu o compasso.
Desviou o olhar, tamborilando o dedo no volante, como quem tenta disfarçar um rubor que teima em subir.
— Ainda não completamente — respondeu com um sorriso curto, um tanto envergonhado. — Mas falta muito pouco.
Santiago manteve o olhar nela, atento, como se procurasse decifrar o que não estava sendo dito.
Helena, por dentro, sentia o pensamento pulsar firme e silencioso: “Amanhã... amanhã seria o fim.”
— Fico feliz em saber — disse ele, por fim, num tom baixo, mas carregado de significado. — Às vezes, encerrar algo é o primeiro passo pra começar o que realmente importa.
Ela o encarou por um instante, e o mundo pareceu diminuir em volta deles. Havia um brilho novo nos olhos de Santiago, algo que era metade ternura, metade desejo, mas que ele disfarçou com um sorriso leve.
— Obrigado pelo almoço, Helena. — Sua voz soava sincera, quase rouca. — E pelo presente... de verdade.
Ela assentiu, os lábios curvando-se em um sorriso tímido.
— Eu que agradeço... por tudo. Você salvou minha vida.
Por um breve segundo ele pareceu prestes a se aproximar — talvez para um beijo na face, talvez para um toque... mas conteve o gesto, limitando-se a afastar uma mecha solta do cabelo dela com a ponta dos dedos.
O toque foi leve, mas fez o ar entre eles estremecer.
— Nos vemos em breve — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro.
Ela apenas assentiu, o coração batendo rápido demais para responder.
Santiago abriu a porta do carro, pegou o quadro no banco de trás, e se despediu com um aceno.
Quando ela ligou o motor e olhou pelo retrovisor, ele ainda estava lá — parado na calçada, observando enquanto ela se afastava.
O sol, um pouco alaranjado, refletia no vidro do carro e criava a ilusão de que havia fogo dentro. Talvez houvesse.
Helena respirou fundo, mas um sorriso involuntário escapou-lhe.
As lembranças do almoço, o tom da voz dele, o olhar que a seguia — tudo parecia pintar dentro dela uma nova paisagem, onde as cores voltavam, finalmente, a ter sentido.
E enquanto o carro seguia pela avenida, ela repetia mentalmente:
“Amanhã... amanhã...”
...............
Santiago voltava para o escritório com um sorriso que parecia ter vontade própria — desses que nascem por dentro e não se apagam, mesmo que se tente.
O sol da tarde refletia nas vitrines da rua, e ele se viu nelas como se observasse outro homem: um que tinha o coração leve e o passo firme, um que acabara de almoçar com a mulher que jamais conseguira esquecer.
Assim que cruzou o saguão da galeria, o burburinho foi inevitável.
Os funcionários, acostumados à postura sempre contida do chefe, elegante e reservado, se entreolhavam em sussurros discretos.
— Você viu o jeito que ele olhava pra ela? — murmurou uma das curadoras.
— Vi, sim. E aquele sorriso... — respondeu outra, tentando disfarçar a curiosidade. — Desde quando o doutor Villar aparece de mão dada com alguém?



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