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Quadros de um divórcio romance Capítulo 29

Silvia entrava no restaurante de um hotel sofisticado ao lado de Cássio, uma das mãos descansando em seu braço em um gesto íntimo demais.

Ao entrar todos os olhavam.

Com um vestido tubinho vermelho que mostrava os contornos de seu corpo, ainda não aparentando sinais da gravidez, combinando com o batom em sua boca, e uma sandália alta cor de cobre que evidenciava ainda mais as suas pernas.

Ela sabia que chamava atenção, o que não sabia é que a atenção que chamava naquele momento não era do tipo que ela apreciava.

Cássio era um homem conhecido, e mesmo que ele tentasse a todo custo esconder Helena, os Duarte eram importantes demais, e todos sabiam que ele era casado com a filha deles.

E vê-lo ali, exibindo outra mulher em público como se não fosse nada demais, causava certa repulsa nas pessoas.

Mas ele aparentemente não notava aqueles olhares condenatórios, muito menos Silvia.

Silvia estava se sentindo radiante, conseguirá fazer com que Cássio passasse os últimos dias com ela, ou seja, evitou que ele voltasse para Helena.

Ele tem sido mais difícil de controlar sim, era verdade, mas ela conhecia os homens bem demais. E Cássio seria dela, ela tinha certeza disso.

Agora ela só precisava tirar Helena de vez do jogo.

Assim que se sentaram, o celular começou a vibrar em sua bolsa. Ela estava esperando aquela ligação a mais de um dia, já desconfiando da competência do homem em realizar algo tão simples. Mas agora, diante de Cássio, como ela atenderia?

Cássio vendo a expressão diferente dela, perguntou?

— Algum problema?

— Não, eu só preciso ir no banheiro. Volto já! — disse levantando e já se afastando rapidamente.

Ao chegar no banheiro, finalmente atendeu ansiosa:

— E então?

— Nada feito. — respondeu a voz misteriosa do outro lado. — Um sujeito apareceu do nada e a salvou.

— Mas como isso é possível? Como você pode errar em algo tão simples? — Esbravejou com a voz carregada de irritação.

— Se é simples, por que você mesma não faz? — Desafiou o homem.

— Você está louco? Você sabe que não posso me envolver. Aliás... lembre-se que não sou só eu que vou ganhar com isso.

— Tá, tá... haverá outra oportunidade.

— E espero que tenha êxito da próxima vez. — Bufou frustrada.

— Vou te mandar uma coisa que acho que vai gostar...

— Ah é? O que? — perguntou interessada.

— Você já vai ver... — disse e deligou a ligação.

Em seguida, ela recebeu uma foto em seu celular.

Sorriu friamente encarando-a, olhou seu reflexo no espelho, nenhum fio de cabelo fora do lugar.

Esticou o corpo e voltou para a mesa com a naturalidade de uma predadora vil.

Cássio, ao vê-la voltar, perguntou:

A lembrança do carro surgia em flashes, e cada camada de tinta escura carregava a tensão daquele instante — o som repentino do motor, o coração disparado, o tempo dobrando-se em segundos eternos.

Limpou o pincel e observou a tela quase toda negra. Respirou fundo, estendendo novamente o pincel para fazer surgir duas fontes de luz: dois faróis que rasgavam a escuridão, iluminando um pouco a estrada à frente.

A dianteira do carro se limitava a poucos traços fantasmagóricos, quase engolidos pela penumbra, como se a própria luz o ofuscasse.

Por um instante, Helena voltou àquele exato momento, fitando os faróis do carro, hipnotizada pelo brilho que parecia querer cobrar-lhe a vida.

Então, com delicadeza, traçou o contorno de um cervo.

Apenas as partes onde a luz incidia, o reflexo da luz nos delicados pelos do animal, de costas, imóvel frente ao carro, também hipnotizado pela claridade que se abria em sua direção.

Quanto mais o pintava, mais percebia que não era só o cervo: era ela própria ali, congelada entre ameaça e sobrevivência.

Pintar o medo era, de alguma forma, retirá-lo de dentro de si, camada por camada, até restar apenas a essência.

Deu um passo atrás e observou o conjunto. O quadro parecia respirar.

A noite preenchia a maior parte da tela, mas a luz não se limitava a iluminar apenas o cervo. Ela incidia sobre o instante anterior ao perigo, sobre a tensão e a frágil beleza de estar viva.

Cada contraste entre claro e escuro narrava mais do que a história de um animal na estrada: contava sobre choque, medo e a força silenciosa de permanecer firme diante do impossível.

Helena finalmente compreendeu: aquela tela não era sobre medo. Era sobre sobrevivência. Sobre o que nasce depois que a vida quase acaba.

E, talvez, sobre o primeiro quadro de uma nova era.

Ela suspirou e olhou pela janela, onde a noite se estendia como a escuridão da tela. Mas, dessa vez, não havia pressa, nem ameaça — apenas a calma de quem pintou a própria força, transformando o medo em arte.

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