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Quadros de um divórcio romance Capítulo 31

Cássio ainda não conseguia se acalmar.

O som abafado da cidade parecia zombar do turbilhão dentro dele.

Tudo o que queria era voltar para casa, ver Helena — mas o destino o mantinha preso ali, num hotel caro, a quilômetros de distância, com a mulher errada.

Suspirou pesado, o corpo cansado demais para pensar com clareza, e ainda assim, incapaz de descansar.

A simples ideia de voltar para o quarto e encarar Sílvia o enojava.

Precisava de ar.

Seguiu para o bar do hotel. O ambiente era elegante e silencioso, pontuado apenas pelo tilintar dos copos e pela música de fundo.

Escolheu o assento mais distante do balcão e pediu uma dose de uísque.

Virou-a de uma vez, sentindo o calor queimar-lhe a garganta e, com um gesto seco, pediu outra.

A imagem de Helena sorrindo — na foto, com Santiago — voltava como um soco.

Não... ela não podia estar o traindo.

Não Helena. Ela era doce demais, pura demais.

Mas a dúvida era uma serpente — e ele sentia o veneno se espalhar.

E então, de repente, veio o pensamento que mais o dilacerou: “E eu?”

Ele, que dizia amá-la, que prometera fidelidade... e agora?

Silvia estava grávida dele.

Passou as mãos pelo rosto, exausto.

O peso da culpa misturava-se à raiva.

Pediu a terceira dose.

— Pode deixar a garrafa — disse ao garçom, a voz rouca.

O garçom apenas assentiu e se afastou.

Cássio serviu-se outra vez, lembrando das palavras de Helena ecoando em algum canto da memória:

“Eu te amo, Cássio. Mas se um dia você me trair, acabou.”

E a resposta dele, tão confiante, tão estúpida agora:

“Eu nunca te trairia.”

Encostou o copo no balcão e riu baixo — um riso amargo, quase um soluço.

O que ele havia feito?

Helena era tudo. Inteligente, sensível, linda. O tipo de mulher que tornava qualquer outro amor pequeno.

E ainda assim, ele quebrou a promessa que havia feito a ela.

Mas não foi de propósito, tentou convencer-se.

Talvez só se sentisse... menor ao lado dela.

Sempre tão forte, tão segura, tão luminosa.

Ele, por outro lado, carregava a sombra do próprio orgulho — o medo de não ser suficiente.

O uísque queimava, e com cada gole, o mundo perdia um pouco do foco.

A autocompaixão misturava-se à autopunição.

E lá estava ele, sozinho, entre o ego ferido e o medo.

Quando o garçom voltou para recolher os copos, a garrafa já estava quase vazia.

E foi nesse momento que Sílvia apareceu com o sorriso mais doce.

— Amor, você bebeu demais — disse, tocando o ombro dele.

Capítulo 31 - Autorretrato em ruínas 1

Capítulo 31 - Autorretrato em ruínas 2

Capítulo 31 - Autorretrato em ruínas 3

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