Cássio ainda não conseguia se acalmar.
O som abafado da cidade parecia zombar do turbilhão dentro dele.
Tudo o que queria era voltar para casa, ver Helena — mas o destino o mantinha preso ali, num hotel caro, a quilômetros de distância, com a mulher errada.
Suspirou pesado, o corpo cansado demais para pensar com clareza, e ainda assim, incapaz de descansar.
A simples ideia de voltar para o quarto e encarar Sílvia o enojava.
Precisava de ar.
Seguiu para o bar do hotel. O ambiente era elegante e silencioso, pontuado apenas pelo tilintar dos copos e pela música de fundo.
Escolheu o assento mais distante do balcão e pediu uma dose de uísque.
Virou-a de uma vez, sentindo o calor queimar-lhe a garganta e, com um gesto seco, pediu outra.
A imagem de Helena sorrindo — na foto, com Santiago — voltava como um soco.
Não... ela não podia estar o traindo.
Não Helena. Ela era doce demais, pura demais.
Mas a dúvida era uma serpente — e ele sentia o veneno se espalhar.
E então, de repente, veio o pensamento que mais o dilacerou: “E eu?”
Ele, que dizia amá-la, que prometera fidelidade... e agora?
Silvia estava grávida dele.
Passou as mãos pelo rosto, exausto.
O peso da culpa misturava-se à raiva.
Pediu a terceira dose.
— Pode deixar a garrafa — disse ao garçom, a voz rouca.
O garçom apenas assentiu e se afastou.
Cássio serviu-se outra vez, lembrando das palavras de Helena ecoando em algum canto da memória:
“Eu te amo, Cássio. Mas se um dia você me trair, acabou.”
E a resposta dele, tão confiante, tão estúpida agora:
“Eu nunca te trairia.”
Encostou o copo no balcão e riu baixo — um riso amargo, quase um soluço.
O que ele havia feito?
Helena era tudo. Inteligente, sensível, linda. O tipo de mulher que tornava qualquer outro amor pequeno.
E ainda assim, ele quebrou a promessa que havia feito a ela.
Mas não foi de propósito, tentou convencer-se.
Talvez só se sentisse... menor ao lado dela.
Sempre tão forte, tão segura, tão luminosa.
Ele, por outro lado, carregava a sombra do próprio orgulho — o medo de não ser suficiente.
O uísque queimava, e com cada gole, o mundo perdia um pouco do foco.
A autocompaixão misturava-se à autopunição.
E lá estava ele, sozinho, entre o ego ferido e o medo.
Quando o garçom voltou para recolher os copos, a garrafa já estava quase vazia.
E foi nesse momento que Sílvia apareceu com o sorriso mais doce.
— Amor, você bebeu demais — disse, tocando o ombro dele.



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