“Mesmo na paleta mais calma, há tons que anunciam a ameaça.”
Na manhã seguinte, o relógio marcava pouco mais que oito horas quando Santiago ouviu duas batidas leves na porta.
Ele levantou o olhar do notebook e, ao reconhecer o rosto familiar, um sorriso cansado se formou.
— Ei, Santi! — disse Marcelo, abrindo um sorriso largo ao entrar no escritório.
— Fala, meu velho. — Santiago se levantou, e os dois se cumprimentaram com um abraço bruto com bons t***s nas costas, do tipo que só bons amigos dão.
Marcelo jogou-se na poltrona à frente da mesa e soltou um suspiro.
Santiago percebeu — o semblante do amigo estava diferente, mais sério do que o habitual.
— E aí? — perguntou, voltando a se sentar. — O que tem pra mim?
O detetive apoiou os cotovelos na mesa, respirou fundo e tirou uma pasta da bolsa que trazia consigo, entregando-a a Santiago.
— Você estava certo — disse, com a voz baixa, entregando o material.
Santiago pegou a pasta e a abriu, os dedos tensos.
Dentro, havia algumas fotográficas e um pen drive.
Marcelo continuou, com o tom de quem pesava cada palavra:
— Revirei as câmeras de toda a região, uma por uma. Aquele carro… não estava perdido, nem em alta velocidade à toa. — Fez uma pausa breve. — Ele chegou logo depois do carro da sua garota e ficou parado com o motor ligado. E só arrancou quando ela já atravessava.
Santiago ficou em silêncio. A mandíbula travada. O ar parecia pesar no ambiente.
Fechou os olhos por um instante, tentando conter o impulso que lhe apertava o peito, aquele que vinha sempre que algo tocava o nome dela.
— Conseguiu ver o motorista? — perguntou, por fim, a voz firme, mas carregada.
— Infelizmente, não. — Marcelo balançou a cabeça. — O vidro era escurecido. Mas… — puxou uma das fotos da pasta — consegui a placa.
Santiago pegou-a, olhando-a rapidamente e levantou o olhar, tenso.
Marcelo completou:
— O carro está registrado em nome de uma empresa de fachada. Criada há menos de um ano. Nenhum funcionário, nenhum endereço fixo.
Um silêncio pesado se instalou.
— Uma empresa de fachada… — murmurou Santiago, encostando-se à cadeira. — Então não foi acidente. Alguém realmente tentou acertá-la.
— É o que parece. — Marcelo cruzou os braços. — Vou continuar cavando. Mas, se fosse você, ficava de olho nela.
Santiago passou a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Eu já estou — respondeu, num tom que misturava cansaço e determinação. — Mas vou precisar de mais um favor teu.
— Diga.
— Quero que coloque alguém com ela. Um segurança, 24 horas por dia. Mas discreto. — Fitou o amigo com seriedade. — Não quero que ela perceba. Se ela souber, vai se assustar.
Marcelo arqueou as sobrancelhas, pensativo.
— Entendido. Acho que tenho o cara certo pra isso.
Santiago assentiu, confiante.
E observou o amigo parecendo se lembrar de algo.
— Quando te falei o nome dela na ligação... você achou interessante... por quê?
Marcelo deu um meio sorriso, coçando a barba como quem pondera se deve ou não dizer.
— Pois é. Na verdade, esse nome me chamou atenção por um motivo curioso. — Fez uma pausa breve, depois prosseguiu: — Há um tempo, uma advogada me procurou. Lívia, o nome dela. Me contratou pra levantar informações sobre um sujeito, pra um processo que uma amiga dela pretendia mover contra ele.
Santiago franziu o cenho, sentindo um leve arrepio na nuca.
— E...?
— Essa amiga é a sua garota — respondeu Marcelo, direto. — Helena Duarte.
Caminhou até o quadro de Helena, agora emoldurado e pendurado na parede.
Suas cores, sob a luz dourada da manhã, pareciam ainda mais vivas, quase pulsantes.
Era uma ironia — aquela pintura, feita por ela, o havia salvado de formas que ela jamais imaginaria. Servia de um lembrete constante de que ainda havia tempo... e que o tempo, agora, seria para protegê-la.
Pegou o celular e abriu uma nova mensagem.
“Helena, posso te ver hoje a noite? Preciso falar com você.”
A hesitação durou segundos. Então, enviou.
O aparelho vibrou de volta pouco depois.
“Sinto muito, hoje tenho um evento para ir. Pode ser amanhã?
Evento?
Santiago franziu o cenho, pensativo.
Caminhou até a mesa, revirando uma pilha de papéis até encontrar o que procurava — um convite azul, com a logo dourada do Studio Cassiani impressa no centro.
Abriu-o e confirmou a data.
“Bingo.” Provavelmente seria esse o evento ao qual ela se referia.
Pegou o celular novamente e digitou apenas uma palavra:
“Claro!”
Mas, ao deixar o aparelho sobre a mesa, um meio sorriso curvou-lhe os lábios.
Ele sabia que não esperaria até o dia seguinte.
Veria Helena ainda naquela noite — de um jeito ou de outro.
Pois uma coisa era certa: Santiago Villar não deixaria mais nada — nem o acaso, nem o medo — decidir por ele.

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