A primeira coisa que Cássio sentiu foi o peso.
O peso na cabeça, no corpo, no estômago — e o gosto amargo da ressaca, misturado ao vazio de algo que não lembrava direito.
Abriu os olhos devagar. A claridade invadia o quarto, ferindo sua vista.
Por alguns segundos, não reconheceu o lugar. O teto branco, o abajur moderno, o lençol amarrotado.
Então, a lembrança veio em fragmentos: a foto de Helena com Santiago. O bar. O uísque. Depois — nada.
Como se alguém houvesse cortado uma parte da sua linha do tempo.
Virou-se. Silvia dormia esparramada do outro lado da cama, o lençol mal cobrindo o corpo. O cabelo curto, no ombro, deixando a mostra os contornos de suas costas nuas.
Cássio se sentou apoiando os cotovelos nos joelhos, e esfregou o rosto. O quarto girava levemente. Mas logo algo o incomodou. Olhou pela janela, lá fora, o sol já estava alto demais. Algo estava errado.
Levantou num salto, o coração disparando.
— Droga! — exclamou, procurando o celular.
Encontrou-o no bolso da calça, jogada aos pés da cama.
A tela confirmou o que temia: 10h27. O voo era às oito.
— Silvia! — gritou, a voz rouca. — Acorda! Perdemos o voo!
Ela se mexeu lentamente, como quem desperta de um sonho leve.
— O quê? — perguntou, num tom arrastado, encenando confusão. — Já é tão tarde assim?
— Já passou das dez horas! Precisamos sair agora. — respondeu, enquanto recolhia as roupas do chão.
Ela sentou-se, ajustando o lençol ao corpo.
— Ah, amor… calma. A gente resolve.
— Resolve? — bufou. — Esqueceu que o evento da empresa é hoje? Faltam menos de dez horas e eu tenho muito ainda para resolver antes disso.
— Não adianta se desesperar. — Um sorriso quase imperceptível curvou-lhe os lábios. — Posso ligar pedindo o próximo voo, se quiser.
— Eu resolvo — cortou ele, desaparecendo no banheiro.
A porta bateu, e o som da água logo preencheu o ambiente.
Sílvia suspirou, observando o reflexo no espelho do quarto. A farsa tinha funcionado melhor do que esperava. Quanto mais ele atrasasse, menos tempo teria para ir atrás de Helena antes do evento, restando-a como sua única acompanhante.
Quanto mais pessoas a vissem ao seu lado, ainda mais em um evento tão importante, mais fácil seria tomar o lugar de sua esposa.
E isso era tudo o que ela queria. Tudo que ela precisava.
No banheiro, Cássio discava o número de sua secretária.
— Fernanda, perdemos o voo. Reserve o próximo com urgência. — A voz soava seca, impaciente.
Alguns minutos depois, o retorno veio.
— Doutor, só consegui reservas pro voo das treze horas.
Cássio fechou os olhos, frustrado.
— Certo... confirma esse. — Desligou e apoiou-se na pia.
Encarou o próprio reflexo no espelho — cabelo desgrenhado, olheiras fundas, barba por fazer, a pele marcada pela exaustão e algo mais.
Tentou se lembrar da noite anterior, mas a memória era um borrão.
Um mau pressentimento tomou forma — algo no fundo dizia que não queria mesmo se lembrar.

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