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Quadros de um divórcio romance Capítulo 33

A primeira coisa que Cássio sentiu foi o peso.

O peso na cabeça, no corpo, no estômago — e o gosto amargo da ressaca, misturado ao vazio de algo que não lembrava direito.

Abriu os olhos devagar. A claridade invadia o quarto, ferindo sua vista.

Por alguns segundos, não reconheceu o lugar. O teto branco, o abajur moderno, o lençol amarrotado.

Então, a lembrança veio em fragmentos: a foto de Helena com Santiago. O bar. O uísque. Depois — nada.

Como se alguém houvesse cortado uma parte da sua linha do tempo.

Virou-se. Silvia dormia esparramada do outro lado da cama, o lençol mal cobrindo o corpo. O cabelo curto, no ombro, deixando a mostra os contornos de suas costas nuas.

Cássio se sentou apoiando os cotovelos nos joelhos, e esfregou o rosto. O quarto girava levemente. Mas logo algo o incomodou. Olhou pela janela, lá fora, o sol já estava alto demais. Algo estava errado.

Levantou num salto, o coração disparando.

— Droga! — exclamou, procurando o celular.

Encontrou-o no bolso da calça, jogada aos pés da cama.

A tela confirmou o que temia: 10h27. O voo era às oito.

— Silvia! — gritou, a voz rouca. — Acorda! Perdemos o voo!

Ela se mexeu lentamente, como quem desperta de um sonho leve.

— O quê? — perguntou, num tom arrastado, encenando confusão. — Já é tão tarde assim?

— Já passou das dez horas! Precisamos sair agora. — respondeu, enquanto recolhia as roupas do chão.

Ela sentou-se, ajustando o lençol ao corpo.

— Ah, amor… calma. A gente resolve.

— Resolve? — bufou. — Esqueceu que o evento da empresa é hoje? Faltam menos de dez horas e eu tenho muito ainda para resolver antes disso.

— Não adianta se desesperar. — Um sorriso quase imperceptível curvou-lhe os lábios. — Posso ligar pedindo o próximo voo, se quiser.

— Eu resolvo — cortou ele, desaparecendo no banheiro.

A porta bateu, e o som da água logo preencheu o ambiente.

Sílvia suspirou, observando o reflexo no espelho do quarto. A farsa tinha funcionado melhor do que esperava. Quanto mais ele atrasasse, menos tempo teria para ir atrás de Helena antes do evento, restando-a como sua única acompanhante.

Quanto mais pessoas a vissem ao seu lado, ainda mais em um evento tão importante, mais fácil seria tomar o lugar de sua esposa.

E isso era tudo o que ela queria. Tudo que ela precisava.

No banheiro, Cássio discava o número de sua secretária.

— Fernanda, perdemos o voo. Reserve o próximo com urgência. — A voz soava seca, impaciente.

Alguns minutos depois, o retorno veio.

— Doutor, só consegui reservas pro voo das treze horas.

Cássio fechou os olhos, frustrado.

— Certo... confirma esse. — Desligou e apoiou-se na pia.

Encarou o próprio reflexo no espelho — cabelo desgrenhado, olheiras fundas, barba por fazer, a pele marcada pela exaustão e algo mais.

Tentou se lembrar da noite anterior, mas a memória era um borrão.

Um mau pressentimento tomou forma — algo no fundo dizia que não queria mesmo se lembrar.

— É muito pra resolver. Você sabe.

Ela tocou levemente o braço dele, o gesto discreto e afetuoso.

— Vai dar tudo certo, Cássio. Sempre dá.

Ele olhou-a de relance. Era impossível negar que ela tinha algo de reconfortante.

E, ainda assim, por trás daquela doçura, algo dentro dele continuava inquieto.

No aeroporto, o movimento era intenso. Fizeram o check-in às pressas e se sentaram lado a lado na sala de embarque.

Enquanto esperavam a chamada, ele recebeu uma nova mensagem no celular:

Renato: “Quando pousar, venha direto para a empresa.”

Cássio franziu o cenho. Renato não costumava ser direto assim.

Um pressentimento ruim voltou a apertar-lhe o peito.

Durante o voo, recusou o café e a comida.

O enjoo o acompanhava como sombra. Tentou focar nos relatórios, mas a cabeça voltava sempre para o mesmo lugar — Helena.

Sílvia, ao lado, lia uma revista e beliscava algumas frutas, tranquila.

Quando o avião pousou, Cássio praticamente a arrastou até o carro da empresa, já à espera.

O trânsito parecia lento demais, o relógio cruel.

Enquanto a cidade deslizava pela janela, o pressentimento de que algo o aguardava — e não seria bom — crescia dentro dele, como o eco surdo de uma ressaca que o tempo não apagaria.

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