“Nem toda imagem pode ser restaurada.”
Fragmento de um restaurador anônimo
No instante em que o carro da empresa estacionou na garagem, Cássio pulou do carro.
— Preciso resolver umas coisas. Te vejo mais tarde.
Sílvia o observou com doçura ensaiada, inclinando levemente a cabeça.
— Claro, amor.
Ele partiu apressado, os passos ecoando pelos corredores enquanto percebia burburinhos acompanhados de olhares estranhos e recriminatórios.
O coração batia num compasso anormal — não sabia se era ressaca ou nervosismo.
Ao abrir a porta do escritório, encontrou Renato à sua espera, de braços cruzados, o semblante grave.
— Finalmente! — disse o amigo, sem esconder a tensão. — Cara... o que aconteceu com você? Parece acabado.
Cássio jogou a pasta sobre a mesa.
— Longa história. Bebi demais e perdi o voo. Fala logo o que houve.
Renato hesitou.
— Acho melhor você se sentar primeiro.
— Vai direto ao ponto, Renato — respondeu, impaciente.
O amigo soltou um suspiro e pegou o tablet sobre a mesa.
— É melhor ver com seus próprios olhos.
Cássio franziu o cenho e pegou o aparelho.
A tela se iluminou — e o mundo pareceu apagar em volta.
“Famoso designer Cássio Amaral é visto em momentos românticos com amante.”
As palavras o atingiram como um soco.
O sangue sumiu-lhe do rosto deixando-o mais pálido do que já estava.
Leu o subtítulo uma, duas vezes, sem acreditar.
“No dia de ontem, o empresário e designer Cássio Amaral, do Studio Cassiani, foi flagrado em clima de romance com uma suposta amante no restaurante do Hotel Miraje. Fontes afirmam que ele ainda é casado com Helena Duarte, herdeira da Construtora Duarte. O casal foi visto trocando carícias e deixando o local juntos…”
Logo abaixo, estavam as fotos:
ele e Sílvia entrando de braços dados;
eles à mesa sorrindo de mãos dadas;
e uma, cruelmente isolada — Helena, sorrindo de forma serena, sozinha.
O chão pareceu desaparecer sob seus pés.
Atirou o tablet no sofá.
— Merda! — gritou, as mãos no cabelo. — Merda, merda, merda!
Andava de um lado para o outro, desorientado.
A respiração curta, o coração disparado.
As imagens continuavam queimando na memória como brasas.
Renato tentou se aproximar.
— Eu já entrei em contato com a equipe jurídica. Estão providenciando a remoção das matérias.
— Matérias? — Cássio ergueu o olhar, a voz rouca. — Você disse... matérias, no plural?
Renato assentiu, relutante.
— São várias publicações, mas o conteúdo é praticamente o mesmo. Espalharam rápido. Está em portais de design, negócios... e principalmente em colunas de fofoca.
Cássio sentiu o corpo fraquejar, apoiando-se na mesa.
— Meu Deus... — murmurou. — E o evento é hoje.
Renato o observava com pesar.
— Eu sei. E os investidores vão estar lá.
Um silêncio denso pairou entre os dois.
Cássio passou as mãos pelo rosto, tentando se recompor.
— Isso... isso é um desastre.
— É. Mas a gente ainda pode controlar os danos — disse Renato, mais firme. — Só precisamos agir rápido.
Cássio caminhou até a janela, olhando a cidade lá embaixo.
Cada prédio parecia uma lâmina, refletindo luz demais, ofuscante.
— Helena vai ver isso… — disse, num sussurro quase inaudível.
O barulho distante dos carros, o tique-taque do relógio, tudo parecia mais alto do que deveria.
Cássio deixou-se cair na cadeira.
Passou as mãos pelo rosto, tentando se recompor.
A imagem de Helena lhe veio nítida — o sorriso, o olhar sereno.
Pensar nela fazia o estômago se revirar.
Mas então respirou fundo.
“As fotos não mostram nada demais”, repetiu mentalmente.
Queria vê-la, explicar pessoalmente.
Mas o relógio marcava pouco mais de cinco da tarde — faltavam menos de três horas para o evento.
Ainda havia ligações a fazer e discursos a revisar.
Pegou o celular e discou.
Chamou uma vez.
Duas.
Três.
Nenhuma resposta.
Apertou o maxilar, o coração acelerando.
Helena nunca deixou de atende-lo.
“Ela está chateada, é só isso”, pensou, tentando se convencer.
Digitou uma mensagem curta, mas carregada de urgência:
“Amor, espero que saiba que nada do que saiu nessas matérias caluniosas é verdade. Você é a única em minha vida. A Sílvia está apenas passando por um momento difícil, e eu só quis ajudá-la.
Nada além disso. Sei que acredita em mim.”
Leu o texto uma, duas vezes. Apertou enviar e ficou olhando a tela, como se o aparelho pudesse lhe devolver o perdão.
Mas a resposta não veio.
E o silêncio, agora, pesava mais do que qualquer manchete.

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