Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 35

“O recomeço não vem em cores novas, mas na coragem de voltar a misturá-las.”

Clarice Lispector

O silêncio da manhã tinha um som próprio — o sussurro leve das folhas e o eco distante de um mundo que despertava devagar.

Deitada de lado na cama, Helena observava o balançar dos galhos do grande angico-branco do pátio dos fundos. As flores alvas lembravam dentes-de-leão fartos, e suas sombras desenhavam formas móveis nas paredes do quarto.

O ar trazia o perfume doce das flores e, de longe, o cheiro familiar de café fresco se espalhava.

Finalmente, havia chegado o dia.

Um misto de libertação e ansiedade pulsava em seu peito.

Ainda restavam boas horas até o evento — horas que ela precisava preencher, antes que a mente voltasse a repassar tudo o que estava por vir.

Levantou-se, vestiu uma legging preta, um top discreto e um tênis confortável. Prendeu o cabelo em um rabo alto e respirou fundo diante do espelho. Havia muito tempo que não corria, embora sempre tivesse amado a sensação do corpo em movimento.

Desde o casamento, tudo o que lhe era natural — pintar, correr, rir — fora, aos poucos, silenciado.

Mas hoje, o ar parecia outro.

Hoje, ela voltaria a ser dona do próprio fôlego.

Fechou a porta verde da casa e, já na calçada, colocou os fones delicados que abraçaram suas orelhas.

A batida suave de Firework, de Katy Perry, preencheu seus ouvidos.

Olhou para o céu, de um azul quase petulante rabiscado por pequenas nuvens em diferentes formas, e sorriu, começando a correr.

As primeiras passadas soaram firmes contra o chão, ritmadas, acompanhando a música.

Aurora lhe dissera que havia uma trilha entre o conjunto denso de árvores, que despontava ao final do bairro, e se estendia até o parque — e foi para lá que seguiu, deixando o vento brincar com os fios de seu cabelo.

O parque despertava lentamente, envolto em um véu de névoa dourada que se dissolvia com os primeiros raios do sol.

O ar ainda guardava o frescor da madrugada, e o chão úmido exalava o perfume terroso da grama recém-molhada pelo orvalho.

"Você já se sentiu como um saco plástico flutuando com o vento, querendo começar de novo?" — a voz da cantora parecia atravessar não apenas os fones, mas o próprio peito de Helena.

O circuito de terra batida, quase deserto, começava a ganhar vida: um corredor solitário cruzava a trilha, pássaros trocavam cantos entre as copas, e o dia, aos poucos, se descascava diante dela.

"Você já se sentiu tão frágil como um castelo de cartas a um sopro de desmoronar?"

À medida que o sol subia, frestas de luz atravessavam as copas, desenhando faixas luminosas sobre o caminho.

"Você já se sentiu como se estivesse enterrado bem fundo, gritando a sete palmos, mas ninguém parece ouvir nada?"

Em alguns trechos, o calor suave tocava o rosto; em outros, as árvores se fechavam como um túnel verde, onde o ar ficava mais denso, fresco e silencioso. Havia algo de sagrado na maneira como a luz filtrada pelas folhas tremulava sobre o chão — como se o parque inteiro respirasse junto com o amanhecer.

"Você sabe que ainda há uma chance? Porque há uma faísca em você, você só tem que acender a luz e deixá-la brilhar..."

O lago surgiu diante dela, refletindo o céu em transformação — metade azul, metade branco. Os patos deslizavam preguiçosos, e pequenas ondas se espalhavam a cada movimento, quebrando o espelho perfeito da água.

"Porque, querida, você é um fogo de artifício. Vá em frente, mostre o que você vale. Faça eles dizerem: Ah! Enquanto você cruza o céu. Querida, você é um fogo de artifício, vamos, deixe suas cores explodirem. Faça eles dizerem: Ah! Você vai deixá-los surpresos..."

Nos bancos próximos, alguns poucos ocupantes — um idoso lendo jornal, uma mulher segurando uma xícara de café, um casal em silêncio — pareciam compartilhar o mesmo encantamento: o de ver a cidade acordar devagar, sem pressa.

"Você não tem que se sentir como um desperdício de espaço. Você é original, não pode ser substituída. Se você soubesse o que o futuro guarda... depois de um furacão sempre vem um arco-íris."

Nos gramados ainda cobertos de orvalho, as primeiras famílias começavam a se espalhar — crianças pequenas envoltas em risadas leves, cachorros correndo em círculos, e o som distante de uma garrafa abrindo o dia com suco fresco.

"Talvez a razão pela qual todas as portas estejam fechadas é para que você possa abrir uma que te leve para a estrada perfeita. Como um relâmpago seu coração vai brilhar e, quando for a hora, você saberá..."

O vento soprava suave, movendo as folhas e trazendo o cheiro doce de flores noturnas que ainda não haviam se recolhido.

"Você só tem que acender a luz e deixá-la brilhar... você vai deixá-los surpresos... Boom, boom, boom... Mais brilhante do que a lua... Sempre esteve dentro de você... E agora é hora de deixar sair"

A letra pulsava dentro dela como um lembrete fazendo Helena sentir-se viva.

Encostou-se ao tronco de uma árvore próxima, as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego. O corpo ainda estava em forma, mas o tempo sem se exercitar cobrava seu preço. Mesmo assim, havia uma leveza nova em cada respiração — como se o ar lhe pertencesse outra vez.

Observou o entorno — uma garotinha de uns cinco anos brincava com uma bola cor-de-rosa. Tinha o cabelo dividido ao meio, preso em duas pequenas marias-chiquinhas, usava shorts jeans e uma camiseta de princesas.

Do outro lado, um senhor se afastava, passeando com um Lulu da Pomerânia, mas parecia que era o pequeno cachorro que estava conduzindo o dono para um passeio, visto que o arrastava para onde queria pela guia. Aquela cena arrancou um sorriso dela.

Quando tornou a olhar para onde a garotinha estava, um frio percorreu sua espinha. Ela havia sumido e a bola se afastava sob a água lago a dentro.

— Meu Deus… — sussurrou, antes de largar o celular no chão e correr.

Chegou à margem, os olhos varrendo cada centímetro da superfície. Então, viu — bolhas, pequenas e intermitentes, subindo para o topo.

Sem pensar, ela mergulhou.

A água gelada cortou-lhe a pele, e por um instante tudo ficou turvo. O mundo virou um borrão verde-acinzentado. Abriu os olhos, forçando a visão. Os cabelos, agora soltos devido ao impacto, flutuavam ao redor do rosto, a respiração contida queimando-lhe o peito. Movia os braços com força, procurando em todas as direções. Nada. Apenas o silêncio espesso e o som abafado do próprio coração.

O desespero começou a subir junto com a falta de ar — até que um reflexo claro piscou adiante. Um corpo pequeno. Um tênis branco.

Helena nadou até ela com força, o coração batendo em ritmo frenético. Agarrou a menina pela cintura, puxando-a para si. Os movimentos tornaram-se automáticos, instintivos — chutes fortes, braço abrindo caminho pela água pesada, cada segundo uma eternidade.

Quando rompeu a superfície, o ar entrou nos pulmões num gemido quase dolorido.

— Aguenta, pequena… — arfou, nadando com força até a margem. Cada braçada era movida por algo maior que o medo. Uma urgência primal, quase selvagem.

Ao alcançar a terra, ajoelhou-se e deitou a criança com cuidado sobre a grama úmida. O corpo leve, inerte.

— Vamos, respira… — sussurrou, virando-a de lado.

Por um instante, o tempo parou.

Então, um som frágil, mas poderoso, preencheu o espaço:

um engasgo, seguido de um choro fraco e o som da água sendo expelida.

Helena soltou o ar que prendia desde o mergulho, as mãos trêmulas, os olhos marejados.

— Isso… respira, querida… isso… — repetia, com a voz embargada.

De repente, uma voz masculina cortou o ar:

— Sofia! Sofia!

Helena ergueu o olhar.

Um homem vinha correndo, o rosto tomado pelo pânico.

Capítulo 35 - Respingos sob a água 1

Capítulo 35 - Respingos sob a água 2

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio