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Quadros de um divórcio romance Capítulo 36

“Depois do medo, vem o mundo.” Clarice Lispector.

Helena pegou o celular que havia deixado no chão e começou a caminhar de volta para casa.

O frio que se espalhava pelo corpo contrastava com o calor que ainda ardia no peito.

Nunca se imaginou capaz de agir sem pensar. Durante os últimos anos, o medo a havia paralisado: medo de errar, de perder, de ser julgada. Mas, naquela manhã, ela se lançou na água antes que o medo tivesse tempo de falar mais alto. E ali, no meio do caos, compreendeu algo simples e poderoso: a coragem não é a ausência do medo — é o impulso de seguir, apesar dele.

Quando chegou em casa, tirou as roupas molhadas e foi direto para o chuveiro.

A água quente caiu como um alento. Vestiu uma calça de moletom cinza e uma blusa branca simples, o cabelo ainda úmido preso num coque frouxo.

A simplicidade a confortava. Havia beleza em estar à vontade consigo mesma.

Ao sair do banheiro, o celular vibrou sobre a cama.

Uma mensagem.

Santiago: “Helena, posso te ver hoje à noite? Preciso falar com você.”

O coração dela apertou, uma pontada de curiosidade e inquietação misturadas.

Sobre o que ele gostaria de falar?

Mas então lembrou-se do evento da noite — não poderia encontrá-lo.

Digitou devagar:

“Sinto muito, hoje tenho um evento para ir. Pode ser amanhã?”

A resposta veio alguns minutos depois:

Santiago: “Claro.”

Olhou para o celular por um tempo pensativa, depois foi até a cozinha. Abriu a geladeira — quase vazia. Suspirou.

— Acho que está na hora de fazer umas compras... — murmurou, sorrindo sozinha.

Pegou as chaves do carro e saiu. O sol tocava os telhados e as crianças brincavam na rua, as vozes agudas cortando o ar como pequenas faíscas de alegria.

Quando a viram, correram por alguns metros ao lado do carro, rindo, os cabelos esvoaçando.

Helena acenou com a mão para fora da janela, o coração leve, quase infantil.

Havia algo de libertador naquele instante — como se, ao responder ao aceno delas, dissesse a si mesma que também podia correr de novo, rir de novo.

Parou primeiro numa pequena padaria de esquina.

O letreiro antigo e o cheiro de pão fresco a envolveram como um abraço.

Comprou um croissant dourado e um suco natural de laranja para aplacar a fome, assim como algumas baguetes para levar.

Enquanto esperava o troco, reparou num casal de idosos dividindo um pão de queijo e rindo baixinho — e sentiu uma ternura simples brotar no peito.

De lá, seguiu até o supermercado do bairro, um espaço claro e perfumado por ervas e frutas frescas.

As pessoas a olhavam e sorriam — havia algo na serenidade de Helena que chamava atenção, uma tranquilidade que irradiava.

Ela retribuía cada sorriso com gentileza, empurrando o carrinho devagar, observando as cores dos vegetais como quem observa uma paleta de tintas.

Encheu o carrinho com frutas, legumes, ervas frescas, um azeite, e algumas especiarias que não comprava há tempos.

No caixa, agradeceu com um sorriso discreto e voltou para casa.

Já em casa, deixou as sacolas sobre o balcão e abriu as janelas.

O ar entrou leve, carregando o perfume das árvores do quintal.

Escolheu preparar algo simples: penne ao limone com abobrinha grelhada e raspas de parmesão.

Enquanto cortava os ingredientes, pensava em como o simples gesto de cozinhar a deixava feliz — um jeito silencioso de cuidar de si mesma.

O som da faca contra a tábua, o chiado do azeite quente, o perfume do limão... tudo era música.

Quando terminou, serviu-se com calma, sentando-se à mesa sem a sensação de urgência ou solidão. Com cada garfada, sentia o corpo se aquietar e o coração se abrir — como se, depois de tanto tempo, finalmente pudesse provar o gosto de estar viva.

Terminou de almoçar e, em seguida, limpou a cozinha, guardando o restante das compras com uma calma que há tempos não sentia. O aroma suave do tempero ainda pairava no ar, misturado ao som discreto dos talheres sendo guardados.

Quando olhou para o relógio da parede, já passava das treze horas.

Capítulo 36 - Pausa entre telas 1

Capítulo 36 - Pausa entre telas 2

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