“Depois do medo, vem o mundo.” Clarice Lispector.
Helena pegou o celular que havia deixado no chão e começou a caminhar de volta para casa.
O frio que se espalhava pelo corpo contrastava com o calor que ainda ardia no peito.
Nunca se imaginou capaz de agir sem pensar. Durante os últimos anos, o medo a havia paralisado: medo de errar, de perder, de ser julgada. Mas, naquela manhã, ela se lançou na água antes que o medo tivesse tempo de falar mais alto. E ali, no meio do caos, compreendeu algo simples e poderoso: a coragem não é a ausência do medo — é o impulso de seguir, apesar dele.
Quando chegou em casa, tirou as roupas molhadas e foi direto para o chuveiro.
A água quente caiu como um alento. Vestiu uma calça de moletom cinza e uma blusa branca simples, o cabelo ainda úmido preso num coque frouxo.
A simplicidade a confortava. Havia beleza em estar à vontade consigo mesma.
Ao sair do banheiro, o celular vibrou sobre a cama.
Uma mensagem.
Santiago: “Helena, posso te ver hoje à noite? Preciso falar com você.”
O coração dela apertou, uma pontada de curiosidade e inquietação misturadas.
Sobre o que ele gostaria de falar?
Mas então lembrou-se do evento da noite — não poderia encontrá-lo.
Digitou devagar:
“Sinto muito, hoje tenho um evento para ir. Pode ser amanhã?”
A resposta veio alguns minutos depois:
Santiago: “Claro.”
Olhou para o celular por um tempo pensativa, depois foi até a cozinha. Abriu a geladeira — quase vazia. Suspirou.
— Acho que está na hora de fazer umas compras... — murmurou, sorrindo sozinha.
Pegou as chaves do carro e saiu. O sol tocava os telhados e as crianças brincavam na rua, as vozes agudas cortando o ar como pequenas faíscas de alegria.
Quando a viram, correram por alguns metros ao lado do carro, rindo, os cabelos esvoaçando.
Helena acenou com a mão para fora da janela, o coração leve, quase infantil.
Havia algo de libertador naquele instante — como se, ao responder ao aceno delas, dissesse a si mesma que também podia correr de novo, rir de novo.
Parou primeiro numa pequena padaria de esquina.
O letreiro antigo e o cheiro de pão fresco a envolveram como um abraço.
Comprou um croissant dourado e um suco natural de laranja para aplacar a fome, assim como algumas baguetes para levar.
Enquanto esperava o troco, reparou num casal de idosos dividindo um pão de queijo e rindo baixinho — e sentiu uma ternura simples brotar no peito.
De lá, seguiu até o supermercado do bairro, um espaço claro e perfumado por ervas e frutas frescas.
As pessoas a olhavam e sorriam — havia algo na serenidade de Helena que chamava atenção, uma tranquilidade que irradiava.
Ela retribuía cada sorriso com gentileza, empurrando o carrinho devagar, observando as cores dos vegetais como quem observa uma paleta de tintas.
Encheu o carrinho com frutas, legumes, ervas frescas, um azeite, e algumas especiarias que não comprava há tempos.
No caixa, agradeceu com um sorriso discreto e voltou para casa.
Já em casa, deixou as sacolas sobre o balcão e abriu as janelas.
O ar entrou leve, carregando o perfume das árvores do quintal.
Escolheu preparar algo simples: penne ao limone com abobrinha grelhada e raspas de parmesão.
Enquanto cortava os ingredientes, pensava em como o simples gesto de cozinhar a deixava feliz — um jeito silencioso de cuidar de si mesma.
O som da faca contra a tábua, o chiado do azeite quente, o perfume do limão... tudo era música.
Quando terminou, serviu-se com calma, sentando-se à mesa sem a sensação de urgência ou solidão. Com cada garfada, sentia o corpo se aquietar e o coração se abrir — como se, depois de tanto tempo, finalmente pudesse provar o gosto de estar viva.
Terminou de almoçar e, em seguida, limpou a cozinha, guardando o restante das compras com uma calma que há tempos não sentia. O aroma suave do tempero ainda pairava no ar, misturado ao som discreto dos talheres sendo guardados.
Quando olhou para o relógio da parede, já passava das treze horas.


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