“Cuidar é o gesto mais silencioso do amor — a pincelada que o mundo não vê, mas que sustenta o quadro inteiro.”
Santiago estava imerso na rotina do trabalho.
A tarde se arrastava entre reuniões, e-mails e a curadoria da nova exposição — uma mostra mista que reuniria jovens artistas promissores.
Almoçara ali mesmo, uma refeição simples providenciada por sua secretária. Mal havia terminado quando o celular vibrou sobre a mesa.
Era Marcelo. Limpou a boca com um guardanapo e atendeu.
— E aí, meu velho? — disse, ajeitando-se na cadeira. — Alguma boa notícia?
A voz do amigo veio firme do outro lado da linha:
— Boas, sim. Consegui o segurança que me pediu. O nome dele é Pedro. É um militar da reserva das Forças Armadas.
— Isso é bom — respondeu Santiago, com visível alívio.
— É mais do que bom, cara. O sujeito é sinistro. Já até localizou a garota pelo número do celular que você me passou, nada invasivo, só o básico. Ele está de olho nela agora mesmo. Disse que ela entrou num salão de beleza e aproveitou pra colocar um rastreador no carro dela. Vou te passar o contato caso precise falar direto com ele.
Santiago deixou escapar um suspiro discreto.
— Valeu, Marcelo. E... está tudo certo com ela?
Houve uma breve pausa, acompanhada do som de papéis sendo folheados.
— Aparentemente, sim — respondeu o detetive. — Mas você sabia que ela acabou de se mudar?
— Se mudou? Para onde?
— Ela comprou uma casa naquele bairro antigo, próximo ao parque. E, pelo que levantei, está morando sozinha.
Santiago sentiu um misto de entusiasmo e preocupação. Se ela estava sozinha, talvez tivesse finalmente encerrado de vez o ciclo com o canalha do Cássio — mas a ideia dela desprotegida o incomodava.
— Ela está muito exposta nessa casa?
— Bem... é um bairro tranquilo, até demais. Por um lado, isso é bom pois qualquer movimento suspeito chama a atenção da vizinhança, o que ajuda a inibir um pouco alguma atitude ousada. Mas, visto que ela está morando sozinha e a casa aparentemente não possui nenhum sistema de vigilância ou meios de proteção... então, sim, eu diria que ela está vulnerável.
Santiago pensou por um longo momento, as engrenagens de sua mente buscando alguma solução.
— Veja se encontra alguma casa à venda que seja próxima o bastante para ficar de olho nela.
— Quer se mudar para perto da garota é "Dom Juan"? — provocou Marcelo, rindo.
— E se eu quiser? — retrucou Santiago, no mesmo tom, rindo também.
— Espera aí... não me diga que é a mesma garota da faculdade, aquela que você sempre menciona quando bebe demais...
— A própria. — respondeu, com um sorriso cansado, mas sincero.
— Agora eu entendo sua fixação por ela — zombou o amigo.
— Nem se atreva, idiota — respondeu Santiago arrancando uma gargalhada do amigo. — Mas falando sério, acho que a casa será conveniente até mesmo para o Pedro ficar de olho nela. Como você disse que o bairro é pacato, a presença dele também pode despertar alarde.
— Faz sentido. — concordou Marcelo. — E já que tocamos nesse assunto, sabe o que mais pode ajudar?
— O quê?
— A Mabe... ajudaria a manter a garota mais segura.
— Não tinha pensado nisso, mas você tem razão. Valeu, cara. Tem mais alguma coisa?
— Não, a não ser algumas matérias que estão circulando.
Santiago endireitou-se, a voz ficando mais atenta.
— Matérias?
— Vou te encaminhar os links para que dê uma olhada.
Mas o que o desarmou foi a última foto — Helena, sozinha, o sorriso doce, o olhar tranquilo — aquele olhar que o prendia mesmo à distância.
Um calor silencioso subiu-lhe ao peito.
Abriu o segundo link.
Um vídeo começou a rodar.
A imagem tremia levemente, capturada por um celular.
Uma mulher corria por um parque, o corpo delineado em uma roupa esportiva, o top deixando parte da pele de seu abdômen a vista e os cabelos voando com o movimento do corpo... então, de súbito, ela saltou na água. O frame tremeu, e segundos depois, ela emergia trazendo uma garotinha inconsciente nos braços.
Santiago esqueceu de respirar.
Mesmo sem o nome, ele saberia.
Helena.
Assistiu ao vídeo inteiro sem piscar.
A força com que ela nadava, a delicadeza ao segurar a criança, o modo como a emoção tomava seu rosto — tudo nele reconhecia aquela mulher.
Uma mistura intensa de orgulho e desejo o invadiu, como uma chuva torrencial que o pegava desprevenido.
Repetiu o vídeo. Uma, duas, três vezes.
E a cada nova reprodução, sentia-se mais fascinado — e menos dono de si.
Helena Duarte.
A mulher que transformava o caos em beleza.
A única capaz de fazer o seu mundo parecer, por um instante, em perfeito equilíbrio.

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