“O espelho mostra o rosto; o desejo, o abismo.” autor anônimo
Silvia encarava o celular com um sorriso que beirava o perverso.
A manchete brilhava na tela como um troféu. Por mais que Cássio tivesse ordenado ao jurídico que removesse as matérias, o conteúdo já se espalhara feito pólvora.
Ampliou a foto, analisando cada detalhe — o ângulo favorecido, o brilho de sua pele, o toque teatral do olhar. Ali estava ela: esguia, elegante, imponente.
A mulher que o mundo agora via era tudo o que sempre quis ser — e o fato de Cássio tentar reduzir aquilo a um erro, a uma “interpretação equivocada”, fazia seu sangue ferver.
Mordeu o lábio inferior, a voz saindo num sussurro venenoso:
— Como pode ele... preferir ela?
O nome de Helena pesava como fel em sua língua.
“Uma mulher sem graça, sem cor. Frágil. Tão... comum.”
A risada que escapou de seus lábios soou mais como o estalo de um vidro rachando.
— Não, Cássio. — murmurou. — Você é meu.
Deixou o celular sobre a pia e voltou-se para o espelho de corpo inteiro no pequeno banheiro de sua sala.
A luz fria refletia cada detalhe do seu preparo.
Os cabelos, penteados para trás, formavam uma superfície lisa e úmida no topo da cabeça, o brilho da pomada imitando um verniz luxuoso.
O vestido prateado, justo e cintilante, acompanhava-lhe as curvas com um equilíbrio cirúrgico entre ousadia e sofisticação. O decote em V, profundo, era coberto por uma fina camada de tule quase invisível. As laterais vazadas na cintura expunham a pele no limite exato entre o sensual e o provocante.
A fenda frontal revelava as pernas de modo estudado — como se cada centímetro tivesse sido ensaiado diante do espelho.
Os sapatos dourados traziam uma combinação ousada e chique, brincando com a mistura das cores metálicas. Assim como os brincos em forma de gota vazada e o colar que repousava em seu pescoço.
Era a moldura perfeita da mulher que ela queria exibir ao mundo.
O espelho devolveu-lhe um olhar vencedor.
Aquela seria a noite dela.
Silvia permanecera na empresa. Não ousaria ir para casa — não quando sentia Cássio tão vulnerável. Achava que toda relutância que encontrava nele vinha de algum comodismo adquirido depois dos anos de casamento. Mas ela o ajudaria a se livrar disso.
Por bem... ou por mal.
O celular vibrou sobre a pia.
Uma ligação.
Atendeu sem hesitar.
— Ele já está se preparando para sair — disse a voz masculina do outro lado, firme e impessoal.
Silvia sorriu.
— Ótimo. Estou indo.
Saiu do banheiro, colocou o celular em uma clutch prateada coberta de pedrarias e seguiu em passos decididos até a garagem.
Avistou Cássio já próximo ao carro.
— Cássio! — chamou, com um sorriso cuidadosamente ensaiado. — Posso ir com você?
Ele parou. Por um instante, o silêncio pareceu mais pesado do que o próprio ar.
No olhar dele, havia conflito.
Levá-la consigo significava reacender o escândalo.
Deixá-la para trás, contudo, poderia fazer parecer que havia culpa — e Cássio odiava parecer fraco.
Refletiu por um instante, e então respondeu, seco, porém contido:
— Está bem.
Contemplou-a dos pés à cabeça e acrescentou:
— Você... está linda.
Silvia sorriu, com um brilho faminto nos olhos.
— E você... está irresistível.
Cássio desviou o olhar, incômodo, e abriu a porta do carro para ela.
Enquanto o veículo se afastava, ele lançou um último olhar para o celular sobre o banco ao lado. A mensagem para Helena ainda não havia sido visualizada.
O peito apertou. Ela nunca o ignorava.
Tentou afastar o pensamento, respirou fundo e focou no que viria a seguir.
Com a ajuda de Renato, ajustara os últimos detalhes do evento.
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