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Quadros de um divórcio romance Capítulo 38

“O espelho mostra o rosto; o desejo, o abismo.” autor anônimo

Silvia encarava o celular com um sorriso que beirava o perverso.

A manchete brilhava na tela como um troféu. Por mais que Cássio tivesse ordenado ao jurídico que removesse as matérias, o conteúdo já se espalhara feito pólvora.

Ampliou a foto, analisando cada detalhe — o ângulo favorecido, o brilho de sua pele, o toque teatral do olhar. Ali estava ela: esguia, elegante, imponente.

A mulher que o mundo agora via era tudo o que sempre quis ser — e o fato de Cássio tentar reduzir aquilo a um erro, a uma “interpretação equivocada”, fazia seu sangue ferver.

Mordeu o lábio inferior, a voz saindo num sussurro venenoso:

— Como pode ele... preferir ela?

O nome de Helena pesava como fel em sua língua.

“Uma mulher sem graça, sem cor. Frágil. Tão... comum.”

A risada que escapou de seus lábios soou mais como o estalo de um vidro rachando.

— Não, Cássio. — murmurou. — Você é meu.

Deixou o celular sobre a pia e voltou-se para o espelho de corpo inteiro no pequeno banheiro de sua sala.

A luz fria refletia cada detalhe do seu preparo.

Os cabelos, penteados para trás, formavam uma superfície lisa e úmida no topo da cabeça, o brilho da pomada imitando um verniz luxuoso.

O vestido prateado, justo e cintilante, acompanhava-lhe as curvas com um equilíbrio cirúrgico entre ousadia e sofisticação. O decote em V, profundo, era coberto por uma fina camada de tule quase invisível. As laterais vazadas na cintura expunham a pele no limite exato entre o sensual e o provocante.

A fenda frontal revelava as pernas de modo estudado — como se cada centímetro tivesse sido ensaiado diante do espelho.

Os sapatos dourados traziam uma combinação ousada e chique, brincando com a mistura das cores metálicas. Assim como os brincos em forma de gota vazada e o colar que repousava em seu pescoço.

Era a moldura perfeita da mulher que ela queria exibir ao mundo.

O espelho devolveu-lhe um olhar vencedor.

Aquela seria a noite dela.

Silvia permanecera na empresa. Não ousaria ir para casa — não quando sentia Cássio tão vulnerável. Achava que toda relutância que encontrava nele vinha de algum comodismo adquirido depois dos anos de casamento. Mas ela o ajudaria a se livrar disso.

Por bem... ou por mal.

O celular vibrou sobre a pia.

Uma ligação.

Atendeu sem hesitar.

— Ele já está se preparando para sair — disse a voz masculina do outro lado, firme e impessoal.

Silvia sorriu.

— Ótimo. Estou indo.

Saiu do banheiro, colocou o celular em uma clutch prateada coberta de pedrarias e seguiu em passos decididos até a garagem.

Avistou Cássio já próximo ao carro.

— Cássio! — chamou, com um sorriso cuidadosamente ensaiado. — Posso ir com você?

Ele parou. Por um instante, o silêncio pareceu mais pesado do que o próprio ar.

No olhar dele, havia conflito.

Levá-la consigo significava reacender o escândalo.

Deixá-la para trás, contudo, poderia fazer parecer que havia culpa — e Cássio odiava parecer fraco.

Refletiu por um instante, e então respondeu, seco, porém contido:

— Está bem.

Contemplou-a dos pés à cabeça e acrescentou:

— Você... está linda.

Silvia sorriu, com um brilho faminto nos olhos.

— E você... está irresistível.

Cássio desviou o olhar, incômodo, e abriu a porta do carro para ela.

Enquanto o veículo se afastava, ele lançou um último olhar para o celular sobre o banco ao lado. A mensagem para Helena ainda não havia sido visualizada.

O peito apertou. Ela nunca o ignorava.

Tentou afastar o pensamento, respirou fundo e focou no que viria a seguir.

Com a ajuda de Renato, ajustara os últimos detalhes do evento.

Seguiu adiante, os flashes recomeçando o ataque luminoso até que as portas de vidro se fecharam atrás deles, isolando o tumulto lá fora.

O salão principal o recebeu como uma onda de esplendor.

Cássio parou por um instante, atônito.

Não imaginava que Helena fosse capaz de organizar algo daquela magnitude.

O espaço era majestoso, mas ao mesmo tempo delicado — um equilíbrio raro entre luxo e harmonia.

As paredes, em tons de marfim e dourado pálido, eram suavemente iluminadas por uma sequência de lustres de cristal que pendiam do teto em diferentes alturas, espalhando reflexos como pequenos sóis.

Um jogo sutil de luz azul se projetava das colunas laterais, tingindo o ambiente com nuances frias e combinando com os arranjos florais azuis das mesas que circundavam o salão.

No centro, uma grande escultura no formato de um dodecaedro de cristal girava lentamente sobre um pedestal espelhado, refratando a iluminação em feixes coloridos que atravessavam o salão e se dissolviam nas taças e nos rostos.

Parecia um coração pulsando — representando o tema da noite: “Prisma.”

O chão, de mármore claro, refletia as silhuetas em movimento.

Garçons trajados em ternos brancos com detalhes em azul claro circulavam com bandejas de cristal, oferecendo taças de espumante e pequenas porções de salmão defumado, mini tartelettes e canapés artisticamente dispostos.

Ao fundo, uma música instrumental suave — violinos e piano — preenchia o ar sem se impor.

O buffet, disposto sobre uma longa mesa de vidro com base iluminada, exibia uma composição que mais parecia uma obra de arte: frutas esculpidas, pétalas azuis decorando os pratos, pequenos arranjos de orquídeas brancas entre as travessas.

No fundo do palco, um telão monumental exibia vídeos em looping: imagens da fábrica e fragmentos conceituais da coleção.

Do outro lado, um espaço reservado chamava atenção — delimitado por cortinas azuis, guardando em segredo os protótipos que seriam revelados apenas no ápice da noite.

Cássio deu alguns passos lentos, absorvendo cada detalhe.

Os elogios já ecoavam entre os poucos convidados que já haviam chegado.

Empresários, críticos de design, jornalistas do setor — todos comentavam a sofisticação do evento, a perfeição da execução, o toque artístico inconfundível.

E cada comentário era uma facada discreta de lembrança: tudo aquilo tinha sido criado por Helena.

Ele respirou fundo, quase convencendo a si mesmo que a magnitude daquele evento apagaria o escândalo — e reacenderia sua imagem como o homem genial, o nome que movia o Studio Cassiani.

Silvia o observava de longe, saboreando o brilho nos olhos dele.

Para ela, o espetáculo era apenas o prelúdio de algo maior.

O jogo estava longe de terminar — e ela planejava ser a peça que ninguém ousaria derrubar.

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