“Toda máscara é uma pincelada mal seca sobre o rosto.” Jean Cocteau
Carlos e Esther já estavam no salão, acompanhados por Viviane.
Assim que viram o filho atravessar as portas de vidro, os três se apressaram em sua direção.
— Meu filho — disse Esther, os olhos marejados de orgulho. — Está tudo tão lindo... Eu sempre soube que você ganharia o mundo.
Cássio sorriu, beijando-lhe a mão.
— Obrigado, mãe.
Carlos, mais contido, lançou um olhar de aprovação.
— Está mesmo impecável, Cássio. Um evento digno da história da empresa. — fez uma pausa breve, medindo as palavras. — Mas... onde está Helena?
A pergunta pairou entre eles, cortando o brilho do momento.
Cássio hesitou por um instante antes de responder, a voz firme, mas o olhar fugidio:
— Ela não estava se sentindo muito bem. Preferiu não vir.
O pai trocou um olhar rápido com a esposa — ambos haviam lido as manchetes, sabiam que algo não estava bem.
Carlos pigarreou.
— Diante dos boatos que circularam hoje — disse, olhando discretamente de Cássio para Silvia —, talvez fosse importante que ela estivesse aqui. Apenas para encerrar o assunto.
Viviane cruzou os braços, a expressão carregada de ironia.
— Eu, sinceramente, preferia que os boatos fossem verdade — comentou, com um meio sorriso. — A Silvia combina muito mais com ele.
Silvia baixou os olhos, esboçando um sorriso tímido, mas o brilho de satisfação era impossível de esconder.
Foi então que uma nova voz se somou ao grupo.
— Concordo plenamente — disse Tânia, aproximando-se ao lado de Renato. — Silvia tem muito mais a ver com o nosso círculo de amigos.
Renato lançou-lhe um olhar de advertência.
— Tânia, por favor, não se envolva em assuntos particulares.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E desde quando ter opinião é se intrometer? — provocou, cruzando os braços. — Ou vai dizer que você também não acha o mesmo?
— Quem tem que achar qualquer coisa aqui é o Cássio — respondeu Renato, firme, o tom baixo, mas cortante.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Tânia desviou o olhar, engolindo o orgulho.
Cássio, então, respirou fundo, endireitou os ombros e falou com calma, mas a tensão em sua voz era evidente.
— Helena é minha esposa. Gostem vocês ou não. — Olhou em volta, certificando-se de que ninguém ao redor os ouvia. — E eu preferiria que mudássemos de assunto antes que algum fofoqueiro acrescente mais lenha nessa fogueira.
As palavras pairaram no ar, pesadas e definitivas.
Silvia manteve o sorriso — um sorriso frio, quase imóvel.
Mas por trás do verniz impecável, algo se partia.
Por dentro, o rancor queimava como ferro em brasa.
E ela jurou, silenciosamente, que aquela seria a última vez que ouviria Cássio chamar Helena de “esposa”.
Cássio atravessava o espaço como quem conhece o próprio palco.
Sua expressão controlada carregava a segurança que ele queria que vissem — mesmo que por dentro ainda ardesse o rescaldo da manhã caótica.
Naquela noite, precisava ser apenas o homem que construiu um império a partir do nada.
Silvia mantinha-se sempre ao seu lado, o braço ocasionalmente roçando o dele, a cada contato o olhar dela faiscava com algo entre desejo e posse.
Sua presença chamava atenção — o vestido prateado parecia feito para os flashes, e ela sabia disso.
Sabia também que muitos olhares a seguiam, que as mulheres cochichavam, e que Cássio, ao lado dela, estava sendo julgado em silêncio.
Mas ela gostava do jogo.
Gostava do risco, do escândalo, do poder de pertencer a um caos que só ela parecia dominar.
Cássio, por outro lado, forçava um sorriso profissional.
Cumprimentava investidores, acenava para conhecidos, mantinha conversas, curtas, mas amistosas com todos. E de tempos em tempos, olhava para o celular — e nada. Nenhuma mensagem de Helena.
A cada minuto, o salão se tornava mais vivo — um redemoinho de vozes, luzes e cristais tilintando.
O espaço antes impecavelmente disposto agora pulsava sob o movimento dos convidados: ternos escuros, vestidos cintilantes, taças elevadas em cumprimentos.
Era o ápice do glamour e da ambição reunidos num só lugar.
Donos de redes de lojas de móveis de alto padrão, magnatas do setor madeireiro e têxtil, investidores atentos em busca de oportunidades, jornalistas especializados em casa e decoração.
Cada um deles representava um degrau possível — visibilidade, um contato, uma chance, uma promessa de crescimento.
O nome “Amaral” caiu em seus ouvidos como um alerta.
Seu olhar, antes cortês, endureceu sutilmente.
— Ah… claro. — murmurou, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Agora entendo a coincidência de estilos.
Viviane soltou uma risada melosa, tocando-lhe o braço.
— Coincidência boa, espero. Você parece deslocado entre tantos engravatados… gosto disso.
Ele levou a taça aos lábios, observando-a sobre a borda de cristal.
— E eu costumo gostar de sutileza. — respondeu, com ironia discreta.
Ela interpretou o tom como flerte e aproximou-se um pouco mais, o perfume envolvendo o ar entre eles.
— Então talvez devêssemos conversar num lugar menos… barulhento.
Santiago arqueou uma sobrancelha, quase divertido com a insistência.
— Prefiro lugares silenciosos sim — disse, com voz calma — mas também livres de ecos.
Viviane piscou, sem compreender de imediato, até que percebeu o tom. O sorriso dela vacilou.
Ele, por sua vez, manteve-se impassível, a elegância cortante de quem sabe encerrar uma conversa sem levantar a voz.
— Agora, se me dá licença — acrescentou, depositando a taça sobre uma bandeja próxima —, creio que há champanhes menos perigosos que esse diálogo.
Ela ficou parada por um instante, o rubor subindo às faces.
Quando se afastou, o som agudo de seus saltos ecoou pelo mármore como uma trilha de ressentimento.
Santiago voltou a pegar outra taça, o olhar fixo no centro do salão.
Um sorriso quase imperceptível curvou-lhe os lábios.
— Definitivamente são frutos do mesmo pé. — murmurou, para si mesmo, antes de desaparecer entre os convidados.
Pouco tempo depois, Renato se aproximou de Cássio, discreto.
— Eles chegaram — murmurou. — Ricci e Windsor.
Cássio assentiu, ajeitando o punho da camisa antes de se dirigir à ala central do salão.
Enfim chegara o momento pelo qual ele tanto ansiava.

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