"Nós mentimos para nos proteger. Mentimos para evitar o sofrimento, ou para o causar. Mentimos porque a verdade é um fardo pesado demais para carregar." Patrick Ness
Os dois homens estavam lado a lado, cercados por um pequeno grupo de empresários menores, cada um tentando uma fração de atenção.
Lorenzo Ricci, de terno branco e lenço escarlate no bolso, gesticulava com elegância natural. O italiano tinha o magnetismo de quem domina o próprio espaço.
Ao lado, James Windsor, com o porte firme e olhar analítico, observava tudo em silêncio — o tipo de homem que mede o valor de alguém antes mesmo do aperto de mão.
Cássio se aproximou com um sorriso calculado.
— Senhores, que honra tê-los aqui. Espero que o evento esteja à altura das expectativas.
Lorenzo Ricci foi o primeiro a responder, abrindo um sorriso largo que revelava dentes impecáveis.
— “À altura” é pouco, senhor Amaral. — disse, o sotaque italiano tornando cada palavra quase uma melodia. — O ambiente está magnífico. Vocês brasileiros sabem transformar o design em espetáculo.
James Windsor, ao seu lado, limitou-se a um leve aceno de cabeça. A voz grave e pausada veio em tom diplomático:
— De fato. Tenho acompanhado o crescimento do Studio Cassiani. Vocês parecem ter encontrado um equilíbrio raro entre sofisticação e identidade.
— É exatamente isso que buscamos — respondeu Cássio, controlando o entusiasmo. — Cada peça que produzimos carrega algo do nosso DNA, mas sempre com um olhar voltado para o mundo.
Ricci inclinou a cabeça, avaliando-o como quem mede o valor de uma obra.
— Bela frase. Mas me diga... o segredo está na estética ou no material?
Cássio deixou um breve sorriso escapar.
— No olhar — respondeu, após uma pausa. — A estética muda com o tempo, o material se aperfeiçoa... mas o olhar de quem cria... esse define a alma de uma marca.
O italiano riu, satisfeito.
— Bravo! Fala como um artista.
— E age como um estrategista. — completou Windsor, o sorriso discreto, porém insinuante. — Essa é uma combinação perigosa, senhor Amaral.
— Espero que perigosa... e lucrativa. — replicou Cássio, erguendo ligeiramente a taça.
Os três riram, o som se misturando ao das taças que tilintavam ao redor.
Por um instante, Cássio sentiu que o mundo parecia perfeitamente alinhado — a promessa de negócios futuros pairando no ar como o brilho das luzes sobre o cristal.
Mas o feitiço durou pouco.
Windsor foi quem quebrou o ritmo.
— Sabe... temos um ditado na minha terra — começou, o tom agora mais baixo, quase casual. — “Se a sua melhor versão não for dentro da sua própria casa, todo o resto é apenas encenação.”
A pausa que se seguiu foi calculada. O olhar do americano, no entanto, não era inocente — percorria Silvia, que estava próxima demais de Cássio.
Ricci completou, cruzando os braços com elegância estudada:
— Isso me lembra outro ditado, senhor Amaral. “Antes de conquistar o mundo, um homem deve edificar seu lar. Caso contrário, não é digno de confiança.”
Cássio congelou por um breve instante. O sorriso desapareceu do rosto antes que pudesse controlá-lo.
A presença daqueles dois homens atraía olhares de todos os cantos do salão. O simples fato de conversarem com Cássio já era motivo suficiente para que muitos se aproximassem apenas para escutar. Mas à medida que o diálogo avançava, o ar foi se tornando denso, pesado — o tipo de silêncio disfarçado que precede o rumor. Sussurros começaram a se espalhar entre grupos elegantes, como pequenas fagulhas em um campo seco.
A reportagem, até então apenas um murmúrio digital, ganhava corpo dentro do salão. E o que antes eram apenas “boatos” passou a ser visto com outros olhos, especialmente com Silvia colada a Cássio desde o início da noite, o braço dela roçando o dele em gestos sutis demais para serem inocentes. Os olhares trocados, os sorrisos breves, pareciam confirmar o que as manchetes insinuavam. E, pouco a pouco, o rumor se transformava em certeza no imaginário coletivo, não por palavras ditas, mas por aquilo que todos viam e preferiam acreditar.
Cássio respirou fundo, forçando um novo sorriso.
— Ah, por favor, não deem ouvidos a esses boatos caluniosos. Tenho certeza de que se trata de algum concorrente tentando manchar minha imagem antes deste evento.
Windsor inclinou a cabeça, o olhar ainda cravado nele.
— Isso seria compreensível... mas diga-me, onde está sua esposa? Gostaria de cumprimentá-la. Imagino que seja uma mulher encantadora.
A projeção no telão começou a exibir um vídeo de introdução — fragmentos de vidro se transformando em formas geométricas, luzes se dividindo em espectros, e a palavra “PRISMA” surgindo em letras reluzentes.
O público reagiu com admiração.
Era belo, refinado, quase poético.
E em meio a toda aquela beleza, Santiago sentia a ausência de uma assinatura, uma alma silenciosa que ele sabia exatamente de quem era. Ele olhou em volta e sussurrou para si mesmo:
— Isso é Helena… até o último detalhe.
Permaneceu ali, imóvel, com o olhar preso à escultura de cristal no centro do salão.
Aquela esfera refletia tudo — as pessoas, as luzes, os movimentos.
Mas o que ele via, entre as faces cintilantes, era apenas ela.
Mesmo ausente, ela era a única presença verdadeira naquele salão feito de aparências.
Quando as luzes se reacenderam, o som de aplausos ecoou.
Cássio ajeitou o microfone, o olhar percorrendo o salão repleto, pronto para vestir de palavras o papel que ensaiara tantas vezes diante do espelho.
Mas, antes que pudesse falar, um murmúrio correu entre os convidados — primeiro tímido, depois crescendo como uma onda contida.
Os rostos começaram a se virar, um a um, em direção à entrada principal.
As câmeras giraram, os flashes recomeçaram o seu frenesi.
Cássio parou, o ar lhe fugindo por um instante.
Ele ainda não sabia o que veria — mas algo dentro dele já sabia que nada, a partir daquele momento, sairia como ele imaginara.

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