Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 41

"De todas as viagens, a mais difícil e a mais bela é a que fazemos de volta para dentro de nós mesmos." Autor desconhecido

A limusine preta deslizou suavemente até a entrada do Eclat Hotel, refletindo as luzes douradas que serpenteavam pela fachada de vidro.

Dentro dela, Helena respirou fundo — uma respiração demorada, que parecia vir da alma. Sabia que aquela noite marcaria algo dentro dela.

Não era apenas uma noite de evento. Era um rito.

Um retorno.

...............

Helena havia passado o fim da tarde no Alma Bela, o salão que conhecera dias antes.

Assim que atravessou a porta, foi recebida por uma explosão de entusiasmo.

— Olha só quem voltou… minha musa preferida! — exclamou Diogo, abrindo os braços em um gesto teatral que encheu o ambiente de leveza.

Era impossível não se deixar levar pela alegria dele e daquele lugar. Havia algo de mágico: o som das tesouras, os espelhos cheios de reflexos de gente tentando recomeçar, o cheiro doce de spray e lavanda.

Diogo era mais que um cabeleireiro. Era um artista — e, de certo modo, um curador de almas.

Quando terminou, o reflexo que surgia no espelho tinha algo de luminoso e sereno. O cabelo, agora solto em ondas suaves, moldava-lhe o rosto com naturalidade; a maquiagem, sutil, apenas realçava o que já era bonito.

Mas o que realmente a surpreendia não era o quanto estava diferente.

Era o quanto voltava a se enxergar.

Diogo se abaixou levemente, apoiando o queixo sobre o ombro dela.

Os dois observavam o espelho, como se partilhassem um segredo silencioso.

— Você é feita de força, resiliência e coragem — disse ele, num tom quase sagrado. — Amar a si mesma é o começo de um romance para toda a vida.

Helena sorriu, com os olhos marejados.

Não respondeu — não precisava.

O coração queimava com a gratidão silenciosa de quem, enfim, começava a se reencontrar.

De volta em casa, preparou-se em silêncio e sem pressa, como quem tem todo o tempo do mundo.

O banheiro cheirava a sabonete e flor de laranjeira.

O hidratante que espalhou pela pele lhe deu um brilho delicado, quase humano demais para caber em palavras.

Vestiu o vertido bordô com a calma cerimonial de quem veste um novo destino.

Calçou os sapatos como quem embainha uma espada.

E por fim, a névoa de um perfume, marcante e discreto, brindou seu corpo como um escudo.

Parou admirando a mulher que a encarava no espelho e sussurrou baixinho:

— Que comece o show.

..............

Quando o motorista abriu a porta da limusine, o som dos flashes cortou o ar.

Helena desceu devagar, uma mão pousada com leveza sobre a porta, o vestido fluindo como vinho derramado sobre o asfalto negro.

Por um instante, o burburinho cessou.

Havia algo em sua presença que não pedia atenção — a exigia.

O vestido, de um bordô profundo, parecia mudar de tom sob a luz. O tecido deslizava pelo corpo com naturalidade, sugerindo curvas e elegância na mesma medida.

O decote sutil alongava o colo, as alças torcidas lembravam fios de seda entrelaçados, e a cintura marcada acentuava a feminilidade sem esforço. Nas costas, o tecido se abria em um drapeado gracioso, revelando a pele na medida exata.

A cada passo, a saia leve se movia como se tivesse vontade própria — um convite silencioso ao olhar. A luz refletia em ondas sutis sobre o cetim, criando um brilho líquido que parecia pulsar junto ao seu andar.

O contraste era hipnótico: o bordô do vestido fazia o verde dos seus olhos brilhar com intensidade viva — como folhas molhadas sob o sol.

Os sapatos da mesma paleta, alguns tons mais claros, deixava a mostra a parte interna dos seus pés delicados.

Era uma harmonia precisa entre doçura e poder.

A maquiagem seguia a mesma lógica da roupa — nada gritava, tudo sussurrava.

A pele luminosa, o blush suave realçando o calor natural das maçãs do rosto, os lábios levemente rosados, como se o batom apenas realçasse sua cor natural. E nos olhos, sombras terrosas e um leve delineado, o suficiente para marcar o olhar sem apagar a doçura que o habitava.

Era a beleza da contenção — a arte de dizer tudo sem precisar provar nada.

Os repórteres voltaram-se em uníssono para ela.

As câmeras tilintaram como um enxame.

— Senhora Helena! Uma palavra, por favor!

— O que tem a dizer sobre o escândalo?

— É verdade que vocês estão em crise?

— Você não estava indisposta demais para comparecer?

Helena manteve o sorriso leve.

Não era o sorriso de quem ignora, mas o de quem escolhe o silêncio.

Acenou delicadamente, cumprimentando com educação cada um dos fotógrafos — um gesto pequeno, mas que, paradoxalmente, a fazia parecer maior.

E seguiu em frente, erguendo o queixo com naturalidade, sem pressa, sem máscara.

Diferente de Silvia, que horas antes havia atravessado aquele mesmo corredor com o nariz erguido e o olhar de desprezo, Helena não precisava se proteger da verdade.

Ela era a verdade — calma, luminosa, inteira.

Ao atravessar as portas de vidro, o murmúrio do saguão a envolveu como uma onda suave. O mundo parecia parar por um instante.

O som dos saltos dela no piso de mármore ecoava ritmado, sereno.

Olhares se voltavam, conversas eram interrompidas.

Os fotógrafos lá fora ainda tentavam capturar o último lampejo de seu reflexo.

Quando Helena adentrou o espaço principal, o contraste entre a cor viva de seu vestido e a luz dourada do ambiente fez dela o ponto focal da cena.

O murmúrio das conversas se dissolveu, como se até o salão precisasse respirar antes de reagir.

Era impossível ignorá-la.

...............

Antes mesmo que o burburinho começasse, Santiago sentiu.

Não sabia explicar — era como uma corrente elétrica percorrendo o ar, um aviso silencioso de que algo estava prestes a mudar.

Seu olhar, instintivo, buscou a entrada do salão.

Nada além de cabeças, corpos e flashes.

Até que um lampejo rubro cortou o dourado do ambiente.

O coração dele tropeçou dentro do peito.

E então, Helena surgiu.

Por um instante, tudo se dissolveu — o som, as luzes, até o ar pareceu rarefeito.

Ela atravessava o salão com um equilíbrio que beirava o sagrado, e Santiago não conseguia sequer piscar.

Um murmúrio escapou de seus lábios, rouco, involuntário:

— Porra…

O espanto e o deslumbramento se misturaram, o deixando completamente imóvel. Era como vê-la pela primeira vez — e, ao mesmo tempo, reconhecer nela tudo o que sempre soubera. A força, a doçura, a ferida e a coragem — tudo estava ali, em carne viva, coberto de cetim bordô.

Marcelo apareceu ao seu lado como uma sombra discreta, com um sorriso debochado.

— Fecha a boca, Don Juan — murmurou, dando um gole na taça.

Santiago sequer ouviu.

Seus olhos percorriam cada detalhe dela — seu amor escalando, silencioso, os picos mais altos da Terra.

Não era apenas desejo; era reverência.

Marcelo riu, acompanhando o olhar do amigo.

— Bom... agora eu definitivamente entendo o seu fascínio por ela.

— Não é só beleza — respondeu Santiago, sem desviar o olhar. — É presença. Ela sempre teve isso... só que o mundo nunca percebeu. Até agora.

Ele então reparou no efeito que Helena causava no salão inteiro: os olhares hipnotizados, as conversas suspensas, a curiosidade elétrica no ar. Havia algo nela que transcendia o óbvio — uma magnetização silenciosa, o tipo de poder que não se impõe, apenas existe.

Santiago inspirou fundo, um meio sorriso curvando-lhe os lábios.

— A estrela principal chegou — murmurou, a voz baixa, quase cúmplice. — Enfim... o show realmente vai começar.

E, pela primeira vez naquela noite, ele mal podia esperar para assistir.

...............

Por um instante, ninguém se movia.

Helena caminhava como quem atravessa o próprio destino — cada passo seu parecia rearranjar o ar do salão, cada olhar lançado em sua direção se transformava em um eco mudo de espanto.

Helena não precisava de palco — ela era o palco.

Carlos e Esther, se entreolharam atônitos.

— Ela… — Esther começou, mas não conseguiu terminar, levando a mão ao peito.

Capítulo 41 - A cor que rompe o silêncio 1

Capítulo 41 - A cor que rompe o silêncio 2

Capítulo 41 - A cor que rompe o silêncio 3

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio