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Quadros de um divórcio romance Capítulo 42

“Há pinceladas que não colorem apenas a tela, mas o próprio destino.” Autor desconhecido

Os poucos repórteres que haviam conseguido acesso ao salão agora se tornavam predadores atentos. As câmeras giravam, os flashes piscavam como relâmpagos dentro de uma tempestade de murmúrios.

Um deles, com o celular erguido, fazia uma transmissão ao vivo; o número de espectadores subia em vertigem conforme o nome “Helena Amaral” começava a pipocar nos comentários.

“Não acredito que o Cássio teve coragem de trair essa mulher.”

“Eu não acreditei naquela conversa fiada de consolar uma funcionária com problemas. Quem tem problemas por acaso ri daquele jeito?”

“Parece uma deusa entrando no templo.”

“Gente, eu tô arrepiada. É ela mesma?!”

“O salão inteiro parou. Parece cinema.”

“Eu vim pela fofoca, mas fiquei pela presença. Essa mulher é pura elegância.”

“Ei, não é a mesma mulher que salvou a garotinha no lago?”

O chat fervia, e, como uma chama alimentada pelo oxigênio da admiração, a imagem de Helena se espalhava em tempo real.

Ela, alheia ao burburinho digital, voltou o olhar para o palco.

O queixo erguido com naturalidade, os ombros alinhados, o corpo ereto, o olhar firme — não havia hesitação em nenhum gesto.

Os refletores, curiosos, pareciam buscá-la. Ela manteve-se imóvel, serena e atenta, como se cada fibra de seu ser aguardasse o instante exato em que a voz de Cássio cortaria o silêncio. Ela esperava, como uma tela prestes a receber o primeiro traço de tinta.

Aos poucos, o salão inteiro seguiu a direção do seu olhar.

Cássio permanecia imóvel sobre o palco, o microfone ainda desligado, as palavras do discurso dissolvendo-se dentro dele.

Ele desviou o olhar dela como quem evita o sol, deixando-o vagar pelo salão repleto de rostos expectantes. Cada olhar parecia uma lâmina, cada respiração, um julgamento suspenso.

Ele respirou fundo, tentando recuperar o comando da própria imagem. O suor frio escorria discretamente pela nuca, enquanto suas mãos denunciavam o tremor contido.

Sabia que não podia se dar ao luxo de hesitar — não diante do mundo.

Ao olhá-la novamente, um pensamento trouxe-lhe uma certa calma. Helena estava ali, mas não fizera nenhum escândalo. Teria ela aparecido apenas para apoiá-lo?

Ajeitou o paletó, endireitou a postura e forçou o sorriso ensaiado.

O som do microfone ao ser ligado ecoou como um estalo de vidro no silêncio absoluto.

E, por fim, com a voz embargada de tensão, Cássio começou a falar.

...............

— Senhoras e senhores... boa noite.

Fez uma pausa breve, percorrendo novamente o salão com o olhar, tentando parecer seguro.

— É com grande alegria que estamos reunidos aqui hoje para celebrar cinco anos de uma história que começou de um sonho. E, como muitos de vocês sabem... era apenas isso que eu tinha: um sonho — e nada mais.

O público reagiu com sorrisos e murmúrios de aprovação.

Cássio prosseguiu, a voz ganhando firmeza.

— Quando comecei o Studio Cassiani, não havia garantias, nem investidores, nem grandes estruturas. Havia apenas determinação, uma prancheta, e a crença de que o design podia ser mais do que estética — podia ser propósito. Foram dias longos, noites em claro, erros, acertos, e principalmente, a convicção de que desistir nunca foi uma opção.

Fez uma pausa dramática, como quem saboreia o próprio mérito.

— Hoje, ao olhar para este salão e ver o quanto crescemos, sinto orgulho de cada obstáculo que precisei transpor. Porque foi o esforço, a persistência e o amor pelo que faço que nos trouxeram até aqui.

Os olhos dele brilhavam com uma mistura de emoção ensaiada e vaidade genuína.

— Gostaria de agradecer à minha família — aos meus pais, à minha irmã e à minha esposa, que sempre acreditaram em mim, mesmo quando o mundo parecia duvidar. Sem o apoio deles, talvez este sonho ainda fosse apenas um rascunho.

Um breve silêncio respeitoso tomou o salão.

Ele aproveitou para inspirar fundo e seguir.

— E claro, não posso deixar de agradecer àqueles que estão comigo todos os dias — os colaboradores, os verdadeiros pilares deste estúdio. Cada um de vocês é parte vital dessa construção. O Studio Cassiani é o reflexo da dedicação e do talento de pessoas que acreditam no mesmo ideal.

Cássio lançou um sorriso treinado, movendo-se levemente no palco.

— Quero fazer um agradecimento especial à Silvia Moretti, minha gerente de Marketing, cuja competência e o comprometimento tem contribuído significativamente para o crescimento da empresa, e para que este evento e esta noite fossem possíveis.

O nome de Sílvia pairou no ar como um fragmento incômodo de vidro, refletindo olhares curiosos entre os convidados.

Cássio manteve o sorriso, mas o peso invisível do momento fez sua voz tremer por um instante.

— Hoje não celebramos apenas uma empresa. Celebramos a crença de que o design é capaz de inspirar, emocionar e transformar. A nova coleção que apresentaremos esta noite é um reflexo disso, uma síntese da luz e da forma, da arte e da técnica.

Silêncio.

Um aplauso tímido, depois crescente.

Cássio sorriu, satisfeito.

Ergueu a taça de champanhe que um garçom lhe estendeu.

— A todos vocês, meu muito obrigado por acreditarem neste sonho. E que venham os próximos cinco anos — ainda mais ousados, ainda mais luminosos.

Um brinde foi feito.

Cristais tilintaram, ecoando pela sala como pequenas verdades disfarçadas.

E enquanto os aplausos o envolviam, Cássio sentia o coração mais calmo.

Até... Helena dar o primeiro passo.

...............

O salão voltou a ficar silencioso quando Helena começou a caminhar em direção ao palco.

Cássio, ainda de pé junto ao microfone, virou-se instintivamente — os olhos arregalados, o corpo rígido, incapaz de decidir se devia detê-la ou recuar.

Mas o público, movido por uma curiosidade reverente, abriu espaço. Um corredor de expectativa se formou à medida que Helena avançava.

Os passos dela soavam precisos, firmes, quase ritmados, como se cada um fosse uma nota de orquestra marcando o compasso de algo inevitável.

Ao subir os degraus, o som suave dos saltos sobre o metal ecoou pelo salão, prendendo até o ar no peito de quem assistia.

Cássio, num gesto quase instintivo, deu um passo para trás — inconscientemente dando a ela o espaço do qual precisava. E ela, tranquila, ocupou o centro do palco como quem sempre soube que aquele lugar lhe pertencia.

Helena parou diante dele. Um sorriso leve curvou seus lábios — não de afeto, nem de desafio aberto, mas de quem simplesmente não precisava mais explicar nada.

Virou-se então para o microfone, o brilho das luzes douradas iluminando seu rosto de forma angelical.

— Acredito que o sr. Cássio — disse ela, pausadamente, a voz suave, porém cortante — não se importará se eu disser algumas palavras.

— De um ponto de vista técnico, a base de um prisma é a estrutura que o sustenta, o ponto de onde tudo parte. Nós também precisamos dessa base — aquilo que nos ancora quando tudo gira ao redor. Mas, ao contrário do que muitos pensam, essa base não é feita de certezas... é feita de valores, de amor, de propósito. É isso que nos mantém de pé — mesmo quando o chão se move.

O salão mergulhava num silêncio reverente.

— As arestas — continuou — são os limites que moldam o prisma, as fronteiras que definem sua forma. E nós também somos feitos de limites. São eles que nos lapidam, que nos fazem refletir o que há dentro de nós de maneiras diferentes. A vida nos corta, nos desgasta, nos entalha. E ainda assim… é isso que nos dá forma.

Fez uma pausa, o olhar se movendo devagar sobre o público.

— Já os vértices — ah, os vértices — são os pontos onde as faces se encontram. Onde tudo se toca. Assim também somos nós: feitos de encontros. Cada pessoa que passa por nós muda um pouco a direção da nossa luz. Ninguém sai o mesmo depois de tocar outro ser humano. E talvez seja isso o que nos torna tão fascinantes: o fato de estarmos sempre nos refazendo, sempre redesenhando nossa própria geometria.

Ela sorriu, com serenidade e firmeza.

O público estava completamente cativado.

Até Cássio, imóvel, parecia ter esquecido de respirar.

— Prisma fala sobre isso — disse Helena, a voz embargada de emoção contida. — Sobre aceitar que há beleza na multiplicidade. Que dentro de cada um de nós existe calmaria e tempestade, doçura e fúria, sombra e claridade. E que a harmonia não nasce da ausência de contraste… mas da convivência entre eles.

Respirou fundo, a voz tornando-se um sussurro íntimo:

— Talvez a beleza não esteja no que mostramos ao mundo, mas no que nos permitimos ser quando ninguém está olhando. E talvez, só talvez… a verdadeira arte esteja em continuar acreditando na luz — mesmo depois de conhecer todas as nossas sombras.

Fez uma pausa e olhou para o centro do salão, onde a grande escultura multifacetada refletia os rostos, as luzes, o próprio momento.

— O prisma, assim como a vida, só se revela por inteiro quando olhado de todos os ângulos. De uma perspectiva, parece simples; de outra, parece infinito. Mas é no conjunto — na soma das bases, das arestas e dos vértices, das faces — que descobrimos o milagre de existir. Ser humano é isso: ser múltiplo, e ainda assim buscar unidade dentro de si.

Ela sorriu — serena, segura, dona da própria voz.

— Prisma é sobre isso. Sobre o humano. Sobre a imperfeição que nos torna únicos. Somos todos prismas — complexos, fragmentados e belamente imperfeitos.

O tom suavizou-se, quase em um fecho sagrado:

— Cada peça dessa coleção carrega a lembrança do toque humano — da imperfeição que a torna única, da força que existe nas bordas, nas linhas que se encontram. Porque até o mais belo dos prismas só existe porque suportou o atrito que o esculpiu.

E então, com um leve sorriso, concluiu:

— Que cada um de vocês leve daqui a lembrança de que não é o brilho uniforme que nos define, mas as nossas arestas — essas partes que cortam, que doem, mas que também refletem a luz de modos que ninguém mais pode. Porque o brilho mais verdadeiro… não vem do reflexo, mas daquilo que continua aceso mesmo quando todas as luzes se apagam.

...............

Quando Helena terminou de falar, o salão inteiro permaneceu em silêncio.

Não um silêncio de protocolo — mas aquele tipo raro, denso, que só surge quando algo verdadeiro atravessa a superfície das aparências.

As luzes refletiam no cristal da escultura central, projetando fragmentos coloridos nas paredes, como se o próprio prisma aplaudisse em reverência.

Por um instante, ninguém se moveu. Era como se todos estivessem tentando se recompor daquilo que acabavam de presenciar.

E então, lentamente, o som começou.

Um aplauso tímido, vindo de algum canto distante, cresceu, multiplicou-se, tornou-se uma onda.

De repente, o salão inteiro pulsava em aplausos — aplausos longos, arrebatados, de gente que talvez nem compreendesse totalmente o motivo, mas sentia que algo importante havia acabado de acontecer.

Alguns olhos marejavam.

Outros, apenas observavam Helena com um respeito quase reverente.

O que ela dissera não era apenas sobre design. Era sobre vida, coragem, identidade — e cada pessoa naquele salão, mesmo as mais céticas, se viu refletida nas palavras dela, como uma das faces de seu prisma.

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