Capítulo 43 - Luz sobre as fissuras
“Meraki — o ato de transformar o que se faz em espelho da alma. Criar com amor, viver com entrega, existir deixando traços de si no que se toca.” Palavra grega
Cássio permaneceu imóvel, como se cada palavra de Helena fosse um raio atravessando o ar — e o atingindo em cheio.
No início, tentou manter o semblante sereno, a postura de empresário orgulhoso que assistiria a um tributo à própria empresa. Mas, conforme o discurso avançava, percebeu que aquelas palavras não eram apenas sobre prismas, ou sobre design… eram sobre ele.
Ou pior — eram sobre tudo o que ele não era.
As faces, as arestas, a base, os vértices…
A cada metáfora, Helena desmontava, com elegância e serenidade, o império de vaidade que ele havia construído.
Sem jamais citá-lo, ela o expôs diante de todos.
E o fez com uma força que o desarmava mais do que qualquer grito.
Ele não sabia se estava com raiva, vergonha ou medo — talvez um pouco dos três.
A cada aplauso, o som parecia ecoar como marteladas dentro da cabeça.
Helena não o olhou mais e esse foi o golpe mais certeiro.
A mulher que ele sempre julgou frágil, silenciosa e previsível agora o deixava pequeno, quase ridículo, diante de todos.
Sabia que ninguém prestava mais atenção nele.
A noite que deveria ser sua, agora pertencia a ela.
Havia nela uma serenidade que beirava o poder — o tipo de poder que não precisa ser imposto, apenas reconhecido.
E pela primeira vez em muito tempo, Cássio não sabia o que fazer.
Nem o que dizer.
Porque algo dentro dele sabia: o império que ele construiu com vaidade estava começando a ruir… e quem o derrubava não era um inimigo.
Era a mulher que ele pensou poder calar.
...............
Para Santiago, o tempo simplesmente parou.
Ele assistia a Helena como quem contempla uma constelação rara — não apenas pela beleza, mas pela imensidão de significados que ela carregava.
Cada palavra dela o atravessava como luz refratada: pura, intensa, impossível de capturar.
E quanto mais ela falava, mais ele percebia que não estava apenas ouvindo uma mulher discursar.
Estava presenciando alguém renascer.
Ver Helena ali — tão dona de si, tão viva, tão distante do caos que a vida lhe impusera — era como testemunhar uma aurora depois de uma longa noite.
O mundo inteiro ao redor parecia ter se calado para que ela existisse em plenitude.
Enquanto todos a aplaudiam, Santiago permaneceu em silêncio, imóvel.
Mas seus olhos diziam o que o corpo não ousava expressar: orgulho, admiração, e algo mais profundo, quase sagrado — o reconhecimento da alma.
Ela não era mais a mulher ferida que ele reencontrou.
Era a Helena completa.
Aquela que finalmente havia descoberto sua própria luz…
E ele sabia, no mais íntimo de si, que jamais conseguiria olhar para outra mulher do mesmo modo.
...............
Enquanto Helena falava, o chat da transmissão ao vivo explodia.
Corações pulsavam na tela, os comentários surgiam em cascata, uma enxurrada de fascínio e espanto:
“É impressão minha ou ela usou mesmo o nome de solteira?”
“Meu Deus, essa mulher é poesia!”
“Não sei o que é mais lindo, o vestido ou o discurso.”
“A beleza dela é só a moldura. A alma é o quadro.”
“Essa mulher não fala… ela hipnotiza.”
“Tô chorando e nem sei por quê.”
“Parece cena de filme, mas é vida real.”
Vídeos com trechos do discurso começaram a circular nas redes, recortados, compartilhados, editados com música de fundo. Em minutos, o nome Helena Duarte dominava as telas, atravessando o salão e o mundo lá fora.
Aparentemente, todos — os que estavam ali, os que assistiam ao vivo, e até os que apenas liam as manchetes — haviam sido tocados.
Aquela mulher falava de ser inteiro, de abraçar a imperfeição, e, ironicamente, a simplicidade da verdade ofuscava o brilho do luxo ao redor.
O glamour do evento, os cristais, os trajes, tudo parecia perder cor diante da beleza luminosa e serena do que era simplesmente real.
...............
Esther e Carlos assistiam a tudo embasbacados, tentando entender o que estava acontecendo. O silêncio entre eles era denso, como se cada palavra dita por Helena acrescentasse mais um peso à consciência de ambos.
Não compreendiam o motivo da presença dela ali — e menos ainda como conseguia falar com tamanha autoridade, como se fosse a própria alma da coleção.
As palavras do filho, tão cuidadosamente estudadas, agora soavam pequenas, vaidosas, vazias.
Viviane, com o queixo travado, alternava o olhar entre Helena e o irmão, o desconforto crescendo a cada segundo.
Podia sentir o salão inteiro respirando por aquela mulher — a mesma que, em sua cabeça, deveria ter permanecido invisível, discreta, apática.
Mas ali estava ela, radiante, autêntica, inabalável.
O brilho nos olhos dos convidados a irritava.
A beleza de Helena era uma afronta. Sua força, um espelho incômodo.
Mais ao fundo, Tânia observava a cena em silêncio, surpresa, talvez até admirada.
— Eu... não esperava por isso. — murmurou para Renato, sem tirar os olhos do palco.
Renato, ao lado dela, não respondeu.
Apenas observava — sereno, atento, como quem enxergava além da superfície.
Havia nele uma compreensão silenciosa, uma certeza de que nada que estava acontecendo era por acaso.
Seus lábios se curvaram num meio sorriso contido, quase imperceptível, o olhar firme no palco, como se finalmente visse aquilo que sempre soubera, mas Cássio nunca lhe dissera.
...............


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