"Não há nada de tão bom que não possa ser contado com uma pequena mentira, nem de tão mau que não possa ser camuflado com uma grande." Mark Twain
O som dos aplausos ainda pairava no ar quando Helena começou a descer os degraus do palco.
O vestido bordô se movia como uma chama lenta, ondulando a cada passo. E por onde ela passava, os olhares se abriam como cortinas.
Ela caminhava sem pressa, o queixo erguido, o olhar sereno — sem buscar plateia, mas sem fugir dela.
Aquela mulher não parecia apenas ter vencido o medo.
Parecia tê-lo domado.
Cássio a observava como quem encara um fenômeno da natureza — paralisado, impotente, fascinado. O som ao redor pareceu se apagar, restando apenas o próprio coração batendo em descompasso.
A cada passo dela, ele sentia a distância entre os dois se alargar — não física, mas existencial.
Enquanto ela cruzava o salão, mãos se estendiam, cumprimentos surgiam, vozes sussurravam o nome dela.
E isso foi demais para ele suportar.
Cássio começou a se mover.
Precisava falar com ela.
Precisava retomar o controle antes que o mundo percebesse o que ele mesmo já começava a entender: tudo o que construíra estava ruindo — nas mãos dela.
Precisava se aproximar, dizer qualquer coisa, qualquer palavra que a trouxesse de volta ao papel que sempre coube a ela — o de sombra dócil e previsível.
Helena ainda não dissera em voz alta que era a verdadeira designer por trás da empresa, mas nada a impedia de falar se continuasse ali.
Atravessou o salão com passos apressados, disfarçando a urgência sob um sorriso ensaiado.
Cada olhar que recebia agora parecia diferente — mais atento, mais avaliador.
As pessoas não o viam mais como o homem do discurso brilhante, mas como o marido da mulher que acabara de roubar a noite.
— Helena! — chamou, a voz mais alta do que pretendia.
Ela parou, mas não se virou de imediato. Respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, e então se voltou para ele com uma serenidade que o desarmou.
O contraste entre o rosto tranquilo dela e o desespero contido no dele era quase cruel.
Ele se aproximou de súbito e segurou o braço dela com força, puxando-a para mais perto de si.
— Acho melhor você me soltar. — Ela disse, entre os dentes, como um aviso.
Puxou o braço com firmeza, libertando-se do aperto.
— Você não devia estar aqui. — disse ele, a voz baixa, o sorriso rígido para disfarçar os olhares em volta.
— E, ainda assim, aqui estou. — respondeu, simples e cortante.
— Eu te proibi de vir — insistiu ele, a voz tensa, o controle escorrendo por entre os dedos.
— E por que eu deveria obedecer a você?
— Porque você é minha mulher.
Ela o encarou, o olhar firme como aço polido.
— Não, Cássio. Não sou. Não mais. E mesmo quando fui sua esposa, nunca fui sua posse.
Os olhares ao redor se multiplicavam. O ar parecia ferver.
A tensão atraía todos — inclusive os familiares e amigos de Cássio, e também Silvia.
— Que besteira é essa agora? — perguntou Cássio, impaciente, o tom carregado de irritação.
Helena o fitou com calma.
— Se eu sou mesmo sua esposa — disse, pausadamente, como quem prepara o golpe — então me diga… que dia é hoje?
Ele franziu o cenho, confuso.
— Como assim, que dia é hoje? — respondeu, em tom defensivo. — É o aniversário de cinco anos da empresa.
Helena esboçou um sorriso breve, melancólico.
— Só isso? — perguntou, sem tirar os olhos dele. — Você não se lembra do que mais aconteceu há cinco anos… nesse mesmo dia?
Cássio piscou, o olhar perdido por um instante. As palavras dela pairaram no ar como uma lembrança antiga que ele tentava evitar. Então a ficha caiu — e o peso da própria negligência desabou sobre ele.
Há cinco anos, naquele mesmo dia, eles haviam se casado.
Nunca comemoraram juntos. Nunca houve flores, jantar, lembranças.
A data sempre pertencera à empresa — àquele império de vidro e vaidade que agora começava a ruir.
Um nó formou-se em sua garganta.
— É por isso que você está fazendo esse show? — perguntou, tentando parecer ofendido, mas a voz falhou. — Porque eu esqueci do nosso aniversário de casamento?
— Você não consegue mesmo se controlar, cunhadinha? — disse Viviane, o veneno escorrendo pela voz. — Precisava mesmo vir aqui só pra chamar atenção e envergonhar todo mundo?
Esther avançou um passo, o olhar em chamas.
— Como você ousa humilhar meu filho?
Carlos, ao lado da esposa, balançou a cabeça com expressão carregada de reprovação.
Silvia, por sua vez, observava tudo em silêncio. O caos reacendia nela um prazer mórbido. Talvez a noite, afinal, não estivesse perdida.
Marcelo, observando à distância, inclinou-se para Santiago.
— A tensão ali dá pra cortar com um serrote.
Santiago nada respondeu.
Seus olhos estavam fixos em Helena, o corpo inteiro em alerta — não por ciúme, mas por um impulso protetor. Ela não precisava que a defendessem, e mesmo assim, algo nele ardia.
Helena manteve-se firme.
— Me digam... de que forma eu envergonhei vocês? De que forma eu humilhei seu querido filhinho?
— Com esse showzinho que está dando — sibilou Esther, tentando conter a própria fúria. — Você é uma desgraça na nossa família.
Helena respirou fundo, o tom frio, controlado.
— Então acho que vai ficar feliz ao saber que já não faço mais parte dela.
— Tá querendo dizer o quê? Se estiver pensando em divórcio, esqueça! — interrompeu Cássio, a voz subindo.
— Não estou querendo dizer nada. Estou afirmando. — Ela o encarou. — Não somos mais marido e mulher.
Cássio riu, incrédulo.
— De onde você tirou esse absurdo? Está louca?
Antes que ela respondesse, uma nova voz se fez ouvir, clara, serena:
— Ela não está louca. Aliás, nunca esteve tão lúcida.
Todos se voltaram ao mesmo tempo.
Lívia avançava entre os convidados, imponente em seu vestido azul-marinho. Os sapatos de salto deixavam-na ainda mais alta do que já era, garantindo-lhe uma aura de sobriedade e poder.
Cada passo seu parecia medir a distância entre o caos e o controle — e, por onde passava, os murmúrios se calavam.
Ela parou ao lado de Helena, segurando brevemente sua mão com um sorriso encorajador.
— E você é? — perguntou Carlos, o tom hostil.
Tânia deu um riso debochado.
— Esta é a amiguinha defensora da Helena.
Mas Lívia manteve a calma e o tom profissional.
— Sim, sou amiga de Helena. Amiga e advogada. — Estendeu um documento a Cássio. — E aqui está a certidão de casamento com a averbação do divórcio já registrada em cartório.
Um murmúrio atravessou o salão como uma onda contida, crescendo a cada segundo, alimentada pelo espanto e pela expectativa.
Entre a multidão, o olhar de Santiago capturava apenas a imagem de Helena.
Nos olhos dele, um brilho de admiração serena se acendeu, como quem contempla algo raro e irrevogável.
Ela estava livre. Finalmente livre.
E, desta vez, ele sabia — não permitiria que o destino o fizesse hesitar outra vez.
A poucos metros dali, outro brilho também surgiu — o de Sílvia.
Só que o dela era diferente.
Por trás do reflexo de seus olhos havia algo escuro, denso, pulsante…
Um tipo de sentimento capaz de causar calafrios.
Em Cássio, porém, qualquer vestígio de brilho se apagou.
Ao ler o documento e reconhecer o selo, o sangue pareceu abandonar-lhe o rosto.
Por um instante, o mundo encolheu — o som, as vozes, a própria respiração.
Não podia ser real.
Helena… não faria isso.
Ela o amava. Ela o amava, porra.

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