“A justiça não consiste em ser neutro entre o certo e o errado, mas em descobrir o certo e sustentá-lo, onde quer que ele se encontre, contra o errado.” Theodore Roosevelt
A tensão pairava sobre o salão em expectativa.
Helena apontou lentamente para o pescoço de Silvia.
— Vamos começar pelo roubo do colar da minha avó?
A frase soou clara, cortante, e por um instante todos seguiram o olhar dela: no colo de Silvia repousava um colar de ouro com pingente em forma de coração. Um novo murmurinho percorreu o salão, incrédulo, voraz.
Cássio esticou-se na direção dela, a voz rápida demais, traindo o pânico.
— Nós éramos casados — gaguejou — o que era seu, era meu. Posso até ter sido infeliz ao dar o colar à Silvia, mas isso não é roubo.
Ele já havia sido exposto como um homem infiel, não desejava que o considerassem também um ladrão.
— Até pouco tempo você mesmo lembrou que tínhamos separação total de bens — retrucou Helena, a calma hostil. — O que mudou?
A pergunta o deixou mudo, ao ver que caíra na própria arrogância.
— Mesmo que fosse diferente, eu ganhei esse colar ainda jovem. É uma joia de família com valor sentimental incalculável. Resumindo, você não tem nenhum direito sobre ele, logo... você o roubou.
Silvia fingiu-se ofendida, a mão pousada sobre a joia.
— Existem outros colares iguais — disse ela, voz teatral — quem disse que esse é o seu? Acusar sem prova é crime.
— Isso mesmo! Se não tem como provar, quem está cometendo crime é você. _ reforçou Viviane.
Então uma voz serena cortou o zumbido geral:
— Eu posso provar!
Helena sorriu ao ver os pais avançarem pela lateral, Consuelo e Rogério, forçando-se a uma entrada rápida, atentos e firmes.
Dificilmente havia alguém naquele salão que não conhecesse o casal Duarte. A construtora que levava seu nome era sinônimo de excelência — uma força quase lendária no setor, referência internacional em engenharia e design urbano.
A chegada deles veio acompanhada de expressões de surpresa e admiração.
— Mamãe, papai! — exclamou Helena, diminuindo a distância para abraçá-los. — Vocês não me avisaram que vinham.
— Viemos de última hora... soubemos que nossa presença talvez fosse necessária. — disse Consuelo com carinho, lançando um olhar cumplice para Lívia.
Helena seguiu o olhar da mãe, e lançou um olhar divertido de falsa recriminação para a amiga.
Consuelo ergueu a mão estendendo um envelope.
— Aqui está a cópia autenticada do registro da joia. Não existem “outras” iguais — explicou, voz calma. — É uma peça exclusiva encomendada por minha mãe especialmente para a Helena.
Rogério tomou a palavra, olhando direto para Silvia e depois para Cássio.
— Verifiquem o registro com o número da peça. Ou vocês devolvem o que pertence à minha filha agora, ou chamamos a polícia.
O rosto de Silvia empalideceu ao mencionarem a polícia; procurou Cássio, buscando um resgate invisível que não veio.
Ele, porém, sentiu a segurança se esvair ainda mais — a raiva se comprimindo num nó de derrota. Pensou, irritado e impotente: “Esses dois velhos... sempre me desprezaram. Agora celebram.”
Diante da sinuca de bico em que se encontrava, não tinha outra opção a não ser ceder.
— Entregue o colar a ela. — Ordenou com o tom seco e cortante.
Silvia abriu o fecho, lágrimas verdadeiras e mortificadas escorrendo pelo rosto — vergonha e raiva misturadas. Estendeu o colar; mas, num gesto teatral que atiçou ainda mais o público, deixou-o cair no chão.
O salão exalou desaprovação. Comentários cortaram o ar como lâminas.
Helena, apertando os olhos, falou baixo, gélida:
— Pegue-o.
— Se quer tanto, pegue você — ralhou Silvia, avessa.
— Pegue. Não esqueça que ainda posso mudar de ideia e chamar a polícia. — Helena falou sem mover o rosto.
A vergonha abriu fendas no semblante de Silvia, mas ela não era maior do que o medo. Por fim, abaixou-se lentamente, a mão apoiada no ventre num gesto calculado, apanhando o colar com dedos trêmulos e oferecendo-o a Helena como se se livrasse de um objeto sujo.
— Me dê aqui filha. Vou mandar desinfetá-lo para você. — Disse Consuelo lançando um olhar de repulsa para a mulher vulgar.
Cássio deu um passo à frente, como o dono da cena.
— Agora que já conseguiu o que queria, pode ir embora. — A frase saiu autoritária, mais por reflexo do que por convicção.
— Ainda não. — Rogério cortou, firme.
Cássio explodiu, histérico:
— O que mais vocês querem?
— Quando você quis abrir sua empresa... — disse Rogério, olhando brevemente em volta. —, você não tinha capital para começar. Foi Helena que nos pediu para te ajudar.
Cássio tremeu, a expressão de espanto repetiu-se no rosto como um eco. Mencionar o auxílio financeiro na frente de todos — isso o pegava de surpresa, o desnudava.
— Você está falando daquela mixaria? — Perguntou Cássio, tentando menosprezar a grandeza do gesto.
— Sem a “mixaria” que você desdenha agora... — interrompeu Consuelo, dura —, sua empresa nem existiria.
— Posso escrever um cheque agora mesmo se isso me livrar de vocês. — Ridicularizou Cássio, tentando rir e falhando.
Rogério sorriu, lento e venenoso.
— Você, por acaso, se lembra das cláusulas daquele acordo de doação? Se você fosse infiel, deveria restituir o valor multiplicado pelo tempo de casamento, como compensação pelos anos que minha filha perdeu ao seu lado. Você aceitou na época. Disse que isso nunca aconteceria. Nós confiamos em você.
Cássio ficou pálido. Sua mente voltando pro documento como se ele estivesse a sua frente palavra por palavra.
Rogério continuou, implacável:
— São vinte e cinco milhões, considerando cinco anos. Pode emitir um cheque agora?



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