"Três coisas não podem ficar escondidas por muito tempo: o sol, a lua e a verdade." Buda
Cássio avançou um passo, o rosto tomado por uma mistura de raiva e exaustão.
— Você já arruinou o evento, arruinou a reputação da empresa. Já conseguiu o maldito colar de volta. E eu já disse que vou resolver o assunto da doação. Não tem mais nada aqui que possa ser seu! — falou, a voz trêmula, o controle escorrendo por entre os dedos.
Helena o encarou por um instante, e sua resposta veio calma, quase irônica:
— E a empresa?
Viviane soltou um riso indignado.
— Era só o que faltava! Você é mesmo uma interesseira! Todos sabem que a empresa é do meu irmão!
Helena manteve o olhar firme, o tom carregado de um suspense sútil.
— Sim, a empresa é dele... Mas há coisas sobre as quais eu tenho direitos — e não estou disposta a abrir mão deles mais.
A expressão de Cássio se transformou.
Ele compreendeu, num lampejo, o que Helena estava prestes a fazer.
Todo o ar de arrogância, toda a postura rígida e confiante, desabou de dentro para fora.
O medo tomou-lhe o rosto, e ele se aproximou, não como o empresário altivo, mas como um homem à beira do desespero.
— Helena, por favor... — disse, a voz quase suplicante. — Já basta por hoje. Seja o que for, nós podemos discutir isso depois.
O murmúrio que percorreu o salão foi quase palpável.
Todos notaram a súbita mudança de atitude dele — o homem arrogante, agora acuado, até humilde, diante daquela mulher.
Ela deu um passo para trás, o olhar impassível.
— Não existe “depois”, Cássio. Vamos resolver isso aqui... e agora.
Ele reagiu como um animal acuado. Agarrou-lhe o braço com força e a puxou, aproximando-lhes os rostos até que o hálito de um batesse no outro.
— Você não pode fazer isso. — sussurrou, baixo, para que apenas ela ouvisse; o olhar uma ameaça contida.
O movimento seguinte aconteceu num sopro: alguém se aproximou num passo tão rápido que o cabelo de Helena balançou.
— Solte-a! — exigiu uma voz firme.
Quando Helena voltou os olhos para quem havia falado, encontrou Santiago ali, o rosto tão tenso que parecia esculpido por uma urgência antiga. Sem hesitar, ele segurou o punho de Cássio que a aprisionava; a pressão obrigou o homem a abrir os dedos e deixá-la ir.
— Não se atreva a tocá-la outra vez. — Santiago falou, cada palavra cortada, sem traços de dúvida.
— Ela é minha esposa! — gritou Cássio, num volume que continha raiva, medo e incredulidade ao mesmo tempo.
— Só você ainda não entendeu que ela não é mais nada sua. — respondeu Santiago, calmo e implacável.
O impacto foi imediato.
Por um instante, o salão inteiro pareceu esquecer de respirar.
Os convidados se entreolhavam, atônitos, incapazes de compreender o que acabavam de testemunhar. O homem que minutos antes discursava com falsa calma, agora estava sendo contido — e por outro homem, firme, implacável, com um olhar que queimava.
Os murmúrios voltaram como sussurros, crescendo feito um vendaval:
“Meu Deus, ele a agarrou!”
“Quem é aquele homem?”
“Você viu o jeito que ele a defendeu?”
“Isso está indo longe demais…”
No chat da transmissão ao vivo não foi diferente.
“Quem é esse homem? Alguém descobre o nome dele AGORA!”
“Isso é cena de novela, não é possível.”
“EU ARREPIEI!”
"Alguém chama os bombeiros."
As câmeras e celulares, antes apontados para Helena e Cássio, agora se voltavam para Santiago.
O público, dividido entre o choque e o fascínio, via a cena se desenrolar como um clímax de filme — ninguém ousava desviar o olhar.
Helena continuava imóvel. O braço ainda doía onde Cássio a segurara, mas a dor era pequena diante daquilo que sentia ao ver Santiago diante dela.
Aquele homem que já a ajudou antes, e até salvara sua vida — agora, diante de todos, o fazia novamente.
Nos olhos dele, havia raiva contida, mas também algo mais: um tipo de ternura que a desarmava, que dissolvia, por um instante, o peso da cena.
O ambiente parecia eletrizante.
Esther deu um passo à frente, a voz cortante como aço, tentando reunir a autoridade que o filho perdera em segundos:
— Diga, então — exigiu — o que mais você quer afinal, para ir embora daqui?
Helena voltou-se para Cássio, o olhar incisivo.
— Você conta... ou prefere que eu faça isso?
Ele abriu a boca, tentando disfarçar o pânico sob uma risada forçada.
— Ela só pode estar ficando louca! Não tem outra explicação!
Os convidados se aproximaram, atraídos pelo prenúncio de revelação. O ar fervia de curiosidade e tensão.
Renato, observando de longe, permanecia imóvel — o rosto impassível de quem já decifrara todo o mistério. Olhava para o amigo com incredulidade, já não sentindo conhece-lo mais.
Helena respirou fundo.
— Bem, se você prefere assim... — disse ela, pausadamente. — Então que seja. Estou falando de todos os designs que criei para as coleções da empresa. Desde a primeira... até esta última.
As palavras caíram como uma sentença.
Um silêncio profundo varreu o salão — seguido por uma onda de murmúrios surpresos.
— Vocês acham mesmo isso tudo? — perguntou, com ironia contida. — Que interessante. Então me digam uma coisa: quando foi que qualquer um de vocês o viu desenhar um único esboço?
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.
— Afinal — continuou ela, dando um passo à frente —, ele está sempre tão ocupado, não é? Reuniões, viagens, eventos... Uma coleção demanda tempo, dedicação, criatividade. Então me digam: quando é que o “incrivelmente incrível” Cássio Amaral encontra tempo para desenhar?
Ele engoliu em seco.
— Eu apenas faço os esboços principais... e delego o restante à equipe de criação. — Tentou justificar-se, a voz falhando.
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Ah, é mesmo? Então qualquer funcionário dessa equipe pode confirmar isso, certo? Como é um evento da empresa, imagino que alguns deles estejam aqui. Por que não chama um agora?
O silêncio respondeu por ele.
— Ou será — prosseguiu ela, o tom frio, o olhar fixo no dele — que essa “equipe criativa”... — fez aspas com os dedos, pausadamente — nunca existiu? Alguém aqui já conheceu algum deles?
O salão se calou novamente.
O brilho das luzes refletia nos olhos perplexos da plateia.
Helena havia colocado em xeque a certeza de todos.
Cássio tentou manter a postura, mas o tom de sua voz o traiu:
— Eu não vou expor meus funcionários a algo tão ridículo. — disse, tentando soar firme, mas a rigidez nas palavras denunciava o medo.
Helena arqueou uma sobrancelha, o sorriso quase imperceptível, cortante como lâmina.
— Claro que não vai. — Murmurou, em tom de zombaria delicada, porém afiada o suficiente para ecoar em toda a sala.
O murmúrio cresceu novamente entre os presentes, o ar vibrando em expectativa.
Então, uma voz grave e calma rompeu o burburinho.
Renato se adiantou um passo, o olhar sereno, mas cheio de curiosidade genuína.
— E você, Helena? — perguntou, com a compostura de quem j**a luz onde há sombra. — Por acaso tem como provar que é a autora dos projetos?
O mundo pareceu parar por um segundo.
Todos os olhos voltaram-se para ela — atentos, famintos, incrédulos.
As câmeras se ergueram, os flashes voltaram a piscar, capturando o instante exato em que o destino de todos ali parecia pender de uma única resposta.
Helena manteve o olhar firme, mas em seus olhos havia algo novo — um brilho contido, sereno, como quem já conhecia o desfecho antes mesmo da pergunta ser feita.
Ela não respondeu de imediato.
Apenas sustentou o silêncio.
E foi nesse instante que o suspense se tornou insuportável.
O som das respirações, o estalar distante de uma câmera, o tilintar de uma taça esquecida — tudo se fundia num compasso tenso, prestes a explodir.

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