"É difícil falar a verdade para um mundo cheio de pessoas que não sabem que estão vivendo uma mentira." Autor desconhecido
Helena esboçou um leve sorriso — sereno, quase enigmático.
Era o tipo de sorriso que precede a revelação... ou o caos.
Tânia também se aproximou, o olhar faiscando em provocação.
— Isso mesmo — disse, em tom debochado. — Por acaso tem alguém aqui que já tenha te visto fazer um esboço?
O silêncio que se seguiu foi cortado por uma voz firme, vinda dentre os expectadores.
— Eu já vi.
Todos se voltaram, surpresos.
Entre os convidados, surgia Manoel, o gerente de produção do grupo Ferreira — um homem de semblante sereno, e que exalava confiança.
Renato ergueu as sobrancelhas, surpreso ao reconhecer o funcionário.
— Manoel? — chamou, curioso. — E quando foi isso?
O homem se aproximou com passos seguros e parou diante deles.
— A senhorita Helena... — fez uma pausa e olhou para ela, com um sorriso discreto. — Posso te chamar assim agora?
Helena assentiu, retribuindo o sorriso com ternura e respeito.
— Bem — prosseguiu ele, ajeitando os óculos —, a senhorita Helena sempre esteve presente nas etapas de produção dos protótipos. E, quando surgia algum problema que exigia ajustes, era ela quem redesenhava a peça ali mesmo no setor, na prancheta, sem precisar de rascunho, sem medir — como quem já sabia exatamente o que estava recriando.
Um murmúrio percorreu a sala.
Olhares se cruzaram, confusos, tentando reorganizar o que acreditavam saber.
Renato, intrigado, aproximou-se mais do funcionário.
— Mas ela poderia ter feito esses ajustes apenas por conhecer os projetos — observou, com voz calma e investigativa. — Não seria necessário ser a autora para compreender as plantas.
Manoel balançou a cabeça, convicto.
— Com todo respeito, doutor Renato, o senhor não está entendendo. — Fez uma pausa, a voz grave preenchendo o silêncio. — Eram ajustes que nem nossos engenheiros conseguiam resolver. Problemas de concepção, de estrutura, de equilíbrio... Só quem idealizou cada peça teria essa capacidade. Só quem imaginou o design desde o início entenderia o que estava errado e como corrigir.
Renato assentiu lentamente, em respeito.
Mas o restante do salão parecia imerso em incredulidade.
Alguns cochichavam entre si, outros apenas observavam Helena — agora sob uma luz diferente, quase reverente.
Renato se virou para Cássio, esperando uma explicação. Afinal, se aquilo fosse verdade, não só a imagem do Studio Cassiani seria prejudicada, como a do Grupo Ferreira também.
Mas, ao encará-lo, o que encontrou não foi resposta — foi culpa.
Nos olhos do amigo havia algo bem diferente daquela arrogância habitual.
Cássio sabia que estava cercado. E, pela primeira vez, parecia não saber como sair.
Viviane, impaciente, tentou romper o silêncio.
— Provavelmente esse homem está mentindo... ou talvez tenha sido subornado pra dizer isso. — Acusou, a voz aguda soando como um estalo no ar.
Manoel se voltou para ela, ofendido.
— Eu não preciso mentir, senhorita. — respondeu com dignidade. — Além de mim, qualquer funcionário do setor de produção pode confirmar o que acabei de dizer.
— Mas isso não prova nada — rebateu Carlos, ríspido, tentando sustentar o que já começava a ruir.
Esther cruzou os braços, o rosto carregado de desprezo.
— Tudo isso não passa de um golpe — disse, em tom venenoso. — Essa mulher só quer arrancar mais dinheiro do meu filho.
Lívia e os pais de Helena trocaram olhares duros, prontos para reagir.
Mas Helena, serena, ergueu uma das mãos, um gesto suave que bastou para detê-los. Não era preciso descer ao mesmo nível deles. A verdade falaria por si.
Ela se virou para uma das colaboradoras do evento, posicionada próximo ao telão.
Um leve movimento de cabeça bastou.
— Talvez isso seja prova o bastante — disse Helena, apontando para o telão.
As luzes se ajustaram, e o vídeo começou.
Na tela, Helena aparecia em seu escritório em casa, sentada diante de uma mesa de madeira coberta por papéis, esquadros e lápis de diferentes espessuras.
A imagem era serena, quase poética: o som do grafite riscando o papel, o olhar concentrado, a leveza dos gestos.
Era a imagem de alguém em plenitude criativa.
O salão inteiro silenciou.
Ninguém ousava se mover.
Até os que duvidavam sentiam, no íntimo, que aquilo não era encenação — era autenticidade.
Para Cássio, cada segundo do vídeo era uma punhalada.
Nem o sistema de segurança de casa o poupava agora.
— Ela pode muito bem ter montado essa cena só pra gravar — rebateu Silvia, forçando uma risada trêmula. — E provavelmente foi isso que fez.
— Exatamente. Isso não prova nada — reforçou Cássio, tentando recuperar o tom de autoridade.
Lívia, cansada da audácia dele, deu um passo à frente.
Em sua mão, um pequeno pendrive reluzia sob as luzes.
— Talvez esse vídeo, sozinho, não seja o bastante. — disse, com calma afiada. — Mas aqui dentro há mais de setecentas horas gravadas. Mostram Helena trabalhando, desenhando, revisando cada detalhe da coleção Prisma nos últimos seis meses. Desde a primeira linha até a finalização do projeto.
Ela ergueu o objeto para que todos vissem.
— Isso é prova suficiente pra vocês?
A frase caiu como um soco coletivo.
Os pais de Cássio se entreolharam, atônitos.
A incredulidade se transformava em decepção — e, por trás dela, culpa.
Tinham acreditado nas palavras do filho sem jamais questioná-lo.
Agora, tudo o que restava era o peso silencioso do arrependimento.
Viviane, porém, mantinha o queixo erguido, o olhar frio.
Não sentia culpa, apenas desprezo.
“E daí?”, pensava. “Se ela deixou ele levar o mérito, foi burrice dela.”
Silvia, por sua vez, era um enigma.


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