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Quadros de um divórcio romance Capítulo 47

"É difícil falar a verdade para um mundo cheio de pessoas que não sabem que estão vivendo uma mentira." Autor desconhecido

Helena esboçou um leve sorriso — sereno, quase enigmático.

Era o tipo de sorriso que precede a revelação... ou o caos.

Tânia também se aproximou, o olhar faiscando em provocação.

— Isso mesmo — disse, em tom debochado. — Por acaso tem alguém aqui que já tenha te visto fazer um esboço?

O silêncio que se seguiu foi cortado por uma voz firme, vinda dentre os expectadores.

— Eu já vi.

Todos se voltaram, surpresos.

Entre os convidados, surgia Manoel, o gerente de produção do grupo Ferreira — um homem de semblante sereno, e que exalava confiança.

Renato ergueu as sobrancelhas, surpreso ao reconhecer o funcionário.

— Manoel? — chamou, curioso. — E quando foi isso?

O homem se aproximou com passos seguros e parou diante deles.

— A senhorita Helena... — fez uma pausa e olhou para ela, com um sorriso discreto. — Posso te chamar assim agora?

Helena assentiu, retribuindo o sorriso com ternura e respeito.

— Bem — prosseguiu ele, ajeitando os óculos —, a senhorita Helena sempre esteve presente nas etapas de produção dos protótipos. E, quando surgia algum problema que exigia ajustes, era ela quem redesenhava a peça ali mesmo no setor, na prancheta, sem precisar de rascunho, sem medir — como quem já sabia exatamente o que estava recriando.

Um murmúrio percorreu a sala.

Olhares se cruzaram, confusos, tentando reorganizar o que acreditavam saber.

Renato, intrigado, aproximou-se mais do funcionário.

— Mas ela poderia ter feito esses ajustes apenas por conhecer os projetos — observou, com voz calma e investigativa. — Não seria necessário ser a autora para compreender as plantas.

Manoel balançou a cabeça, convicto.

— Com todo respeito, doutor Renato, o senhor não está entendendo. — Fez uma pausa, a voz grave preenchendo o silêncio. — Eram ajustes que nem nossos engenheiros conseguiam resolver. Problemas de concepção, de estrutura, de equilíbrio... Só quem idealizou cada peça teria essa capacidade. Só quem imaginou o design desde o início entenderia o que estava errado e como corrigir.

Renato assentiu lentamente, em respeito.

Mas o restante do salão parecia imerso em incredulidade.

Alguns cochichavam entre si, outros apenas observavam Helena — agora sob uma luz diferente, quase reverente.

Renato se virou para Cássio, esperando uma explicação. Afinal, se aquilo fosse verdade, não só a imagem do Studio Cassiani seria prejudicada, como a do Grupo Ferreira também.

Mas, ao encará-lo, o que encontrou não foi resposta — foi culpa.

Nos olhos do amigo havia algo bem diferente daquela arrogância habitual.

Cássio sabia que estava cercado. E, pela primeira vez, parecia não saber como sair.

Viviane, impaciente, tentou romper o silêncio.

— Provavelmente esse homem está mentindo... ou talvez tenha sido subornado pra dizer isso. — Acusou, a voz aguda soando como um estalo no ar.

Manoel se voltou para ela, ofendido.

— Eu não preciso mentir, senhorita. — respondeu com dignidade. — Além de mim, qualquer funcionário do setor de produção pode confirmar o que acabei de dizer.

— Mas isso não prova nada — rebateu Carlos, ríspido, tentando sustentar o que já começava a ruir.

Esther cruzou os braços, o rosto carregado de desprezo.

— Tudo isso não passa de um golpe — disse, em tom venenoso. — Essa mulher só quer arrancar mais dinheiro do meu filho.

Lívia e os pais de Helena trocaram olhares duros, prontos para reagir.

Mas Helena, serena, ergueu uma das mãos, um gesto suave que bastou para detê-los. Não era preciso descer ao mesmo nível deles. A verdade falaria por si.

Ela se virou para uma das colaboradoras do evento, posicionada próximo ao telão.

Um leve movimento de cabeça bastou.

— Talvez isso seja prova o bastante — disse Helena, apontando para o telão.

As luzes se ajustaram, e o vídeo começou.

Na tela, Helena aparecia em seu escritório em casa, sentada diante de uma mesa de madeira coberta por papéis, esquadros e lápis de diferentes espessuras.

A imagem era serena, quase poética: o som do grafite riscando o papel, o olhar concentrado, a leveza dos gestos.

Era a imagem de alguém em plenitude criativa.

O salão inteiro silenciou.

Ninguém ousava se mover.

Até os que duvidavam sentiam, no íntimo, que aquilo não era encenação — era autenticidade.

Para Cássio, cada segundo do vídeo era uma punhalada.

Nem o sistema de segurança de casa o poupava agora.

— Ela pode muito bem ter montado essa cena só pra gravar — rebateu Silvia, forçando uma risada trêmula. — E provavelmente foi isso que fez.

— Exatamente. Isso não prova nada — reforçou Cássio, tentando recuperar o tom de autoridade.

Lívia, cansada da audácia dele, deu um passo à frente.

Em sua mão, um pequeno pendrive reluzia sob as luzes.

— Talvez esse vídeo, sozinho, não seja o bastante. — disse, com calma afiada. — Mas aqui dentro há mais de setecentas horas gravadas. Mostram Helena trabalhando, desenhando, revisando cada detalhe da coleção Prisma nos últimos seis meses. Desde a primeira linha até a finalização do projeto.

Ela ergueu o objeto para que todos vissem.

— Isso é prova suficiente pra vocês?

A frase caiu como um soco coletivo.

Os pais de Cássio se entreolharam, atônitos.

A incredulidade se transformava em decepção — e, por trás dela, culpa.

Tinham acreditado nas palavras do filho sem jamais questioná-lo.

Agora, tudo o que restava era o peso silencioso do arrependimento.

Viviane, porém, mantinha o queixo erguido, o olhar frio.

Não sentia culpa, apenas desprezo.

“E daí?”, pensava. “Se ela deixou ele levar o mérito, foi burrice dela.”

Silvia, por sua vez, era um enigma.

Lívia fechou a pasta com um estalo seco.

— Você tem setenta e duas horas para decidir. — disse com serenidade cruel. — Caso não aceite a proposta dentro desse prazo, iniciaremos as medidas judiciais cabíveis: Uma ação de abstenção imediata de uso, impedindo o Studio Cassiani de fabricar ou comercializar qualquer produto baseado nos designs da minha cliente; uma ação de busca e apreensão, autorizando-a a recolher todas as peças já produzidas; e, claro, uma ação de indenização, para compensar financeiramente os danos materiais e morais resultantes da violação de seus direitos.

Ela fez uma breve pausa, os olhos fixos nos dele.

— O que, certamente, resultaria em um valor muito superior à oferta que acabei de apresentar. E, naturalmente, sem contar o processo criminal.

Silvia arregalou os olhos, seu rosto espelhando a mesma expressão de pânico de Cássio.

— A empresa... vai ter que parar de fabricar os móveis? — perguntou, a voz trêmula.

Lívia virou-se para ela, impassível.

— Isso mesmo, mas como eu falei, essa é apenas uma das consequências. — respondeu, com calma letal.

Silvia, deu um passo para trás e, aproveitou o momento em que todos olhavam para Lívia para se afastar discretamente, o som de seus saltos se perdendo com o retorno do burburinho no salão.

O que ela não sabia era que alguém a observava com muito interesse acompanhando cada um dos seus passos.

Lívia, porém, ainda não havia terminado.

— Preciso também informar — continuou, num tom quase cortês — que já demos entrada em uma ação de nulidade judicial para anular o registro indevido dos projetos atribuídos ao Studio Cassiani, tanto na Justiça Federal quanto no INPI.

Fez uma breve pausa, respirou e concluiu, com um leve sorriso vitorioso:

— E é isso.

Não havia mais silêncio.

Não haviam mais murmúrios.

Não havia espaço para réplicas.

As palavras rápidas e coesas de Lívia foram como um touck down incontestável na reputação de Cássio.

Os comentários no salão vinham com uma ousadia ruidosa.

“Isso é inacreditável...”

“A gente nunca imagina a quantidade de sujeira alguém é capaz de esconder.”

“Tem que ser muito canalha para ser capaz de tudo isso.”

No chat, os comentários traziam uma pitada a mais de deboche.

“Essa advogada é um monumento, quero ela me defendendo até de multa de trânsito.”

“O Studio Cassiani virou Studio Caos mesmo.”

“É plot twist atrás de plot twist.”

“Eu acho é pouco... cabe mais.”

Em meio ao turbilhão de vozes, câmeras e flashes, Santiago permaneceu imóvel ao lado de Helena.

Os aplausos abafados, os cochichos e o som das teclas dos jornalistas pareciam vir de um mundo distante — um ruído indistinto que não o alcançava.

Ele via apenas ela.

Helena estava de pé, sob as luzes, firme como uma escultura que resistia ao tempo. Mesmo cercada por olhares, havia algo de profundamente calmo nela.

A sensação de finalmente estar livre.

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