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Quadros de um divórcio romance Capítulo 48

“É que às vezes, é preciso se perder para se reencontrar.” Camila Frutuoso

Em meio ao caos do salão, e do próprio caos interno, Cássio balançava a cabeça de um lado para o outro, os olhos fixos no chão, como quem tenta encontrar um ponto de fuga dentro do próprio abismo.

O olhar vazio subiu até Helena, buscando um ínfimo traço do amor que ela antes irradiava.

— Helena… esquece tudo isso. — disse, com a voz trêmula, implorante. — A gente ainda pode ser feliz… eu te perdoo. Podemos começar de novo.”

Ela não respondeu. Não piscou.

Apenas o olhou como quem contempla uma sombra que já não reconhece.

— Você não pode fazer isso… você me ama. — Insistiu ele, a voz se partindo no meio.

— Não, Cássio. Eu amava. — disse ela, firme, cada sílaba carregando o peso da cura. — Mas nem era você. Era alguém que eu pintei na minha imaginação e projetei em você. Eu amei uma versão sua que eu mesma criei. Se tivesse visto quem você realmente era, não teria desperdiçado mais de cinco anos da minha vida ao seu lado.

Cássio abriu a boca, mas nada saiu.

Helena continuou, com um brilho sereno no olhar — não de ódio, mas de libertação.

— Eu caí em mim. E foi o melhor tombo da minha vida.

Fez uma breve pausa, encarando-o de frente.

— E você, Cássio? Algum dia chegou a me amar… ou tudo foi uma mentira desde o início?

— Eu amei! — gaguejou. — Eu amo você!

Ela soltou uma risada curta, amarga.

— Hoje, livre da imaturidade e curada das suas promessas, eu consigo ver com clareza. Você nunca me amou. É incapaz de amar alguém além de si mesmo.

— Não diga isso! Eu fiz tudo por você… fiz por nós! — gritou, em desespero.

Helena o observou com pena — não a pena de quem ainda sente, mas de quem enxerga o vazio no outro.

— Olhe pra você… perdido dentro das próprias mentiras. O que você fez por mim, Cássio? — Todas as vezes em que permitiu que eu virasse alvo de chacota de seus amigos e da sua família, apenas para manter a sua moral intacta, foi por mim? — Me pintar como uma mulher fria, fútil e interesseira até para os seus pais, só pra esconder os seus pecados, foi por mim? — Pegar os créditos pelo meu trabalho, por toda minha dedicação e esforço durante todos esses anos, foi por mim? — Todas as vezes em que foi o primeiro a me lançar na fogueira e me ver queimar tal qual em Salém, foi por mim? — Foi por mim as vezes em que me agrediu?

Ela respirou fundo, tentando recuperar o folego.

— Engravidou sua amante, e ainda tem coragem de dizer que fez isso por mim?

O coração de Cássio se encolheu para o tamanho de uma ervilha.

Helena arrancara, um por um, os véus que o protegiam da verdade.

Sentia-se nu, despido da própria grandeza.

— Quando foi que você deixou de me amar? — sussurrou, quase sem voz. — Quando eu te perdi?

Ela demorou para responder. O silêncio que antecedeu suas palavras foi mais doloroso do que qualquer resposta.

— Quando parei de romantizar migalhas. — disse por fim. — Quando a tua ausência parou de doer e virou alívio. Quando percebi que gostava mais da mulher que eu era antes de te conhecer.

A cada palavra, Helena se sentia mais leve, como se cada uma fosse uma camada de tinta cobrindo, suavemente, o passado.

Cássio tentou buscar apoio em volta, os olhos arregalados.

— Você não é assim... — disse, apontando em direção a Lívia, Santiago e aos pais de Helena. — Estão te influenciando. Essa sua amiga amarga, seus pais que nunca gostaram de mim, e esse sujeito que fica te olhando feito um cão! São eles, você não vê? Eles te envenenaram contra mim!

Helena balançou a cabeça, decepcionada.

— Uma pessoa arrogante sempre vai achar que te conhece melhor do que você mesma. — disse, com voz calma. — Eu era cheia de sonhos, mas te deixei me manipular porque te amava. Eu me doei, me anulei, eu me apaguei por você. Ser a mesma de antes, seria um insulto depois de tudo que passei. Ninguém precisa ser besta a vida inteira.

Cássio percebeu que havia perdido o domínio.

Que não conseguia mais dobrá-la.

E, no lugar do desespero, veio a fúria.

Capítulo 48 - O quadro da liberdade 1

Capítulo 48 - O quadro da liberdade 2

Capítulo 48 - O quadro da liberdade 3

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