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Quadros de um divórcio romance Capítulo 49

“Arrepender-se é pegar um atalho errado e ir longe demais para voltar atrás.” Edna Frigato

Sob os olhares atentos do salão, Rogério e Consuelo caminharam até Helena.

O pai passou um braço firme por seus ombros, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro, enquanto do outro lado, a mãe entrelaçava seus dedos aos dela com carinho silencioso.

Atrás deles, vinham Lívia, Ricci e Windsor — como uma retaguarda inabalável.

À frente, abrindo o caminho, estava Santiago, o olhar atento, o corpo em alerta.

Cássio observava a cena com um aperto no peito. Ele, que sempre a viu sozinha — como se ele fosse a única pessoa em seu mundo — agora a via cercada de afeto, acolhida, amparada por todos os lados.

E ali, mesmo rodeado pelos pais, amigos e funcionários, sentiu-se mais só do que jamais imaginara. A certeza de que Helena não faria mais parte de sua vida era como um abismo se abrindo sob seus pés.

Ao redor, convidados começavam a se dispersar. Taças eram abandonadas nas mesas, vestidos reluziam indo em direção às saídas, com olhares que recaíam sobre Cássio em um julgamento silencioso.

A noite terminara, e com ela, sua reputação.

Foi então que os repórteres avançaram, como tubarões atraídos pelo sangue na água. Microfones se ergueram, flashes explodiam:

— Senhor Amaral, confirma as acusações da sua ex-esposa?

— O senhor agrediu Helena Duarte?

— Vai deixar a direção do Studio Cassiani?

— O divórcio é legítimo? O vídeo com a amante é real?

As perguntas se atropelavam. Mas Cássio mal as ouvia. Tudo era ruído. Os flashes o cegavam, o som se transformava num zumbido que preenchia sua cabeça. Não havia ar.

Silvia surgiu ao seu lado, pousando a mão em seu braço como se aquilo pudesse sustentá-lo.

— Ele não vai responder agora — anunciou aos repórteres, firme.

E voltando-se para Cássio, sussurrou: — Vem. Vou te tirar daqui.

Silenciosamente, eles atravessaram o salão pelos fundos. Esther, Carlos, Viviane, Renato e Tânia os seguiram. Todos queriam sair dali — ou fugir.

No estacionamento privativo, o ar frio da noite bateu no rosto de Cássio, mas não o despertou de seu transe.

— Filho… — a voz de Esther quebrou, embargada. — Por favor, me diga que nada disso é verdade.

Ele não respondeu. Não conseguiu. Apenas ficou parado, os braços soltos ao lado do corpo, o olhar opaco como vidro embaçado.

— Esther, vamos — disse Carlos, com firmeza discreta. — Podemos ter essa conversa outra hora.

— Isso tudo é culpa daquela desgraçada da Helena! — explodiu Viviane, incapaz de lidar com o caos de outra forma.

— Chega, Viviane — repreendeu o pai. — Nada do que dissermos agora vai mudar o que aconteceu.

Ele pousou uma mão trêmula no ombro do filho. — Cuide-se. Conversamos depois.

E então, eles partiram.

Tânia olhou para Cássio em silêncio. Havia reprovação, decepção… e talvez pena.

— Eu te espero no carro, Renato — disse, puxando Silvia consigo.

Restaram apenas Cássio e Renato.

— Eu ainda não consigo entender — murmurou Renato. — Você…

— Eu a perdi. — A confissão saiu quase sem voz.

Renato respirou fundo, a frustração e a amizade se misturando no olhar.

— Não é difícil perder pessoas incríveis quando a gente toma atitudes de merda. — Foi a primeira vez que o amigo deixou a verdade sair sem filtro. — Eu nunca entendi por que você começou a afastá-la. Vocês eram… perfeitos no início.

— Eu fiz tudo errado — admitiu Cássio, num fio de voz.

— E como você vai resolver tudo isso agora?

— Eu não sei. — Ele respirou fundo. — Eu preciso ir pra casa. Tentar falar com ela… com calma, sem esse circo. Você leva a Silvia?

— Levo. Boa sorte, meu irmão. Você vai precisar.

Renato se afastou. Silvia, ao vê-lo aproximar-se do carro, se recusou:

— Eu vou ficar com o Cássio. Não posso deixa-lo sozinho agora.

— Ele precisa de um tempo. — respondeu Renato, sem hesitar.

Silvia entrou no carro, contrariada. Assim que se acomodou, Tânia a encarou.

— Você sumiu um bom tempo lá dentro. Onde estava?

Silvia engoliu em seco.

— Eu… fui ao banheiro. Não estava me sentindo bem. — Pousou a mão no ventre, usando a gravidez como escudo.

O carro partiu. Cássio ficou parado, observando as luzes se afastarem.

— Senhor? — chamou o motorista, próximo.

Só então ele piscou, voltando à realidade.

— Para onde, senhor?

Cássio respirou fundo, derrotado.

— Pra casa.

O carro estacionou diante da casa. Cássio não se moveu por alguns segundos — apenas observou pela janela o contorno escuro da fachada. Nenhuma luz acesa. Nenhuma sombra atrás das cortinas.

— Pode ir — disse ao motorista, a voz áspera de cansaço.

Sozinho, caminhou até a porta e quando a abriu foi recebido pelo breu. O silêncio parecia mais alto do que qualquer grito daquela noite.

Tateou a parede até encontrar o interruptor. As luzes se acenderam… e por um segundo, ele achou que estava no lugar errado. A sala parecia estranha, vazia. Como se alguém tivesse apagado a alma da casa, mas deixado as paredes.

Os porta-retratos não estavam mais sobre o aparador, nem sobre a lareira. As paredes, antes repletas de fotografias dos dois, agora estavam nuas.

A casa parecia maior. E mais fria. Sem cor. Sem vida. Sem ela.

Cássio sentiu o estômago afundar. Ali dentro não havia apenas ausência — havia abandono. Era como se Helena tivesse extraído cada traço de si mesma daquele lugar.

Deu alguns passos, quase cambaleando. E então viu.

No lixo, ao lado da bancada, o buquê de jacintos azuis. Murchos. Amassados ainda dentro do papel de presente.

Ele engoliu seco.

Agora conseguia ver com clareza o ridículo do gesto. Flores… flores depois de anos de silêncio, de traições, de mentiras. Parecia uma desculpa escrita a lápis — e ela havia apagado.

— Helena! — gritou.

Nenhuma resposta.

— Helena! — outra vez.

Só o eco, devolvendo seu desespero.

Capítulo 49 - Entre cinzas e tinta 1

Capítulo 49 - Entre cinzas e tinta 2

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