“Arrepender-se é pegar um atalho errado e ir longe demais para voltar atrás.” Edna Frigato
Sob os olhares atentos do salão, Rogério e Consuelo caminharam até Helena.
O pai passou um braço firme por seus ombros, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro, enquanto do outro lado, a mãe entrelaçava seus dedos aos dela com carinho silencioso.
Atrás deles, vinham Lívia, Ricci e Windsor — como uma retaguarda inabalável.
À frente, abrindo o caminho, estava Santiago, o olhar atento, o corpo em alerta.
Cássio observava a cena com um aperto no peito. Ele, que sempre a viu sozinha — como se ele fosse a única pessoa em seu mundo — agora a via cercada de afeto, acolhida, amparada por todos os lados.
E ali, mesmo rodeado pelos pais, amigos e funcionários, sentiu-se mais só do que jamais imaginara. A certeza de que Helena não faria mais parte de sua vida era como um abismo se abrindo sob seus pés.
Ao redor, convidados começavam a se dispersar. Taças eram abandonadas nas mesas, vestidos reluziam indo em direção às saídas, com olhares que recaíam sobre Cássio em um julgamento silencioso.
A noite terminara, e com ela, sua reputação.
Foi então que os repórteres avançaram, como tubarões atraídos pelo sangue na água. Microfones se ergueram, flashes explodiam:
— Senhor Amaral, confirma as acusações da sua ex-esposa?
— O senhor agrediu Helena Duarte?
— Vai deixar a direção do Studio Cassiani?
— O divórcio é legítimo? O vídeo com a amante é real?
As perguntas se atropelavam. Mas Cássio mal as ouvia. Tudo era ruído. Os flashes o cegavam, o som se transformava num zumbido que preenchia sua cabeça. Não havia ar.
Silvia surgiu ao seu lado, pousando a mão em seu braço como se aquilo pudesse sustentá-lo.
— Ele não vai responder agora — anunciou aos repórteres, firme.
E voltando-se para Cássio, sussurrou: — Vem. Vou te tirar daqui.
Silenciosamente, eles atravessaram o salão pelos fundos. Esther, Carlos, Viviane, Renato e Tânia os seguiram. Todos queriam sair dali — ou fugir.
No estacionamento privativo, o ar frio da noite bateu no rosto de Cássio, mas não o despertou de seu transe.
— Filho… — a voz de Esther quebrou, embargada. — Por favor, me diga que nada disso é verdade.
Ele não respondeu. Não conseguiu. Apenas ficou parado, os braços soltos ao lado do corpo, o olhar opaco como vidro embaçado.
— Esther, vamos — disse Carlos, com firmeza discreta. — Podemos ter essa conversa outra hora.
— Isso tudo é culpa daquela desgraçada da Helena! — explodiu Viviane, incapaz de lidar com o caos de outra forma.
— Chega, Viviane — repreendeu o pai. — Nada do que dissermos agora vai mudar o que aconteceu.
Ele pousou uma mão trêmula no ombro do filho. — Cuide-se. Conversamos depois.
E então, eles partiram.
Tânia olhou para Cássio em silêncio. Havia reprovação, decepção… e talvez pena.
— Eu te espero no carro, Renato — disse, puxando Silvia consigo.
Restaram apenas Cássio e Renato.
— Eu ainda não consigo entender — murmurou Renato. — Você…
— Eu a perdi. — A confissão saiu quase sem voz.
Renato respirou fundo, a frustração e a amizade se misturando no olhar.
— Não é difícil perder pessoas incríveis quando a gente toma atitudes de merda. — Foi a primeira vez que o amigo deixou a verdade sair sem filtro. — Eu nunca entendi por que você começou a afastá-la. Vocês eram… perfeitos no início.
— Eu fiz tudo errado — admitiu Cássio, num fio de voz.
— E como você vai resolver tudo isso agora?
— Eu não sei. — Ele respirou fundo. — Eu preciso ir pra casa. Tentar falar com ela… com calma, sem esse circo. Você leva a Silvia?
— Levo. Boa sorte, meu irmão. Você vai precisar.
Renato se afastou. Silvia, ao vê-lo aproximar-se do carro, se recusou:
— Eu vou ficar com o Cássio. Não posso deixa-lo sozinho agora.
— Ele precisa de um tempo. — respondeu Renato, sem hesitar.
Silvia entrou no carro, contrariada. Assim que se acomodou, Tânia a encarou.
— Você sumiu um bom tempo lá dentro. Onde estava?
Silvia engoliu em seco.
— Eu… fui ao banheiro. Não estava me sentindo bem. — Pousou a mão no ventre, usando a gravidez como escudo.
O carro partiu. Cássio ficou parado, observando as luzes se afastarem.
— Senhor? — chamou o motorista, próximo.
Só então ele piscou, voltando à realidade.
— Para onde, senhor?
Cássio respirou fundo, derrotado.
— Pra casa.
O carro estacionou diante da casa. Cássio não se moveu por alguns segundos — apenas observou pela janela o contorno escuro da fachada. Nenhuma luz acesa. Nenhuma sombra atrás das cortinas.
— Pode ir — disse ao motorista, a voz áspera de cansaço.
Sozinho, caminhou até a porta e quando a abriu foi recebido pelo breu. O silêncio parecia mais alto do que qualquer grito daquela noite.
Tateou a parede até encontrar o interruptor. As luzes se acenderam… e por um segundo, ele achou que estava no lugar errado. A sala parecia estranha, vazia. Como se alguém tivesse apagado a alma da casa, mas deixado as paredes.
Os porta-retratos não estavam mais sobre o aparador, nem sobre a lareira. As paredes, antes repletas de fotografias dos dois, agora estavam nuas.
A casa parecia maior. E mais fria. Sem cor. Sem vida. Sem ela.
Cássio sentiu o estômago afundar. Ali dentro não havia apenas ausência — havia abandono. Era como se Helena tivesse extraído cada traço de si mesma daquele lugar.
Deu alguns passos, quase cambaleando. E então viu.
No lixo, ao lado da bancada, o buquê de jacintos azuis. Murchos. Amassados ainda dentro do papel de presente.
Ele engoliu seco.
Agora conseguia ver com clareza o ridículo do gesto. Flores… flores depois de anos de silêncio, de traições, de mentiras. Parecia uma desculpa escrita a lápis — e ela havia apagado.
— Helena! — gritou.
Nenhuma resposta.
— Helena! — outra vez.
Só o eco, devolvendo seu desespero.


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