“Todo afeto começa como arte: primeiro o traço, depois a coragem de dar cor.” Autor desconhecido
Quando alcançaram as portas de vidro do salão, prontos para sair, Helena parou.
Respirou fundo, como se só então percebesse algo óbvio.
— Eu… não pensei em como iria embora — disse, quase em um sussurro.
Lívia parou ao lado dela, franzindo o cenho.
— Eu também vim sem meu carro — murmurou, analisando mentalmente alternativas.
Santiago, que as observava de perto, quebrou o silêncio:
— Eu levo vocês. O manobrista já trouxe meu carro, está aqui na frente.
Helena assentiu em agradecimento, mas não se moveu de imediato. Virou-se para os pais, os olhos suavizando.
— Eu queria que já estivesse tudo pronto em casa para receber vocês… — confessou, com um sorriso tímido.
Rogério acariciou o rosto da filha com carinho sereno.
— Não se preocupe com isso. Estamos hospedados aqui no hotel, assim como seu padrinho e seu tio — disse, referindo-se a Ricci e Windsor.
Consuelo completou com doçura:
— Amanhã vamos até sua casa, e eu te ajudo a terminar de arrumar tudo.
Helena quase sorriu feliz.
— Promete? — perguntou, como uma criança buscando abrigo.
— Prometo — respondeu a mãe com firmeza. — E levo café da manhã… e preparo o almoço.
— Você não imagina como eu sinto falta da sua comida… — disse, abraçando a mãe com força e saudade.
Ela se despediu então do pai, de Ricci e de Windsor. Os abraços foram apertados, cheios de afeto e promessas.
— Amanhã — garantiu Windsor, sorrindo.
— Amanhã, bambina — confirmou Ricci, piscando com carinho.
Helena respirou fundo mais uma vez, guardando aquele instante no peito… e seguiu com Lívia e Santiago para fora.
Ao atravessar as portas, Helena sentiu o ar frio da madrugada, mas não teve tempo de respirar. Um mar de flashes explodiu diante dela. Repórteres e fotógrafos se aglomeravam, empurrando microfones e câmeras para o lado de dentro da faixa de contenção.
— Helena, uma palavra, por favor!
— Há quanto tempo sabia da traição?
— Por que nunca revelou que era a autora das coleções do Studio Cassiani?
— Você pretende processá-lo?
As perguntas vinham sem pausa. Uma cachoeira capaz de afogar.
Santiago, segurando sua mão, foi na frente, abrindo caminho com o corpo. O maxilar tenso, ignorando os ombros que esbarravam nele.
Ele abriu a porta traseira do carro permitindo que Helena e Lívia entrassem. Deu a volta e entrou apressado. Do lado de fora, flashes ainda piscavam como pequenos relâmpagos, e ele precisou avançar devagar, contornando com paciência os repórteres que insistiam em se aproximar.
O carro se afastou do hotel, e por alguns minutos ninguém falou.
— Ufa! Pensei que não conseguiríamos sair. — disse Lívia, soltando o ar como quem finalmente relaxa depois de segurar a respiração.
— Eu não imaginei que as pessoas ficariam tão... alvoroçadas. — Murmurou Helena, ainda um pouco surpresa.
— Ora, e você esperava o quê? — Lívia riu. — Você simplesmente deu um show lá dentro.
— Ah, para... — Helena desviou o olhar, envergonhada. — Mal consegui disfarçar o quanto estava nervosa.
— Se estava, escondeu muito bem. — disse a amiga, puxando-a para um abraço apertado. — Tudo o que eu vi foi uma mulher forte e corajosa. Você arrasou, Lena. Eu estou tão orgulhosa de você.
Pelo retrovisor, Santiago lançou um olhar rápido — sereno, admirado.
— Ela tem razão. — disse, com simplicidade.
Por um instante, o silêncio no carro pareceu diferente — não mais pesado, mas leve, quase confortável.
— Então... pra onde vamos agora? — perguntou ele, quebrando a tensão.
— Quer que eu fique com você hoje? — ofereceu Lívia, preocupada.
— Não precisa. — Helena sorriu de leve. — Eu sei que você tem cliente cedo amanhã.
Helena caiu na risada.
— Tá tudo bem! Eu também estou morrendo de fome. Não como nada desde o almoço.
O carro estacionou em frente à casa dela. Por um instante, nenhum dos dois se mexeu.
— Você... quer entrar? — perguntou ela, meio tímida. — Posso preparar alguma coisa pra gente comer.
— Tem certeza? Não quero te incomodar.
— Absoluta. — Ela confirmou. — E não é só por você... eu realmente preciso comer alguma coisa.
Eles desceram. Santiago observou o bairro por um segundo, as luzes amenas, o silêncio confortável.
— Você escolheu bem. — disse.
— Também acho. — Helena sorriu, abrindo a porta de casa. — Só... não repara na bagunça. Me mudei faz poucos dias.
— Parece um começo. — disse Santiago, entrando com cuidado, como se respeitasse aquele espaço.
Ao cruzar a porta, Santiago deixou o olhar percorrer todo o ambiente. Havia algo acolhedor naquele vazio — a cozinha integrada ao fundo, a luz baixa vinda apenas de algumas luminárias e a sala quase sem móveis. Quase.
Porque em um dos cantos, reinava um único ponto de cor e vida.
Um cavalete.
Uma luminária direcionada sobre ele lançava um círculo de luz amarela no chão, iluminando também pincéis, tubos de tinta e panos manchados. Era uma bagunça delicada. Uma bagunça de criação.
A tela sobre o cavalete capturou os olhos dele como se o chamasse.
— Posso? — perguntou, indicando o quadro com um gesto discreto.
Helena hesitou por meio segundo, como quem abre uma porta secreta de si mesma, mas assentiu.
Ele se aproximou devagar.
O som dos próprios passos no piso pareceu mais alto do que deveria. Parou diante da tela. Respirou. E ficou em silêncio.
Ele não se aproximou mais. Era como se um passo adiante fosse profanar algo. A garganta apertou. Santiago engoliu seco — duas vezes — sem sequer notar. Havia um ardor nos olhos, não de lágrimas, mas de um espanto reverente. Fascínio.
A pintura era tão silenciosa que ele quase ouviu o coração do cervo pulsando. Um nó se formou em sua garganta. Não era apenas um cervo. Era Helena.

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