“Antes de se tornar forma, o sentimento é apenas linha — traço tímido entre o desejo e o medo.” Autor desconhecido.
Quando Santiago falou, a voz quase não saiu.
— Helena… — foi só o que conseguiu dizer. O resto ficou preso entre o peito e a alma.
Ela entrelaçou os dedos, levemente tensa. A opinião dele importava mais do que deveria — não só por ele ser um dos melhores avaliadores de arte que já conheceu, mas por um motivo que ela ainda não sabia nomear.
— Você pintou isso… recentemente? — ele perguntou por fim, a voz baixa, mas já imaginando a resposta.
A imagem do carro se aproximando dela — e do medo que a congelou — atravessou-lhe a lembrança. Mas sabia que a pintura ia além daquilo. Não era só sobre o quase-acidente… era sobre todas as vezes que ela se silenciou e se deixou apagar por causa do medo. Talvez fosse a justificativa para aquela mulher, tão incrível, ter desperdiçado mais de 5 anos ao lado daquele canalha.
— No dia em que você me salvou. — respondeu ela baixinho.
Ele assentiu, ainda hipnotizado pela tela.
Helena hesitou, mordendo o lábio com uma insegurança que raras vezes mostrava.
— Você pode ser sincero… não ficou tão bom, não é? Faz muito tempo que eu não pinto…
— Você só pode estar brincando. — Ele disse, virando-se para ela. — Eu te disse naquele dia... há algo de único na sua forma de pintar. Você não só pinta, você transborda pela tela.
Ela baixou os olhos, tímida com o elogio.
Santiago sorriu, suave.
— Espero que esse seja o primeiro quadro da sua exposição. Aquela que você me prometeu.
Helena ergueu o olhar, surpresa, quase sorrindo.
— Bem… se você estiver disposto a apoiar uma iniciante como eu…
Santiago soltou um suspiro lento, como quem retorna ao próprio corpo depois de ficar tempo demais dentro dos próprios pensamentos. Deu um passo. Depois outro. Seus sapatos tocaram o chão com cuidado, como se não quisesse assustar ou a mulher à sua frente.
Helena permaneceu parada, mas o ritmo acelerado do coração entregava tudo que o corpo tentava esconder. A luz suave da luminária recortava seus traços, e neles havia algo tão frágil e bonito ao mesmo tempo, que era impossível desviar o olhar.
— Sabe o que mais me impressiona? — ele disse, parando na frente dela, tão perto que ela pôde sentir o calor discreto de sua presença. — Você pintou medo, mas o que mais transparece… é coragem.
Helena soltou o ar devagar, como se só então se lembrasse de respirar.
— Eu… — ela abriu a boca, fechou, e tentou de novo. — Acho que pintar é a única forma que encontrei de… desfazer os sentimentos quando eles ficam grandes demais.
Ele continuou olhando para ela. Por um instante, desejou apenas se aproximar ainda mais, puxá-la pela cintura e calar tudo com um beijo. Sentia que havia um anjinho levado em um dos ombros que o incentivava “Vai lá cara, beija ela logo!”, e um bom no outro ombro que recriminava “Vai com calma, você não quer assustá-la!”
No fim, venceu o bom senso.
Ele sorriu e quebrou o encanto com leveza:
— E… o que a gente vai comer?
Helena piscou, saindo do próprio transe. As bochechas ganharam cor.
— Ah… bom… deixa eu ver o que tenho.
Ela se virou rápido e caminhou para a cozinha. Santiago a seguiu, num ritmo calmo, respeitando o espaço dela.
Helena abriu a geladeira, pensativa.
— Tenho tomates, queijo de búfala… e comprei baguetes hoje cedo. Não é nada elaborado, mas… se você não se importar com brusquetas…
— Parece perfeito — ele respondeu com um sorriso tranquilo.
Ela colocou os ingredientes sobre a bancada: pão, tomates, queijo, alho, azeite. Pegou uma tábua e uma faca. Santiago observava cada movimento com atenção quase silenciosa.
— Quer ajuda? — perguntou, já tirando o paletó.
— Ah, não precisa…
— Vai me deixar só olhando? — ele sorriu, dobrando as mangas da camisa. — Me deixa ajudar.
Helena, que já lavava os tomates, suspirou, rindo de leve, e cedeu.
— Certo… então pode pegar manjericão no quintal. Lá fora, na segunda jardineira.
— Missão aceita! — respondeu com humor.
Ele saiu, e quando voltou, trazia as folhas entre os dedos, o cheiro fresco de ervas misturado ao perfume dela.
Helena já cortava o pão em fatias grossas.
— Você tem um belo quintal — comentou ele, enquanto lavava as folhas.
— Tive sorte de encontrar esse lugar — disse, sincera.
Trabalhavam lado a lado em silêncio confortável — ela dourando o pão na frigideira com azeite, ele lavando as folhas de manjericão.
— E agora? — perguntou ele, animado. — Qual é minha próxima missão?
— Sabe cortar tomates?
— Por favor, me respeita — disse, em tom brincalhão. — Mestre dos tomates, prazer.
Ela riu, abrindo um sorriso leve — talvez o mais sincero da noite.
— Que tal uma música? — sugeriu ele.
— Seria bom… mas ainda não comprei nenhum aparelho de som.
— O celular resolve.
Ele colocou uma playlist qualquer. A música Beautiful Things, de Benson Boone, começou a tocar. E, por algum motivo, ela se encaixava ao que ele sentia.
Helena virou as fatias douradas no refratário e desligou o fogão. Santiago começou a cortar os tomates com precisão surpreendente.
— Você gosta mesmo de comida italiana, hein? Primeiro risoto, agora bruschetta…
— Culpa do meu padrinho — ela riu.
— Lorenzo Ricci?
— O próprio! — O tom na voz dela se torna mais amável. — Todos os anos eu dividia minhas férias, parte com ele e parte com tio James. Não que comida americana não tenha seu charme... afinal quem dispensária um hamburguer suculento e um bom frango frito? Mas eu e Lorenzo sempre tivemos um vínculo maior, talvez o fato de sermos afilhada e padrinho seja um dos motivos, mas o principal é que compartilhamos o mesmo amor pela comida.
— Vida chata — brincou ele.
— Terrível — ela respondeu com sarcasmo suave.
Os dois riram.
— E agora, o que eu faço?
— Se quiser pode esfregar um dente de alho nas fatias douradas.
A música mudou para Thinking Out Loud, de Ed Sheeran, mas ninguém comentou. O ambiente estava aquecido — pelo forno, pelo azeite quente, pela conversa… e por algo silencioso entre os dois.
— Você parece gostar muito deles...
— Eu os amo. Eles eram amigos de meus avós. Quando meu avô morreu, eles continuaram presentes na vida de minha avó. — Ela se perdeu entre as lembranças. — E mesmo quando minha avó se foi, eles continuaram tratando meus pais como filhos.
Ela falava e ia misturando tomate picado, folhas de manjericão, azeite, sal e pimenta num bowl.
— Parecem ser bons homens.
— E são! — afirmou sorrindo.
— E depois… parou de vê-los? — perguntou Santiago com cuidado.
Ela hesitou, mas respondeu com honestidade:

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