"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Clarice Lispector
Santiago inclinou-se um pouco mais — devagar, dando tempo para que ela recusasse, se quisesse.
Helena não recuou.
Talvez tenha sido o vinho… talvez a noite… ou talvez o simples fato de sentir-se livre para fazer suas próprias escolhas. E naquele momento, ela o escolheu.
A música Lose control na voz de Teddy Swims, tocava no celular que ele nem se lembrara de pegar na cozinha.
Os olhos dela baixaram por um segundo para a boca dele — e isso bastou.
Santiago sorriu de leve, quase imperceptível, como quem recebe uma permissão silenciosa.
Então, finalmente, a distância desapareceu.
Os lábios dele tocaram os dela devagar — não com pressa, mas com cuidado, como quem encosta pela primeira vez em algo precioso.
Por um instante, Santiago esqueceu completamente como se respirava. O sabor dela se espalhou devagar — suave, com um leve toque de vinho branco e algo delicadamente doce. Era diferente de qualquer coisa que já tinha provado.
Foi um beijo leve, quase um sussurro. Um toque que poderia ter terminado ali…, mas não terminou.
Helena respirou fundo contra a boca dele, e seus dedos, antes escondidos atrás do corpo, tocaram o peito dele, hesitantes… depois firmes. Sentiu seu coração acelerado sob a camisa.
A mão em seu rosto deslizou até a nuca dela, puxando-a suavemente para mais perto. O beijo deixou de ser só um toque e se tornou entrega — não urgente, mas sentida. Sua outra mão deixou o paletó que segurava cair e repousou nas costas dela, encontrando ali o lugar exato entre proteção e desejo.
Os lábios dela eram macios, mas havia um nervosismo sutil, perceptível na forma como ela respirava contra a boca dele. Santiago sorveu aquele momento com a calma de quem quer guardar na memória cada detalhe: o perfume leve de flores e frutas que vinha dos cabelos dela, o som quase imperceptível de um suspiro, e o jeito como ela se aproximava mais… como quem escolhe ficar. A mão que antes repousava imóvel agora se agarrava levemente à lapela de sua camisa. Era um gesto quase imperceptível, mas que o incendiou por dentro.
Helena não sabia que um beijo podia ter temperatura. Mas aquele tinha. Santiago era quente — o peito firme contra o dela, a palma da mão atrás de seu pescoço, espalhando calor por toda a coluna até as pernas. Ela sentiu a pele arrepiar, mesmo onde ele nem estava tocando.
O gosto dele era inesperadamente reconfortante. Tinha resquício do vinho, mas não era só isso — tinha um pouco de hortelã, talvez do manjericão que cortaram juntos, e algo que ela só conseguiu identificar depois: tranquilidade. Era um gosto que não pedia nada. Que não exigia. Que simplesmente estava ali, oferecendo lugar para ela descansar.
E foi aí que percebeu que não estava com medo. Havia nervosismo, sim, o coração batendo rápido demais, mas não medo. O toque dele era firme, mas gentil. O beijo, intenso, mas não impaciente. Helena se permitiu chegar um pouco mais perto. Seu corpo respondeu antes da mente — o estômago apertando, o peito leve… e aquela sensação quente que nascia baixo no ventre e se espalhava como fogo calmo.
Quando se afastaram, apenas alguns milímetros, ainda compartilhavam a mesma respiração.
Ela abriu os olhos devagar. Eles ainda estavam tão próximos que podia contar os fios da barba dele.
— Desculpa… — ele sussurrou, a voz baixa, rouca, mas com um sorriso no canto da boca. — Eu prometi que não ia te assustar.
Helena o olhou por um segundo. Depois, com a delicadeza de quem dá a resposta certa, apenas murmurou:
— Você não me assustou.
Ele soltou o ar como quem só então percebeu que estava prendendo. E se permitiu sorrir — de verdade.
— Se eu ficar mais um segundo… — ele disse, ainda perto demais, brincando com os próprios limites — eu não vou conseguir ir embora.
Helena não soube se o coração disparou por ansiedade, por desejo, ou pelos dois.


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