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Quadros de um divórcio romance Capítulo 53

"Nenhum homem suporta ficar diante de sua própria verdade sem tremer" Albert Camus

Na manhã seguinte, Renato já estava há horas no Studio, esperando por Cássio. Mandara mensagens, tentara ligar incontáveis vezes, mas todas as chamadas caíam direto na caixa postal.

Andou de um lado para o outro, mãos na cintura, coração inquieto.

Algo estava errado.

Por fim, não suportou mais esperar. Pegou as chaves do carro e dirigiu até a casa do amigo.

O dedo tocou o interfone repetidas vezes, impaciente. Nada.

Mas o carro dele estava na garagem. A luz da sala acesa.

Renato franziu o cenho, revirou a carteira e encontrou o cartão de acesso da casa. Passou pelo leitor e empurrou a porta. O cheiro pungente de álcool o atingiu como um soco.

Olhou a volta, encontrou-o deitado no tapete aos pés de um cavalete. Garrafas de uísque vazias espalhadas no chão — uma delas caída, formando uma poça escura que se infiltrava pelas fibras do tecido.

Do quadro à frente, uma mulher, dentre o fogo, parecia observá-lo com julgamento silencioso.

— Puta merda, Cássio! — Renato se agachou ao lado do amigo, sacudindo-o pelos ombros. — Ei! Acorda, cara! Vamos!

Cássio abriu os olhos só por um instante, murmurando algo sem sentido antes de desabar outra vez.

Renato bufou, passou a mão pelo cabelo, respirando fundo.

— Você vai me matar ainda, seu idiota… — resmungou, mas a voz saiu mais triste do que irritada.

Com esforço, o ergueu, passando o braço de Cássio por cima de seus ombros. As pernas dele quase não se sustentavam. Subiram as escadas com dificuldade — cada degrau parecia o dobro do tamanho — até o quarto.

Renato o levou direto ao banheiro e o sentou no chão. Abriu o box, ligou o chuveiro no frio e, sem cerimônia, arrastou o amigo para debaixo da água de roupa e tudo.

— Acorda, porra! — disse entre dentes, encharcado junto com ele.

Cássio deu um sobressalto com o choque da água gelada, tossindo, tentando recuar.

— Que… que merda é essa?! — resmungou, com a voz rouca, os olhos vermelhos e perdidos.

— A merda é você! — Renato rebateu, coração apertado, mas firme. — Olha pra você, cara! Isso é o que você virou?

Cássio apoiou as costas na parede fria do box, o cabelo colado na testa, respiração descompassada. Os olhos marejados.

— Eu… a perdi. — murmurou, quase num soluço.

Renato fechou os olhos por um segundo, respirou fundo, e respondeu baixo:

— Eu sei, eu sei...

Ele fechou o registro do chuveiro e ficou ali, respirando com dificuldade, as roupas encharcadas e a paciência por um fio.

— Olha pra mim — exigiu.

Cássio manteve o olhar baixo, os dentes batendo por causa da água fria e do vazio no peito.

Renato se ajoelhou à frente dele, apoiando as mãos nas próprias pernas, a voz firme, mas sem crueldade.

— Você quer beber até morrer? Quer que a próxima notícia seja “empresário é encontrado morto em casa”? — perguntou, sem elevar o tom. — Porque, do jeito que está, é isso que vai acontecer.

Cássio passou a mão no rosto molhado — não dava pra saber onde terminava a água do chuveiro e começavam as lágrimas. A voz saiu trêmula:

— Eu estraguei tudo. Eu a perdi, Renato. Eu… eu a fiz ir embora.

— Sim — Renato respondeu, sem suavizar a verdade. — Você feriu a mulher que te amava, traiu a confiança dela, ignorou todos os sinais… e ela finalmente foi embora. Parabéns. — Fez uma pausa. — Mas agora você tem duas escolhas: afundar de vez… ou levantar.

Cássio apertou os olhos, como se a dor física fosse menos pior que a que carregava.

— Não adianta mais — murmurou. — Ela não quer me ver. Me bloqueou de tudo. Nem leu minhas mensagens… nem se importou em levar nada daqui. Só… foi embora.

Renato inspirou fundo, tentando manter a calma.

— Você a quer de volta?

Cássio levantou a cabeça devagar. Seus olhos vermelhos pareciam os de alguém que estava tentando entender como respirar.

— Eu daria tudo pra ter outra chance… — murmurou.

— Então para de se destruir — retrucou Renato. — Você não vai reconquistar ninguém vomitando uísque no tapete e desmaiando em frente a um quadro. Você quer que ela acredite que você mudou? Mostra isso. Começa levantando desse chão. Enfrenta as merdas que fez. Pede perdão… mas, dessa vez, com atitudes.

Cássio ficou em silêncio. O peito subia e descia rápido demais.

Renato se levantou, abriu a porta do box e estendeu a mão.

— Levanta, Cass. Porque se nem você estiver do seu lado… ninguém mais vai estar.

Por um momento, Cássio apenas encarou a mão do amigo. E então, com esforço, aceitou. Se ergueu. Molhado, trêmulo…, mas em pé.

Renato suspirou, aliviado.

— Boa. Agora vamos te tirar dessas roupas antes que você pegue uma pneumonia. Depois vai decidir quem quer ser.

Cássio assentiu com um movimento tímido de cabeça.

Finalmente havia um pouco de lucidez naquele olhar destruído.

Por sorte, Renato sempre andava prevenido — havia um terno reserva no carro. Agora, já recomposto, estava sentado no balcão da cozinha do amigo. A luz fraca da manhã entrava pela janela, revelando o estado do Cássio: rosto abatido, olhos inchados e uma xícara enorme de café sendo segurada com ambas as mãos como se dali dependesse a sanidade. Ao lado, um frasco vazio de Epocler.

— Está se sentindo melhor? — perguntou Renato, a voz ainda carregada de preocupação.

— Estou me sentindo um lixo — Cássio murmurou, sem levantar o olhar.

Renato respirou fundo, cruzando os braços.

— Até agora, eu não consigo entender… por que diabos você escondeu de todo mundo que era a Helena quem criava os projetos?

Cássio esfregou o rosto com as mãos, como se quisesse arrancar de si o peso da culpa.

— Eu não sei… — começou, a voz falhando. — No começo, eu tentei. Passei noites tentando desenhar algo que prestasse, mas tudo o que eu fazia era medíocre. Aí, um dia, ela sentou ao meu lado… e simplesmente fez. Como se fosse fácil… natural.

Ele fez uma pausa, respirou fundo e continuou:

— Com o tempo, eu só… parei de tentar. Passava a impressão de que eu estava ajudando, mas na verdade era ela. Sempre ela. E, em vez de continuar admirando isso nela… eu comecei a me sentir menor. Inútil. Alguém que só estava ali por acaso.

Seus olhos ficaram vermelhos, mas ele não chorou.

Capítulo 53 - O Homem Diante do Quadro 1

Capítulo 53 - O Homem Diante do Quadro 2

Capítulo 53 - O Homem Diante do Quadro 3

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