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Quadros de um divórcio romance Capítulo 54

"É extremamente fácil enganar-se a si mesmo; pois o homem geralmente acredita no que deseja" Demóstenes

Os vidros escurecidos do carro impediram que os flashes dos repórteres captassem seu rosto, mas Cássio ainda assim sentiu o peso de cada câmera e pergunta não dita. Uma fila de jornalistas se amontoava na entrada da garagem e na porta frontal do edifício, esperando — como aves de rapina — que ele cometesse um deslize.

— Parecem urubus em cima de carniça — resmungou, em voz baixa.

Renato, ao lado, arqueou uma sobrancelha com ironia.

— Você está famoso. Não era isso que queria?

Cássio apenas bufou, sem ânimo para replicar.

Quando o elevador se abriu no andar da diretoria, ele sentiu um alívio breve ao perceber a ausência de funcionários. Estava farto dos olhares de julgamento, da piedade silenciosa, do sussurro quando ele passava. Mas o alívio durou pouco.

Ao abrir a porta de sua sala, encontrou sentados ali seus pais, Esther e Carlos, a irmã Viviane… e Silvia. A cena tinha algo quase cômico, se não fosse trágico: Silvia acomodada no sofá, com um sorriso doce e impecável; à esquerda, Esther com a mão carinhosamente pousada sobre a barriga da futura mãe; à direita, Viviane, empolgada discutindo nomes de bebês. Seu pai, de pé próximo a janela, assistia a tudo com as mãos nos bolsos.

— O que vocês estão fazendo aqui? — Cássio perguntou, sem conseguir esconder a irritação.

Eles se viraram, levemente ofendidos. Silvia levantou-se com falsa serenidade e caminhou até ele.

— Meu amor… estávamos preocupados. Você sumiu, não atendia o telefone — disse, envolvendo o pescoço dele com os braços.

O perfume doce misturado à ressaca forte quase o fez enjoar. Ele afastou as mãos dela com delicadeza. Ela notou.

— Precisei resolver algumas coisas — respondeu, desviando o olhar para Renato, numa súplica silenciosa por apoio.

Renato deu um passo à frente.

— Não é uma boa hora para vocês estarem aqui. Temos decisões sérias a tomar, e isso… — ele indicou o trio com a cabeça — pode ser uma distração.

— Como não deveríamos estar aqui? Somos família — rebateu Esther, ofendida.

Cássio suspirou, cansado.

— Deixa, Renato. Eles não vão sair.

Carlos ajustou os óculos, a voz firme, mas paternal.

— Bem. Seja como for, estamos aqui. Precisamos saber o que você pretende fazer.

Viviane cruzou os braços, visivelmente irritada, e bufou antes mesmo que alguém perguntasse algo.

— Vocês têm ideia do que estão falando de mim também? — reclamou, ofendida. — Como se eu tivesse culpa de alguma coisa! — Pegou o celular e virou a tela para o irmão, indignada. — Olha isso… “Viviane Amaral, conhecida por viver às sombras da fortuna da família, manteve silêncio conveniente enquanto a cunhada era apagada dos créditos.”

Ela rolou mais a página.

— E pior: “Influenciadora de si mesma, Viviane parece mais preocupada em manter o batom intacto do que em questionar a ética do próprio sobrenome.” — Apertou o celular, indignada. — Estão me pintando como uma vilã de novela, e virei símbolo de futilidade nacional. Até disseram que meu maior talento é escolher filtro no I*******m. — Suspirou fundo, dramática.

Esther alisou a saia impecável como se tentasse desfazer as rugas da própria alma.

— Eles não perdoaram nem mesmo a mim, Cássio? — disse, a voz trêmula, mais de orgulho ferido do que de dor verdadeira. — Olha o que publicaram: “Esther Amaral, matriarca em silêncio conveniente, preferiu calar-se enquanto o patrimônio familiar era construído com base em mentira e exploração.” — Ela piscou rápido, como se espantasse as lágrimas antes que borrassem a maquiagem. — E olha esse outro: “Mais preocupada com colheres de prata nos jantares do que com a ética do próprio filho.” — Estalou a língua, indignada. — Estão me chamando de cúmplice por simplesmente ser sua mãe. A sociedade inteira me aponta o dedo como se eu tivesse colocado o lápis na mão da Helena e a obrigado a desenhar!

Cássio massageou as têmporas, como se a dor pudesse ser espremida entre os dedos.

— Eu ainda não sei, tá bem? — Ele se virou para o amigo. — Chama o Riviera e o Sampaio, por favor.

Poucos minutos depois, Gustavo Riviera, chefe jurídico, e Leônidas Sampaio, gerente administrativo, entraram na sala. Cumprimentaram com um breve aceno e permaneceram de pé, aguardando.

— Vocês já têm um panorama do que está acontecendo? — perguntou Cássio, sentando-se atrás da mesa.

Sampaio consultou um relatório.

— Alguns clientes suspenderam contratos. Redes parceiras exigem explicações, preocupadas com a fraude intelectual. As ações caíram quatorze por cento desde ontem à noite — ele engoliu em seco — e podem chegar a vinte e cinco até o fim do dia. E a imprensa pede um posicionamento urgente.

Cássio assentiu com um movimento lento.

— E juridicamente? — perguntou, voltando-se para Riviera.

O advogado cruzou as mãos, a postura tensa.

— Se você assumir a culpa, os processos virão de todos os lados. Não só de Helena. Investidores, marcas, acionistas… vão exigir reparação. Sem contar que certamente irão te tirar da direção da empresa. O conselho está salivando por isso.

— Por que ele assumiria? — interrompeu Viviane, indignada. — Ele construiu tudo isso!

Renato respirou, sem conseguir conter o sarcasmo.

— Talvez por que o que ele fez foi errado? Roubar o trabalho da esposa não é exatamente honesto?

Cássio lançou-lhe um olhar de repreensão.

Silvia foi quem reagiu primeiro.

— Roubar? Eles eram casados! Ele a sustentou enquanto ela desenhava como hobby! Já não pagou o bastante?

— Eu preciso assumir isso — interrompeu Cássio, a voz baixa. — Não tem outro caminho.

Carlos concordou, orgulhoso.

— É o certo, meu filho.

Silvia se levantou abruptamente.

— Certo?! Você vai jogar fora tudo pelo que lutou… por ela?

Viviane reforçou:

— Ela está destruindo sua vida, e todo mundo vai achar que você é o vilão. Não é justo.

Silvia tocou o braço de Cássio, como quem oferece um caminho mais seguro:

— Pense, Cássio. É a sua palavra contra a dela. Ela pode provar que criou a última coleção…, mas e as outras nove? Provavelmente ela não tem como provar a autoria das anteriores. Você é designer industrial. Ela é artista. Quem vai ser levado a sério num tribunal?

Esther concordou com um leve aceno.

— Silvia tem razão. A justiça vai ouvir você, não uma garota com pincel.

Cássio fechou os olhos, e dentro dele, algo perigoso reluziu. Talvez… talvez pudesse vencer. Talvez, se provasse que ela mentia, Helena voltaria rastejando para ele.

Renato percebeu o brilho errado nos olhos do amigo.

— Isso não é certo, Cássio.

Capítulo 54 - Retoques na mentira 1

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