"É extremamente fácil enganar-se a si mesmo; pois o homem geralmente acredita no que deseja" Demóstenes
Os vidros escurecidos do carro impediram que os flashes dos repórteres captassem seu rosto, mas Cássio ainda assim sentiu o peso de cada câmera e pergunta não dita. Uma fila de jornalistas se amontoava na entrada da garagem e na porta frontal do edifício, esperando — como aves de rapina — que ele cometesse um deslize.
— Parecem urubus em cima de carniça — resmungou, em voz baixa.
Renato, ao lado, arqueou uma sobrancelha com ironia.
— Você está famoso. Não era isso que queria?
Cássio apenas bufou, sem ânimo para replicar.
Quando o elevador se abriu no andar da diretoria, ele sentiu um alívio breve ao perceber a ausência de funcionários. Estava farto dos olhares de julgamento, da piedade silenciosa, do sussurro quando ele passava. Mas o alívio durou pouco.
Ao abrir a porta de sua sala, encontrou sentados ali seus pais, Esther e Carlos, a irmã Viviane… e Silvia. A cena tinha algo quase cômico, se não fosse trágico: Silvia acomodada no sofá, com um sorriso doce e impecável; à esquerda, Esther com a mão carinhosamente pousada sobre a barriga da futura mãe; à direita, Viviane, empolgada discutindo nomes de bebês. Seu pai, de pé próximo a janela, assistia a tudo com as mãos nos bolsos.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Cássio perguntou, sem conseguir esconder a irritação.
Eles se viraram, levemente ofendidos. Silvia levantou-se com falsa serenidade e caminhou até ele.
— Meu amor… estávamos preocupados. Você sumiu, não atendia o telefone — disse, envolvendo o pescoço dele com os braços.
O perfume doce misturado à ressaca forte quase o fez enjoar. Ele afastou as mãos dela com delicadeza. Ela notou.
— Precisei resolver algumas coisas — respondeu, desviando o olhar para Renato, numa súplica silenciosa por apoio.
Renato deu um passo à frente.
— Não é uma boa hora para vocês estarem aqui. Temos decisões sérias a tomar, e isso… — ele indicou o trio com a cabeça — pode ser uma distração.
— Como não deveríamos estar aqui? Somos família — rebateu Esther, ofendida.
Cássio suspirou, cansado.
— Deixa, Renato. Eles não vão sair.
Carlos ajustou os óculos, a voz firme, mas paternal.
— Bem. Seja como for, estamos aqui. Precisamos saber o que você pretende fazer.
Viviane cruzou os braços, visivelmente irritada, e bufou antes mesmo que alguém perguntasse algo.
— Vocês têm ideia do que estão falando de mim também? — reclamou, ofendida. — Como se eu tivesse culpa de alguma coisa! — Pegou o celular e virou a tela para o irmão, indignada. — Olha isso… “Viviane Amaral, conhecida por viver às sombras da fortuna da família, manteve silêncio conveniente enquanto a cunhada era apagada dos créditos.”
Ela rolou mais a página.
— E pior: “Influenciadora de si mesma, Viviane parece mais preocupada em manter o batom intacto do que em questionar a ética do próprio sobrenome.” — Apertou o celular, indignada. — Estão me pintando como uma vilã de novela, e virei símbolo de futilidade nacional. Até disseram que meu maior talento é escolher filtro no I*******m. — Suspirou fundo, dramática.
Esther alisou a saia impecável como se tentasse desfazer as rugas da própria alma.
— Eles não perdoaram nem mesmo a mim, Cássio? — disse, a voz trêmula, mais de orgulho ferido do que de dor verdadeira. — Olha o que publicaram: “Esther Amaral, matriarca em silêncio conveniente, preferiu calar-se enquanto o patrimônio familiar era construído com base em mentira e exploração.” — Ela piscou rápido, como se espantasse as lágrimas antes que borrassem a maquiagem. — E olha esse outro: “Mais preocupada com colheres de prata nos jantares do que com a ética do próprio filho.” — Estalou a língua, indignada. — Estão me chamando de cúmplice por simplesmente ser sua mãe. A sociedade inteira me aponta o dedo como se eu tivesse colocado o lápis na mão da Helena e a obrigado a desenhar!
Cássio massageou as têmporas, como se a dor pudesse ser espremida entre os dedos.
— Eu ainda não sei, tá bem? — Ele se virou para o amigo. — Chama o Riviera e o Sampaio, por favor.
Poucos minutos depois, Gustavo Riviera, chefe jurídico, e Leônidas Sampaio, gerente administrativo, entraram na sala. Cumprimentaram com um breve aceno e permaneceram de pé, aguardando.
— Vocês já têm um panorama do que está acontecendo? — perguntou Cássio, sentando-se atrás da mesa.
Sampaio consultou um relatório.
— Alguns clientes suspenderam contratos. Redes parceiras exigem explicações, preocupadas com a fraude intelectual. As ações caíram quatorze por cento desde ontem à noite — ele engoliu em seco — e podem chegar a vinte e cinco até o fim do dia. E a imprensa pede um posicionamento urgente.
Cássio assentiu com um movimento lento.
— E juridicamente? — perguntou, voltando-se para Riviera.
O advogado cruzou as mãos, a postura tensa.
— Se você assumir a culpa, os processos virão de todos os lados. Não só de Helena. Investidores, marcas, acionistas… vão exigir reparação. Sem contar que certamente irão te tirar da direção da empresa. O conselho está salivando por isso.
— Por que ele assumiria? — interrompeu Viviane, indignada. — Ele construiu tudo isso!
Renato respirou, sem conseguir conter o sarcasmo.
— Talvez por que o que ele fez foi errado? Roubar o trabalho da esposa não é exatamente honesto?
Cássio lançou-lhe um olhar de repreensão.
Silvia foi quem reagiu primeiro.
— Roubar? Eles eram casados! Ele a sustentou enquanto ela desenhava como hobby! Já não pagou o bastante?
— Eu preciso assumir isso — interrompeu Cássio, a voz baixa. — Não tem outro caminho.
Carlos concordou, orgulhoso.
— É o certo, meu filho.
Silvia se levantou abruptamente.
— Certo?! Você vai jogar fora tudo pelo que lutou… por ela?
Viviane reforçou:
— Ela está destruindo sua vida, e todo mundo vai achar que você é o vilão. Não é justo.
Silvia tocou o braço de Cássio, como quem oferece um caminho mais seguro:
— Pense, Cássio. É a sua palavra contra a dela. Ela pode provar que criou a última coleção…, mas e as outras nove? Provavelmente ela não tem como provar a autoria das anteriores. Você é designer industrial. Ela é artista. Quem vai ser levado a sério num tribunal?
Esther concordou com um leve aceno.
— Silvia tem razão. A justiça vai ouvir você, não uma garota com pincel.
Cássio fechou os olhos, e dentro dele, algo perigoso reluziu. Talvez… talvez pudesse vencer. Talvez, se provasse que ela mentia, Helena voltaria rastejando para ele.
Renato percebeu o brilho errado nos olhos do amigo.
— Isso não é certo, Cássio.
Renato apoiou as mãos no encosto da cadeira diante da mesa de Cássio. Ele estava sentado, os cotovelos sobre a madeira, a cabeça enterrada entre as mãos. As mangas da camisa amarrotadas, o nó da gravata desalinhado, e a xícara de café intocada à sua frente.
— Então é isso? — Renato perguntou, a voz baixa, mas firme. — Vai mesmo fazer o que eles querem?
Cássio não respondeu de imediato. Massageava a testa com os dedos, como se pudesse arrancar de si o peso da decisão.
— Eu não tenho escolha… — murmurou, por fim. — Se eu assumir a culpa, perco a empresa. Perco o nome. Perco tudo.
Renato deu um riso curto — sem humor, sem paciência.
— Você esqueceu de mencionar: já perdeu a mulher que te amava. E agora quer perder também o resto do que ainda te torna humano?
Cássio levantou os olhos. Eles estavam vermelhos, exaustos… e perigosamente frios.
— Você não entende, Renato. Eu criei essa empresa. Sangrei por ela. Passei noites em claro. Fiz sacrifícios que ninguém viu. E agora… agora querem que eu entregue tudo de bandeja?
Renato se aproximou mais.
— Você quer a verdade? — disse, sem piscar. — Você não sangrou sozinho. Ela sangrou com você. Talvez até mais. Só que enquanto você assinava contratos, ela estava no ateliê, desenhando o que você dizia ser seu. Enquanto você virava taças de champanhe, ela virava noites com lápis na mão. A diferença é que ela nunca pediu aplauso. Só respeito. Até eu, influenciado por você, fui um babaca com ela.
Cássio fechou os punhos, os olhos faiscando.
— Você está do lado dela, então?
— Eu estou do lado do certo — Renato rebateu, sem tremer. — E se você ainda soubesse quem é, também estaria.
A respiração de Cássio pesou. Por um instante, ele pareceu ceder…, mas algo, talvez orgulho, talvez medo, o endureceu de novo.
— Não é tão simples. — Murmurou. — Você também quer que eu perca tudo?
Renato suspirou, passando a mão pelos cabelos. A voz saiu mais baixa, quase um pedido:
— Não. Quero que você não perca a única parte de você que ainda vale a pena.
Mais um silêncio. Pesado. Cortante.
Renato pegou o paletó, virou-se em direção à porta.
— Vou estar do seu lado, como prometi… mas não vou te aplaudir quando estiver errado.
Antes de sair, ainda disse sem olhar para trás:
— Quando isso acabar, seja com vitória ou ruína, espero que ainda exista alguém aí dentro do seu próprio corpo.
A porta se fechou.
Cássio ficou sozinho.
A sala parecia maior. Vazia. Fria.
E pela primeira vez… ele sentiu medo.
Não do escândalo, nem de Helena.
Mas de si mesmo.

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