“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Clarice Lispector
Helena despertou com a luz suave da manhã atravessando as cortinas e se espalhando pelo quarto em tons dourados. Por um segundo não soube onde estava. Então sentiu — o peso morno de um braço sobre sua cintura, a respiração calma contra sua nuca… e lembrou. Santiago ainda dormia, o rosto tranquilo, os cabelos bagunçados e uma paz que ela nunca tinha visto nele antes.
Ela sorriu sozinha. Mas o sorriso morreu rápido.
— Merda… meus pais.
Santiago abriu um olho, sonolento.
— Bom dia pra você também. — Disse aumentando o aperto em sua cintura e puxando-a mais para si.
Meus pais, Santiago. Eles disseram que vinham cedo pra me ver. Cedo tipo… agora.
Ele piscou, e só então o pânico o alcançou. — Agora?!
Os dois se levantaram num atropelo silencioso. Ela procurava uma roupa no armário, ele tentava com dificuldade fechar os botões da camisa ao contrário. Quando finalmente conseguiu ficar minimamente apresentável, ouviu-se o toque da campainha e, logo depois, a voz da mãe dela na porta:
— Lena? Filha, estamos aqui!
Santiago arregalou os olhos. — O que eu faço agora?
— Você vai ter que… — Helena respirou fundo — …pular a janela do quarto.
Ele olhou para a janela, depois para ela. — Eu tenho trinta e dois anos.
— E está prestes a fugir da casa da mulher com quem dormiu… pelos fundos. Por favor.
Ele suspirou como quem aceitava seu destino. Se aproximou, segurou o rosto dela e roubou um beijo rápido, cúmplice.
Pulou. Literalmente.
Aproximando-se da entrada, deparou com o vestido e o paletó ainda no chão.
— Merda, merda, merda... —susurrou pra si mesma, já correndo com as peças para o quarto.
Soterrou-as no guarda-roupa e mal teve tempo de endireitar o cabelo antes de abrir a porta para os pais. A mãe entrou animada, o pai com um pão de queijo mordido na mão e olhos atentos demais. Atrás deles vinham Ricci e Windsor. Lívia ainda permanecia parada no portão, com a atenção presa em alguma coisa na rua, e um sorriso de quem sabe mais do que deveria.
— Está tudo bem, querida? — perguntou a mãe, desconfiada. — Está vermelha.
— É… calor — Helena respondeu, mesmo que estivesse 19 graus.
Todos finalmente entraram, carregando sacolas e embalagens de papel.
Do lado de fora, Santiago contornava a casa, tentando parecer menos suspeito. Quando finalmente chegou até o carro, percebeu outro veículo estacionado discretamente mais atrás. O farol piscou uma vez. Ele retribuiu com um aceno curto. Era Pedro — o segurança contratado para proteger Helena. Discreto. Sempre à espreita.
Tateou os bolsos e percebeu: esquecera o celular.
Dentro da cozinha, Lívia entrou em silêncio, cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha para a amiga.
— Helena… — sussurrou com um sorriso malicioso — …pensei que tivesse pedido para me avisar quando chegasse ontem… não?
Helena pigarreou, sem coragem de encará-la.
— Eu… eu estava cansada. Só isso. Acabei dormindo.
Lívia assentiu devagar, fingindo acreditar
— Sei... e esses dois copos aqui? Garrafa de vinho... esse cabelo desgrenhado... e o carro de um certo alguém parado na rua... Será que não se esqueceu de mim por que tinha companhia?
— Shhh! — Helena levou a mão aos lábios, as bochechas corando — Fala baixo pelo amor de Deus.
Lívia se aproximou, sussurrando perto do ouvido dela:
— Tudo bem… eu vou fingir que não vi. Mas depois… quero detalhes. Todos.
Consuelo começou a colocar as sacolas na bancada interrompendo a conversa entre as duas.
— O que as mocinhas estão cochichando?
Lívia sorriu, doce como açúcar.
— Nada demais, tia Lelo… só falando do que teremos para o café.
— Hm. Café rende assunto assim todo vermelho? — brincou, encarando a filha com malícia.
— O que é tudo isso? — Perguntou Helena querendo desviar o rumo da conversa. Afinal, conhecia bem a amiga linguaruda que tinha.
Enquanto ajudava a mãe a tirar croissants e pães das sacolas, Helena percebeu algo que gelou por um instante seu estômago: o celular de Santiago, esquecido sobre a bancada, meio escondido debaixo de uma das embalagens. Ele deve ter deixado ali quando…
Antes que alguém mais visse, Lívia também notou o aparelho. Com a naturalidade de quem já estava acostumada a salvar a amiga de situações constrangedoras, deslizou o celular discretamente para baixo de um pano de prato, camuflando-o entre as louças.
Helena ergueu o olhar de imediato, e as duas trocaram um silêncio cúmplice — metade pânico, metade risada contida.
Aurora surgiu na porta da cozinha com um sorriso aberto e algumas banquetas de plástico empilhadas nos braços.
— O de casa, tô entrando! — anunciou com bom humor.
— Ah! — lembrou Lívia, virando-se para Helena. — Eu convidei a Aurora pra se juntar a nós. Tudo bem pra você?
— É claro que sim! — Helena se levantou para abraçar a amiga. — Essa é a Aurora… e esses banquinhos provavelmente salvaram a manhã.
— Imaginei que não teria cadeira pra todo mundo — disse Aurora, entrando. — E como eu sou um anjo certificado, trouxe reforços.
Em poucos minutos, a cozinha se transformou. A mesa antes vazia agora estava coberta com pães, frutas coloridas, manteiga, geleias, café fresco e suco de laranja recém-espremido. Risadas e conversas preenchiam o ambiente. Helena, por um instante, parou de servir as xícaras e apenas observou — todos ali, reunidos… e felizes. Sentiu-se abençoada. E lamentou, ainda que por um segundo, o tempo que desperdiçou longe daquela paz.
— Olha ela… sorrindo pra parede. A noite foi mesmo boa, hein? — sussurrou Lívia ao seu lado, com o cotovelo apoiado na bancada.
Helena arregalou os olhos.
— Lívia, por favor… eu vou te matar!
Mas a amiga apenas deu um gole no café, como se estivesse apenas falando do tempo.
— Relaxa. Só quero saber se… — inclinou-se levemente — ele pinta com as mãos ou só com pincel.
— Lívia! — Helena quase se engasgou, apertando os lábios e tentando disfarçar o rubor.
Antes que pudesse retrucar, Rogério voltou da breve inspeção pela casa, com Ricci e Windsor.
— A casa é muito boa, filha. O bairro é ótimo… só falta um sistema de vigilância.
— Verdade. Agora que você está morando sozinha é indispensável. — Concordou o tio James preocupado.
— Eu não pretendo ficar sozinha sempre — disse Helena, pousando a xícara. — Tenho três quartos extras. Quero transformar o do meio em dois banheiros, assim terei duas suítes e vocês podem vir quando quiserem… e ficar.
— E eu estou incluída nessa matemática ou fui descartada? — resmungou Lívia, dramática.
— Óbvio que está, sua boba — respondeu Helena, rindo.
Consuelo, animada como uma criança, apertou as mãos.
— E vai me deixar ajudar a terminar de arrumar tudo, não vai?
Helena sabia que apesar de ser o braço direito do pai nos negócios, sua mãe amava decoração. Seu hobby sempre foi mudar as coisas de lugar e redecorar. Então, jamais negaria aquela alegria a ela, que se não fosse pelos cabelos pretos, seria uma perfeita cópia mais velha sua.
— Se eu disser que não, adianta alguma coisa? — Helena brincou.
— Nenhuma — confirmou a mãe, já abraçando-a pelos ombros. — Declarei férias pra mim mesma. Quero cuidar um pouco de você. Estava morrendo de saudade.
— Eu também, mãe. Mas não se esqueceu que prometeu cozinhar pra mim hoje, né?
— De jeito nenhum. Já trouxe tudo que preciso para fazer seus pratos preferidos.
A manhã seguiu leve — conversas, café quente e o cheiro de alho dourando na panela. Helena se afastou discretamente, pegou o telefone e ligou para o escritório de Santiago. Depois de alguns toques, ele atendeu.
— Alô?
— Santiago?
Ele sorriu de imediato, só pelo som da voz dela.
— Helena…
— Você esqueceu seu celular aqui em casa. Achei que pudesse precisar.
— Tá tudo bem. Consigo sobreviver sem ele por hoje. Você está se divertindo?
— Estou. Aproveitando minha família… e desculpa por ter… te feito sair escondido.
— Eu entendo. — A voz dele veio leve, com um sorriso implícito. — Não era mesmo assim que eu imaginei conhecer os seus pais.
Helena mordeu o lábio, corando.
— Se você não se importar, posso passar aí hoje à noite? Pra pegar o celular. E… te pedir um favor.
— Claro. — Ela respondeu rápido demais, baixando o tom. — Até à noite.
— Até.
Helena desligou, mas o sorriso permaneceu — discreto, inevitável.
O almoço foi farto. Consuelo não economizou afeto — e, com a ajuda animada de Aurora, transformou ingredientes simples em um banquete. Havia lasanha gratinada, saladas frescas, legumes assados, costelinhas douradas e o cheiro de alho e ervas espalhado por toda a casa. Era o tipo de comida que aquecia mais do que o estômago — aquecia a alma. Do jeito que Helena amava.
Depois de comerem até o corpo dizer “basta”, todos ficaram na sala e na varanda, espalhados entre cadeiras e almofadas pelo chão. O ar estava calmo, e por um instante, Helena se permitiu esquecer tudo o que havia vivido na noite anterior — ou quase tudo.
Foi Aurora quem quebrou o silêncio satisfeito:
— Li muitas notícias sobre você desde ontem, minha menina — disse com ternura. — E posso dizer… estou muito orgulhosa.

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