"Nunca ignore seus instintos! O fato de você não ver o perigo não significa que ele não esteja lá." Autor desconhecido
As portas da sala do conselho se fecharam atrás deles com um ruído seco. Cássio caminhava ao lado de Renato pelos corredores silenciosos da diretoria, o paletó nas mãos, a gravata afrouxada e o rosto pálido de exaustão. Duas horas — duas horas tentando conter sócios furiosos, convencer acionistas a esperarem mais três dias e, sobretudo, impedir os sócios de exigirem uma auditoria completa na empresa.
Renato foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Você conseguiu segurar eles… mas por quanto tempo? — perguntou num tom baixo, como quem evita ecoar más notícias contra as paredes de vidro.
Cássio soltou um suspiro resignado.
— O suficiente… eu espero.
— E agora? — insistiu Renato.
— Agora seguimos com o plano — respondeu, firme, embora o olhar denunciasse o cansaço. — Sei que estou pedindo demais, mas… pode ver com o Sampaio se ele conseguiu fechar com a equipe criativa? Precisamos disso logo.
Renato assentiu.
— Vou cuidar disso. E você?
— Vou até a fábrica. Quero saber o quanto ainda falta dos pedidos. Se conseguiremos cumprir todos… ou se vamos ter que escolher quais priorizar.
Renato apenas lhe devolveu um olhar de cansaço e lealdade.
— Boa sorte. Lembre-se de comer alguma coisa.
Ele apenas acenou com a cabeça e seguiu para o elevador.
...............
Optou por ir com o motorista. A fábrica ficava nos arredores da cidade, e o caminho de quarenta minutos lhe permitiria adiantar planilhas, revogar contratos, reorganizar prazos. Pelo menos era o plano. Mas, por mais que tentasse manter os olhos fixos no tablet, as planilhas começavam a se transformar em memórias.
Helena.
A imagem dela atravessando o salão na noite anterior ainda o assombrava. Linda. Serena. Dolorosamente distante. Tentou se lembrar da última vez em que a tocou com carinho — e não conseguiu. Parecia uma vida anterior. E, ao mesmo tempo, lembrar do jeito que ela sorria, do cheiro da pele, o calor das mãos dela... “Será que a perdi de vez?”
E então, como uma lâmina fria, o pensamento de Santiago atravessou sua mente. A forma como ele segurou seu pulso diante de todos. Os olhos dele — firmes, desafiadores — protegendo Helena como se tivesse o direito de fazer isso. Como se fosse o lugar dele.
Um músculo saltou na mandíbula de Cássio. Ele olhou para o próprio pulso, onde ainda parecia sentir a pressão dos dedos do outro homem.
“Quem esse cara pensa que é?
Helena não pode estar com ele. Não pode…”
— Chefe? — a voz do motorista o arrancou dos pensamentos. — Chegamos.
O carro já estava estacionado em frente ao galpão principal. O motorista o observava pelo retrovisor com uma mistura de respeito e estranheza — Cássio provavelmente não havia dito uma palavra durante todo o trajeto.
— Certo — murmurou. — Me espere aqui.
...............
A fábrica era um organismo vivo. Funcionários caminhavam apressados, máquinas roncavam, serras cortavam, uma fina poeira de madeira dançava sob a luz dos refletores altos. No ar, cheiros familiares: verniz fresco, tinta, café velho.
O engenheiro de produção, Augusto, veio ao seu encontro, prancheta nas mãos e olheiras profundas.
— Senhor Amaral — disse, já adivinhando que a visita não era apenas uma gentileza.
— Me diga a verdade — pediu Cássio, direto. — Quanto conseguiremos entregar?
Augusto respirou fundo.
— O prazo é curto demais para zerar tudo. Mas… como alguns contratos foram cancelados pela crise… conseguimos remanejar peças e antecipar parte da produção. Se mantivermos o ritmo e… com o pessoal extra que entrou hoje, dá pra finalizar cerca de oitenta por cento dos pedidos até o fim das setenta e duas horas.
Cássio assentiu lentamente.
— Oitenta por cento é melhor do que nada. Dobre os turnos, pague hora extra, peça ajuda até do zelador se precisar. Conclua o máximo que puder.
Augusto soltou um meio sorriso cansado.
— Vou fazer o possível.
— Não. — Cássio o corrigiu, a voz baixa, mas firme. — Faça o impossível.
Decidiu seguir até a área de logística, onde os móveis eram embalados e separados para entrega.
O som ritmado dos martelos e o cheiro de madeira recém-cortada o acompanharam enquanto caminhava entre os corredores. Cada cadeira com suas curvas suaves… cada mesa com encaixes perfeitos… trazia de volta uma imagem que ele tentava soterrar: Helena, debruçada sobre a mesa rabiscando no papel com sobrancelhas franzidas e a ponta do lápis entre os dentes.
Ele lembrava das noites em que ela adormecia sobre o desenho e ele a cobria com um casaco; de quando ela sorria, empolgada, ao mostrar um esboço novo — e de quando, sem perceber, ele começou a achar que aquele brilho não lhe pertencia mais.
Passou a mão pelas bordas de um aparador e respirou fundo. Naquela fábrica, onde tudo ganhava forma, ele sentiu, pela primeira vez, como se algo já estivesse se desfazendo — dentro dele.
...............
Assim que deixou a sala de Cássio naquela manhã, Silvia se despediu educadamente da família dele e caminhou com passos firmes até sua sala. Assim que a porta se fechou atrás de si, a expressão doce desapareceu. O maxilar travou. Ela respirou fundo — não suportava mais posar de companheira compreensiva, tampouco fingir afeto pelas mulheres da família Amaral. Pelo menos, pensou, elas estavam ao lado dela naquele momento… e isso seria útil. Muito útil.
Mas bastava lembrar de Cássio falando em assumir a culpa e devolver tudo a Helena para que seu sangue fervesse. Onde estava o homem ambicioso, implacável, que ela acreditou existir? Em seu lugar, agora via um homem vacilante, arrependido… fraco. E Silvia estava farta de fracos.
Por sorte, conseguira desviá-lo a tempo. Impediu que cometesse a estupidez de confessar. Contudo, sabia que aquilo era apenas o início de uma longa batalha. Em três dias a fábrica pararia, e só voltaria a funcionar quando uma nova coleção estivesse pronta. Três dias. Quanto tempo até o caos? Até tudo desmoronar?
Talvez, se convencesse Dante a aumentar o volume das cargas nesses três dias, conseguiria ganhar tempo. Só de pensar naquele homem, seu estômago se revirou.
Ajeitou a bolsa no ombro. Saiu decidida.
Silvia já estava acostumada com aquele ambiente poeirento e com cheiro impregnante de madeira e tinta. Não se demorou observando o movimento, apenas o suficiente para contestar o aumento visível de pessoal e a agitação de todos. Seguiu pelos corredores até o setor de logística. Foi ali que o encontrou.
Márcio estava encostado em uma pilha de caixas, braços fortes cruzados, a camisa polo azul clara marcada pelo símbolo dourado da empresa no peito. As tatuagens subiam pelo antebraço até sumirem sob a manga. Quem o visse apenas do pescoço para baixo talvez o temesse; quem olhasse seu rosto de aparência juvenil, apesar dos seus já 28 anos, os olhos escuros sempre cheios de preocupação, perceberia que ele era mais coração do que violência. E pensar que ela o arrastara para tudo aquilo. Não que se arrependesse.
Ele disfarçou, olhando para o relógio e depois para o corredor. Quando ela se aproximou, murmurou:
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