“Nem toda camada revela. Algumas apenas encobrem — até que a verdade transborde pelas rachaduras.”
Renato caminhava pelo corredor principal do Studio, o blazer pendurado no antebraço, a na mente a imagem de Cássio se afundando mais um pouco a cada decisão. Quando chegou à sala de reuniões menor — a que costumavam usar para entrevistas e contratações — viu que a equipe recém-chegada já aguardava.
Eram quatro profissionais — designers externos, freelancers conceituados no meio criativo. Trazidos às pressas por Sampaio, como ordenara Cássio. Portfólios sob o braço, olhares atentos, curiosos… e desconfiados.
— Bom dia — Renato cumprimentou, abrindo a pasta sobre a mesa. — Obrigado por aceitarem vir com tão pouco tempo de aviso. Estou ciente de que todos têm compromissos importantes. Mas… a situação exige urgência.
Uma das designers, de cabelos grisalhos modernos e postura firme, cruzou os braços.
— Sabemos que querem uma nova coleção em tempo recorde — disse. — Mas o briefing veio… incompleto. Sem referências estéticas, sem conceito, sem norte artístico.
Renato assentiu, respirando fundo. Estava cansado demais para mentir.
— O norte é simples: precisamos de algo original. Autêntico. E que não lembre nada do que já fizemos antes.
A designer arqueou a sobrancelha, captando muito mais do que ele disse. Afinal, todos sabiam das notícias.
Antes que a conversa se aprofundasse, a porta se abriu.
Silvia entrou. Impecável como sempre. Sorriso doce e falso como açúcar queimado.
— Bom dia a todos! — disse, com entusiasmo ensaiado. — Sou Silvia, noiva de Cássio. Estou aqui para ajudar no que for preciso.
Renato travou por um segundo.
“Noiva”. Cássio acabara de se divorciar sem nem mesmo ter conhecimento disso. Não assumiu nada formalmente. Mas ela já agia como se fosse dona de tudo. E de todos.
— A nova equipe criativa? — continuou ela, como se fosse anfitriã da reunião. — Perfeito. Já deixei uma sala preparada pra vocês. Água, café, e… — sorriu — cópias de todas as coleções anteriores para servirem de inspiração.
Renato interrompeu.
— Não. — A palavra saiu antes mesmo que pudesse suavizá-la.
Silvia piscou, surpresa.
— Não? — repetiu.
— Não queremos inspiração das coleções antigas — explicou, firme. — A ideia é algo novo. Do zero.
Silvia manteve o sorriso — mas os olhos endureceram.
— Claro — disse, lentamente. — Só achei que… poderia facilitar.
Renato sustentou o olhar. Por um instante, o silêncio entre os dois não era apenas incômodo — era perigoso.
Ela virou-se para os designers, retomando sua máscara doce.
— De qualquer forma, contem comigo. Se precisarem de qualquer informação… estou por perto.
Silvia saiu. Perfume doce, passos leves.
Quando a porta se fechou, a mulher de cabelos grisalhos inclinou-se para Renato.
— Ela está envolvida nisso tudo, não está? — perguntou baixo, como quem não queria apenas fofoca…, mas verdade.
Renato hesitou. Tinha uma resposta. Tinha um pressentimento. Tinha medo.
— Ainda não sei — disse, por fim. — Mas estou começando a achar… que Helena não foi a única vítima dessa empresa.
Pouco depois, após acomodar a nova equipe criativa na sala reservada, Renato trancou a porta, respirou fundo e ligou para o amigo.
— Renato? — a voz de Cássio veio tensa do outro lado da linha. — Espero que sejam boas notícias.
— Acho que sim — respondeu. — A equipe criativa já está trabalhando.
— Pediu pra virarem as próximas noites até terminar o projeto?
— Pedi. Está tudo certo. Não vai sair barato, mas… pelos portfólios, são excelentes.
Silêncio breve. Depois, o som de alívio escapando na voz de Cássio:
— Ótimo. Deixa o pessoal preparado pra iniciar os protótipos assim que os desenhos estiverem prontos. Vamos ter que reformular boa parte do maquinário.
— Deixa comigo. — Renato sorriu de leve. — Tô voltando pro Grupo agora. Já cuidei demais da tua empresa, preciso cuidar da minha.
Cássio soltou um riso fraco — meio agradecido, meio cansado.
— Vai lá. E… cara… obrigado. De verdade.
Renato parou antes de desligar. A testa apoiada contra o vidro do carro, pensamento distante.
— Só… fica bem, tá?
A linha ficou muda por um segundo, antes de Cássio responder:
— Vou tentar.
...............
A tarde descia preguiçosa sobre a galeria. Santiago estava largado na cadeira do escritório. Poderia ter tomado banho, trocado de roupa, voltado a parecer o homem impecável de sempre. Mas não o fez. O perfume dela ainda estava ali — suave, adocicado, grudado em sua pele, no colarinho da camisa, no ar que respirava. Era quase um vício. E ele não queria se livrar daquilo ainda.
Quando entrou na galeria pela manhã, não passou despercebido. Os cabelos estavam desalinhados, a camisa meio aberta e sem paletó, vincada como se tivesse sido vestida às pressas. Apesar da aparência cansada, havia algo impossível de ignorar: o sorriso. Largo, bobo, genuíno — iluminava mais do que qualquer lustre.
Alguns funcionários trocaram olhares curiosos, outros franziram a testa, achando aquilo estranho demais. Mas Santiago não parecia notar. Ou se notava, simplesmente não se importava.
— Bom dia, bom dia, bom dia! — anunciou, com uma animação inesperada.
E, por mais que ninguém entendesse o motivo, a alegria dele tinha um efeito curioso — como se abrisse as janelas de um lugar que andava tempo demais empoeirado.
A recepcionista piscou duas vezes, confusa, antes de se inclinar discretamente para o colega ao lado.
— Ele… tá bêbado? — sussurrou, sem tirar os olhos de Santiago.
— Não — respondeu outro, ajustando os óculos e tentando disfarçar o riso. — Pior. Acho que está apaixonado.
— Apaixonado? — ela repetiu, intrigada. — Será… pela mulher que ele protegeu no evento?
Felipe deu um risinho baixo.
— Se for, ele tá mais perdido que os móveis da última coleção cancelada.
— Eu acho que fariam um casal lindo... — Rebateu ela, sonhadora.
Naturalmente, todos ali também já tinham lido as manchetes.
“Quem é Santiago Villar, o galerista que enfrentou Cássio Amaral ao vivo para defender Helena Duarte?”
“Novo casal no mundo das artes? Olhares tensos e gestos cúmplices entre Santiago e Helena despertam suspeitas.”
— Como não? Não é óbvio que seja ele?
— Não há nada mais enganador que um fato óbvio. Ele é um canalha, mas não é burro.
— Se não foi ele, quem seria?
— Pensa comigo. Helena era a mina de ouro dele. Matar ela seria fechar a própria torneira.
— Faz sentido... mas eu te conheço o bastante para saber que você tem mais alguma suposição, então desembucha.
Marcelo respirou fundo.
— Ainda é só instinto. Mas… aquela Silvia. A amante. Tem algo errado com ela.
— Você acha que…?
— Não sei ainda. Mas ela tem motivação. E falando nisso… eu precisei agir sem te consultar.
Santiago cruzou os braços, desconfiado.
— O que você fez?
— Infiltrei duas pessoas no Studio Cassiani. Uma na fábrica, outra na nova equipe de design. Pelo visto estão correndo contra o tempo, aumentando a produção e tentando criar uma nova coleção relâmpago. Tudo indica que Cássio não vai aceitar o acordo da Helena.
O maxilar de Santiago se contraiu.
— Então isso vai parar na justiça. E Helena vai ser exposta por meses…
— Eu disse que ele era um canalha.
Um silêncio denso caiu por um instante. Até que Santiago falou:
— Vou para o sobrado hoje à noite. Preciso ficar perto. Mas vê se providencia… sei lá… três cômodos habitáveis. Uma cama, um chuveiro e talvez um teto que não caia na minha cabeça.
Marcelo riu alto.
— Tá achando que eu sou o quê? Sua arrumadeira? Quer que eu passe pano no chão também?
Santiago sorriu. Pela primeira vez, leve.
— Você sabe que, no fundo, eu não sobreviveria sem você.
Marcelo deu um tapinha no ombro dele, levantando-se.
— Vou dar um jeito. Eu sempre dou. Porque se eu não existir… você morre. Literalmente. Ou tropeça e quebra o pescoço.
Virou-se para sair, ainda rindo.
— Te vejo mais tarde, dono de casarão mal-assombrado.
Santiago ficou sozinho, café na mão, olhar perdido em algum ponto invisível. No rosto… preocupação. No peito… esperança.
Olhou o relógio. 17h. Era hora de ir.
Levantou-se devagar, sentindo o corpo ainda cansado da noite mal dormida, mas o espírito inquieto demais para parar. Precisava passar em casa, tomar um banho, colocar alguma ordem no cabelo — talvez até na alma —, pegar Mabe… e então, finalmente, vê-la. A mulher que não saía de sua mente, nem de sua pele.
Pegou a gravata esquecida na poltrona, passou-a solta pelo pescoço e caminhou pelos corredores da galeria. As obras nas paredes, antes parte da rotina, agora pareciam distantes, borradas… como se o mundo inteiro tivesse perdido o foco, exceto ela.

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