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Quadros de um divórcio romance Capítulo 57

“Nem toda camada revela. Algumas apenas encobrem — até que a verdade transborde pelas rachaduras.”

Renato caminhava pelo corredor principal do Studio, o blazer pendurado no antebraço, a na mente a imagem de Cássio se afundando mais um pouco a cada decisão. Quando chegou à sala de reuniões menor — a que costumavam usar para entrevistas e contratações — viu que a equipe recém-chegada já aguardava.

Eram quatro profissionais — designers externos, freelancers conceituados no meio criativo. Trazidos às pressas por Sampaio, como ordenara Cássio. Portfólios sob o braço, olhares atentos, curiosos… e desconfiados.

— Bom dia — Renato cumprimentou, abrindo a pasta sobre a mesa. — Obrigado por aceitarem vir com tão pouco tempo de aviso. Estou ciente de que todos têm compromissos importantes. Mas… a situação exige urgência.

Uma das designers, de cabelos grisalhos modernos e postura firme, cruzou os braços.

— Sabemos que querem uma nova coleção em tempo recorde — disse. — Mas o briefing veio… incompleto. Sem referências estéticas, sem conceito, sem norte artístico.

Renato assentiu, respirando fundo. Estava cansado demais para mentir.

— O norte é simples: precisamos de algo original. Autêntico. E que não lembre nada do que já fizemos antes.

A designer arqueou a sobrancelha, captando muito mais do que ele disse. Afinal, todos sabiam das notícias.

Antes que a conversa se aprofundasse, a porta se abriu.

Silvia entrou. Impecável como sempre. Sorriso doce e falso como açúcar queimado.

— Bom dia a todos! — disse, com entusiasmo ensaiado. — Sou Silvia, noiva de Cássio. Estou aqui para ajudar no que for preciso.

Renato travou por um segundo.

“Noiva”. Cássio acabara de se divorciar sem nem mesmo ter conhecimento disso. Não assumiu nada formalmente. Mas ela já agia como se fosse dona de tudo. E de todos.

— A nova equipe criativa? — continuou ela, como se fosse anfitriã da reunião. — Perfeito. Já deixei uma sala preparada pra vocês. Água, café, e… — sorriu — cópias de todas as coleções anteriores para servirem de inspiração.

Renato interrompeu.

— Não. — A palavra saiu antes mesmo que pudesse suavizá-la.

Silvia piscou, surpresa.

— Não? — repetiu.

— Não queremos inspiração das coleções antigas — explicou, firme. — A ideia é algo novo. Do zero.

Silvia manteve o sorriso — mas os olhos endureceram.

— Claro — disse, lentamente. — Só achei que… poderia facilitar.

Renato sustentou o olhar. Por um instante, o silêncio entre os dois não era apenas incômodo — era perigoso.

Ela virou-se para os designers, retomando sua máscara doce.

— De qualquer forma, contem comigo. Se precisarem de qualquer informação… estou por perto.

Silvia saiu. Perfume doce, passos leves.

Quando a porta se fechou, a mulher de cabelos grisalhos inclinou-se para Renato.

— Ela está envolvida nisso tudo, não está? — perguntou baixo, como quem não queria apenas fofoca…, mas verdade.

Renato hesitou. Tinha uma resposta. Tinha um pressentimento. Tinha medo.

— Ainda não sei — disse, por fim. — Mas estou começando a achar… que Helena não foi a única vítima dessa empresa.

Pouco depois, após acomodar a nova equipe criativa na sala reservada, Renato trancou a porta, respirou fundo e ligou para o amigo.

— Renato? — a voz de Cássio veio tensa do outro lado da linha. — Espero que sejam boas notícias.

— Acho que sim — respondeu. — A equipe criativa já está trabalhando.

— Pediu pra virarem as próximas noites até terminar o projeto?

— Pedi. Está tudo certo. Não vai sair barato, mas… pelos portfólios, são excelentes.

Silêncio breve. Depois, o som de alívio escapando na voz de Cássio:

— Ótimo. Deixa o pessoal preparado pra iniciar os protótipos assim que os desenhos estiverem prontos. Vamos ter que reformular boa parte do maquinário.

— Deixa comigo. — Renato sorriu de leve. — Tô voltando pro Grupo agora. Já cuidei demais da tua empresa, preciso cuidar da minha.

Cássio soltou um riso fraco — meio agradecido, meio cansado.

— Vai lá. E… cara… obrigado. De verdade.

Renato parou antes de desligar. A testa apoiada contra o vidro do carro, pensamento distante.

— Só… fica bem, tá?

A linha ficou muda por um segundo, antes de Cássio responder:

— Vou tentar.

...............

A tarde descia preguiçosa sobre a galeria. Santiago estava largado na cadeira do escritório. Poderia ter tomado banho, trocado de roupa, voltado a parecer o homem impecável de sempre. Mas não o fez. O perfume dela ainda estava ali — suave, adocicado, grudado em sua pele, no colarinho da camisa, no ar que respirava. Era quase um vício. E ele não queria se livrar daquilo ainda.

Quando entrou na galeria pela manhã, não passou despercebido. Os cabelos estavam desalinhados, a camisa meio aberta e sem paletó, vincada como se tivesse sido vestida às pressas. Apesar da aparência cansada, havia algo impossível de ignorar: o sorriso. Largo, bobo, genuíno — iluminava mais do que qualquer lustre.

Alguns funcionários trocaram olhares curiosos, outros franziram a testa, achando aquilo estranho demais. Mas Santiago não parecia notar. Ou se notava, simplesmente não se importava.

— Bom dia, bom dia, bom dia! — anunciou, com uma animação inesperada.

E, por mais que ninguém entendesse o motivo, a alegria dele tinha um efeito curioso — como se abrisse as janelas de um lugar que andava tempo demais empoeirado.

A recepcionista piscou duas vezes, confusa, antes de se inclinar discretamente para o colega ao lado.

— Ele… tá bêbado? — sussurrou, sem tirar os olhos de Santiago.

— Não — respondeu outro, ajustando os óculos e tentando disfarçar o riso. — Pior. Acho que está apaixonado.

— Apaixonado? — ela repetiu, intrigada. — Será… pela mulher que ele protegeu no evento?

Felipe deu um risinho baixo.

— Se for, ele tá mais perdido que os móveis da última coleção cancelada.

— Eu acho que fariam um casal lindo... — Rebateu ela, sonhadora.

Naturalmente, todos ali também já tinham lido as manchetes.

“Quem é Santiago Villar, o galerista que enfrentou Cássio Amaral ao vivo para defender Helena Duarte?”

“Novo casal no mundo das artes? Olhares tensos e gestos cúmplices entre Santiago e Helena despertam suspeitas.”

Capítulo 57 - Camadas obscuras 1

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