“Amigos são irmãos que a vida nos dá de presente.”
O final da tarde trouxe um silêncio acolhedor à casa de Helena. Depois de despedirem-se, restaram apenas Helena e Lívia. O sol que se punha lançava feixes de luz alaranjados no quarto.
Lívia estava esparramada na cama, de barriga para cima, com um pote de pipoca apoiado sobre o abdômen. Jogava alguns grãos para o alto sem muita precisão, só para matraquear os nervos. Do outro lado da cama, Helena, recém-saída do banho, sentava-se com as pernas cruzadas. Vestia um vestido branco de algodão leve, de alcinhas finas e botões de madrepérola na frente. O tecido marcava de leve as curvas e deixava os ombros úmidos à mostra. Enquanto desembaraçava os cabelos ainda molhados com os dedos, evitava deliberadamente encarar a amiga.
— Para de me enrolar — resmungou Lívia, jogando duas pipocas em direção a Helena. — Desembucha logo!
— Eu não sei do que você está falando… — respondeu Helena, tentando manter a serenidade.
— Não se faça de sonsa! — Lívia se ergueu e encarou a amiga fingindo aborrecimento. — Você sabe muito bem.
Helena suspirou, vencida.
— Tá bem… Quando chegamos ontem, a barriga dele roncou. E, depois de tudo que ele fez, se eu não o convidasse pra comer alguma coisa, eu estaria sendo ingrata.
— Você tá falando dele ter te defendido do Cássio? — questionou Lívia, já desconfiada.
— Também… — Helena hesitou, mordendo o lábio inferior. — Mas teve outra coisa.
Lívia largou a pipoca, olhos arregalados.
— O quê?
— Promete que não vai surtar? — perguntou Helena, com medo da reação.
— Eu já estou surtando, então fala logo!
Helena a encarou por um instante, como quem pondera se deve mesmo abrir aquela porta. Respirou fundo.
— Santiago… ele salvou minha vida.
Lívia congelou.
— Como assim? — sussurrou, a voz saindo mais fina do que o normal. — Salvou sua vida como?
Helena engoliu seco.
— Eu estava atravessando a rua… e um carro surgiu do nada em alta velocidade. Eu só ouvi o barulho do motor... quando olhei, ele já estava quase em cima de mim. Se Santiago não tivesse aparecido… eu teria ido de arrasta.
Lívia levou a mão à boca, pálida.
— Surgiu do nada? Tipo… nem tentou frear?
Helena apenas balançou a cabeça, devagar.
— Não. Foi rápido demais. E eu… ainda estou tentando entender. Mas não vai contar nada para a mamãe sua linguaruda, não quero deixa-la preocupada.
O silêncio se instalou por alguns segundos. Só o som das pipocas no pote e o vento mexendo a cortina preenchia o ar. Lívia piscou, tentando processar.
— Tá. — Respirou fundo. — Agora eu surtei de verdade. Continua. Desde o começo. Sem pular detalhe.
Helena largou a escova de cabelo ao lado, e com calma relatou todo o ocorrido para a amiga.
— Isso é muito estranho... _ disse Lívia preocupada.
— Mas eu estou bem, graças a Deus... e a Santiago.
Lívia ainda parecia não acreditar no acaso de tudo o que havia acontecido, mas conteve a inquietação para não preocupar a amiga. Inspirou fundo, desfez o cenho preocupado e, com um meio sorriso travesso nos lábios, retomou o tom leve:
— E ontem? — ergueu a sobrancelha. — Você chamou o cara pra jantar e acabou virando o prato principal?
Helena pegou o travesseiro ao lado e acertou o braço dela, indignada:
As pernas de Lívia amoleceram.
Não o tinha visto tão de perto no evento, e agora — com aquela camisa preta de manga longa colada ao corpo, desenhando cada músculo, e a calça de moletom que deixava pouco à imaginação — era praticamente uma visão perigosa.
Helena, ainda parada na soleira, sem enxergar o homem dali, franziu o cenho ao notar a expressão da amiga:
— Lívia? Aconteceu alguma coisa? Você tá com a cara de quem acabou de ver um sonho coberto de açúcar…
Lívia virou-se devagar, ainda um pouco aérea.
— Amiga… eu acabei de ver uma bomba de chocolate deliciosa. Por que você nunca me falou que tinha um vizinho tão… gostoso?
Helena arregalou os olhos.
— Vizinho? Você deve estar confundindo. Desde que me mudei, nunca vi ninguém naquele sobrado velho. A não ser que tenham comprado agora…
Lívia mordeu o lábio inferior, pensativa. Encontrá-lo duas vezes, em menos de vinte e quatro horas, e agora justamente ao lado da casa de Helena… coincidência demais.
Helena percebeu a mudança no olhar dela:
— O que foi? Não fala nada e me assusta!
Lívia piscou, saindo dos próprios devaneios, e forçou um sorriso leve.
— Não é nada… deve ser só coincidência. — Tocou o braço da amiga. — Mas promete que vai se cuidar? E trancar direito essa casa. Seu pai tem razão, você precisa de um sistema de segurança.
— Eu estou bem… — Helena suspirou. — Mas vou providenciar, tá? Pode ficar tranquila.
As duas se abraçaram novamente, mais apertado desta vez. Depois se despediram, e Lívia seguiu para o carro ainda com o pensamento preso na porta da casa vizinha — e no homem que acabara de atravessá-la.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio