“A lealdade como crença, A disciplina como valor. A coragem como hábito. A missão como destino.” C. Op. Esp.
Santiago estacionou o carro em frente à casa de Helena. As luzes amareladas dos postes recortavam a rua de paralelepípedos, projetando sombras alongadas e ressaltando as imperfeições do calçamento. Um pouco adiante, na pequena praça do bairro, alguns senhores jogavam cartas enquanto senhoras conversavam distraidamente. Duas crianças ainda corriam pela rua, insistindo em prolongar a brincadeira, enquanto outras obedeciam ao chamado das mães que ecoava das janelas: era hora do jantar. Aquele lugar tinha algo de antigo, quase suspenso no tempo — um recanto acolhedor em meio ao caos barulhento da cidade.
No banco do carona, Mabe observava atentamente.
— Vai ser difícil ficar longe de você… — sua voz saiu baixa, quase um segredo. — Mas eu preciso que cuide dela por mim. Consegue fazer isso?
Os olhos dela brilharam em aprovação.
Eles desceram do carro. Antes de abrir o portão de ferro, Santiago lançou um olhar rápido para o sobrado ao lado. Caminhou até a porta verde da casa de Helena e apertou o botão redondo da campainha antiga, que tilintou de maneira suave, quase nostálgica.
Poucos instantes depois, a porta se abriu.
Helena surgiu à soleira, com um avental amarrado por cima de um vestido branco de alcinhas que deixava exposto parte do colo. Os cabelos estavam presos em um coque desalinhado e um pano de prato descansava sobre seu ombro. Santiago, por um instante, pensou em como seria voltar todos os dias para aquela imagem — e como ela parecia, inexplicavelmente, como lar.
Ela abriu um sorriso ao vê-lo, mas a expressão se transformou assim que seus olhos encontraram Mabe. Santiago foi completamente ignorado.
— Oooown… quem é essa coisa mais linda? — Helena abaixou-se sem cerimônia, passando a mão pelo peito e pelas orelhas da pastora-alemã, como se não estivesse diante de um animal de quase quarenta quilos.
Mabe quase se jogou no chão de tanta alegria.
Santiago ficou parado, surpreso. Nunca tinha visto alguém se aproximar de Mabe daquela maneira — sem medo, sem hesitação — e muito menos a cadela corresponder com tamanha entrega.
Helena se levantou, mas Mabe se ergueu nas patas traseiras e apoiou-se em seu peito, quase a derrubando.
— Ah… você quer um abraço, é? — disse Helena, rindo, envolvendo os braços em volta do animal e voltando a acariciá-la como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Mabe latiu baixinho e abanou o rabo com tanta empolgação que quase perdeu o equilíbrio, como se dissesse “sim”.
Santiago observava a cena com uma pontada de ciúmes — embora não soubesse definir de quem, exatamente. Talvez de Helena, por dar tanta atenção à cadela. Ou de Mabe, por ter se entregado tão rápido a alguém. Nem mesmo quando ele a adotou ela havia sido tão receptiva.
— Tá bom, garota, já chega — murmurou, tentando soar firme.
— Ah, não seja ranzinza — repreendeu Helena, sem nem olhar para ele. — Deixa ela.
Santiago não respondeu. Apenas sorriu de leve, observando a alegria das duas. Havia algo naquela cena — simples, doméstica, inocente — que o aquecia por dentro.
— Não vai me dizer quem é a sua amiga? — perguntou Helena, finalmente erguendo os olhos para ele.
— Essa é a Mabe — respondeu, com um leve carinho na cabeça da cadela. — Ela é… o favor que eu queria te pedir.
Helena franziu a testa por um instante, sem entender. Só então percebeu que os dois ainda estavam parados na porta.
— Ai, meu Deus, desculpa! — exclamou, se afastando apressada. — Fiquei tão encantada com ela que esqueci completamente de deixar vocês entrarem.
Ela abriu mais o espaço, convidando-os para dentro. Santiago entrou primeiro, enquanto Mabe seguiu colada ao lado de Helena, como se já tivesse escolhido de quem gostava mais.
— Só me dá um segundo para desligar o forno.
Ela caminhou até a cozinha, e a cadela a seguiu como uma sombra fiel, sentando-se pacientemente ao lado do fogão. Santiago observou a cena com um sorriso contido, “que cachorra mais ordinária” pensou.
— Senta — disse Helena quando voltou, apontando para a cadeira em frente à dela.
Ele obedeceu. Mabe encostou-se à perna de Helena, colocando uma pata em seu colo como quem exige carinho e atenção.
Helena o observou por um instante. Era a primeira vez que o via tão informal. Tênis, calça de moletom cinza e uma camiseta preta simples — que, ironicamente, destacava ainda mais os contornos do corpo forte. E, de algum modo inexplicável, aquele despojamento só o tornava ainda mais bonito.
— Então… — Helena começou, um pouco incerta. — O que eu posso fazer pela Mabe?
Santiago respirou fundo antes de responder.
— Eu não queria te pedir isso, mas… não tenho a quem mais recorrer no momento. Meu apartamento está em reforma e toda aquela bagunça tem deixado ela muito estressada. — A desculpa saiu com naturalidade surpreendente. — Você conseguiria ficar com ela por alguns dias?
— Você quer deixá-la comigo? — Helena perguntou, olhando para a cadela com um sorriso inevitável.
— Seria só por um tempo…
— E você? Quer ficar aqui? — perguntou Helena para a cadela, inclinando a cabeça como se esperasse uma resposta real.
Mabe latiu e abanou o rabo. Helena riu.
— Você é muito esperta, sabia? — e afagou de novo a cabeça da cachorra. — Por mim, tudo bem. Vai ser bom ter companhia.
Santiago quase deixou escapar a vontade de dizer que ele também poderia ser companhia. Mordiscou a língua por dentro e apenas murmurou:
— Nem sei como te agradecer.
— Não precisa. Vai ser um prazer. Sempre quis ter um cachorro. — Ela fez uma pausa, curiosa. — Como vocês se conheceram?
— Mabe era da polícia. Cachorra policial aposentada. Serviu alguns anos na Federal. Mas teve displasia no cotovelo. É comum na raça.
Helena levou a mão ao rosto do animal com delicadeza, como se tocasse algo frágil.
— Ah… eu sinto muito.
— Ela está bem agora. Fez cirurgia, pode viver normalmente. Só não pode mais trabalhar. Mas… fez mais do que o bastante por esse país. Ganhou medalhas, honra, e está comigo há mais de dois anos.
Helena sorriu, emocionada
— Então você é uma heroína, é? — perguntou para a cadela.
Mabe latiu em resposta.
— E… também está com fome? — Helena continuou rindo.
Novo latido. Santiago ergueu as sobrancelhas.
— Ela entendeu? — Helena perguntou, surpresa.
— Entendeu. E também está te manipulando. Não se engane, ela sabe fazer cara de pidona.
— E o que eu dou para ela comer?
— Ah, fica tranquila. Eu trouxe a ração. Tá no carro. Só… não ofereça lasanha ou carne assada. Ela nunca esquece.
Helena riu. — E você? Aceita jantar também? — perguntou, e só então corou, lembrando da noite anterior.
Ele hesitou por educação, não por vontade.

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