"Na inércia é o único lugar que não há movimento. Lá, nem os mortos descansam." - Isabel Miranda
A noite já dava seus sinais quando Cássio retornou da fábrica. Não passou pela sua sala, seguiu direto para o antigo depósito reformado às pressas — agora, a sala da nova equipe de design.
A porta se abriu com um ruído baixo. Lá dentro, quatro profissionais trabalhavam em silêncio: lápis riscavam papéis, telas de computador exibiam estruturas metálicas e amostras de metal. Nenhum sorriu; profissionalismo frio, quase clínico. Ao perceberem sua presença, todos se levantaram.
— Boa tarde — cumprimentou Cássio, a voz contida. — Antes de começarmos, poderiam se apresentar?
A primeira a falar foi a mulher de cabelos grisalhos. O rosto firme, sem maquiagem excessiva, e a postura de quem já comandou salas inteiras.
— Joana Fletcher. Pós-graduada em design mobiliário e direção criativa pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Trabalhei anos com renovações de marcas tradicionais que perderam identidade. Fui consultora para a linha de mobiliário urbano da prefeitura de São Paulo. — Seus olhos eram frios como aço polido.
— Park Lee — disse o rapaz seguinte, inclinado levemente a cabeça em respeito. Pele clara, traços delicados, visivelmente coreano ou descendente. — Sou formado em arquitetura pela USP, com especialização em design minimalista escandinavo em Copenhague. Trabalhei com estruturas modulares e design sustentável.
O terceiro, sentado com uma prancheta nas mãos e lápis preso atrás da orelha, sorriu de canto — o tipo de sorriso que provocava dúvidas.
— Frederico Mariola. Designer de produto pela UFMG. Já criei móveis para cenografia, vitrines de moda e algumas peças para grandes hotéis. Gosto do que é conceitual, do que não precisa fazer sentido imediato.
A última era pequena, cabelos num coque apressado, óculos de armação fina e olhar meticuloso.
— Márcia Couto. Formada em design industrial. Trabalhei cinco anos com ergonomia e espaços reduzidos. Minha experiência é transformar o mínimo em funcional.
Cássio apenas assentiu.
— Ótimo. É um prazer conhecer vocês. Agora, gostaria de ver o que estão desenvolvendo.
Eles puxaram pranchas, renderizações, esboços iniciais. As ideias eram fortes: metal e luz por Park; curvas futuristas por Frederico; madeira escura e austeridade britânica por Joana; funcionalidade compacta e limpa por Márcia. Bons. Muito bons.
Mas nenhuma peça conversava com a outra.
Cássio respirou fundo, cruzando os braços.
— Vocês são excelentes. Todos. Mas… isso não é uma coleção. É um mosaico de propostas isoladas.
Joana inclinou levemente a cabeça.
— Talvez porque ainda não tenhamos um norte comum. Não houve briefing aprofundado. Nem tema.
Ele assentiu, concordando com a clareza dela.
— Já participaram de um brainstorming antes? — questionou.
Frederico sorriu. — Já, mas normalmente acompanhado de café e caos.
— Aqui teremos ideias — respondeu Cássio, seco. — Então vamos começar agora. Precisamos de um eixo, um nome, uma alma — ou a ausência dela. Algo que amarre tudo.
Eles se entreolharam.
— Tempo — sugeriu Park. — O desgaste das coisas. Madeira que envelhece, metal que oxida…
— Ruína contemporânea — acrescentou Frederico. — O belo no que está quebrado.
— Estruturação e função — disse Márcia. — O que é necessário, sem excesso.
O silêncio se instalou por um segundo.
Foi então que Joana falou:
— Inércia.
Cássio ergueu os olhos para ela.
— Movimentos que não acontecem — continuou ela, firme. — Formas que permanecem. A beleza do estático. A apatia do imobilizado.
Ele ficou em silêncio.
"Inércia."
E de repente era exatamente aquilo.
Ele mesmo — parado. Vivo, mas sem pulsar. Um homem que perdeu a mulher que amava, que esperava um filho de outra, uma empresa a beira do precipício, decisões que não sabia mais como desfazer.
Ele sentiu o próprio estômago contrair.
— Inércia — repetiu, baixo. — É isso.
— Se o tema é Inércia, — começou Joana — precisamos traduzir isso em forma, material e ausência.
Márcia cruzou os braços, pensativa.
— Inércia é corpo parado, mas também é corpo que quer se mover e não pode. Uma tensão silenciosa.
Joana fechou o caderno devagar. — Ele não gostou porque é bonito. Gostou porque dói.
O silêncio voltou — mas dessa vez não era desconfortável. Era compreensão.
— Vocês conheceram a ex-mulher? — perguntou Park, com curiosidade discreta.
— Helena? — Márcia assentiu. — Só de vista. Mas pelo que vi das coleções passadas… eram completamente diferentes disso.
— Eram vivas — completou Frederico. — Tinha cor, textura, história. Essa nova… é gelo escovado.
Por um segundo, ninguém soube o que responder.
Até que Márcia sorriu de forma leve. — Bom… pelo menos o café daqui é bom.
— E a sala não desmorona — acrescentou Frederico.
Park ajeitou os óculos. — Ainda.
Eles riram — discretamente, como quem sabe que estão no meio de algo muito maior do que simples móveis. Aos poucos, voltaram aos papéis, mas com um novo entendimento.
Ao fundo, a luz da noite entrava pelas janelas. E, pela primeira vez, a palavra Inércia não parecia apenas um tema. Parecia uma confissão.
...............
Cássio permaneceu parado diante da parede de vidro de sua sala. A cidade, lá embaixo, era um oceano de luzes trêmulas — carros, janelas, letreiros — tudo se movia, menos ele. Não queria voltar para casa. Não agora. Não para um lugar onde ela já não existia.
“Onde ela estaria, afinal?”
Pegou o celular sobre a mesa. A tela se acendeu, e a primeira coisa que viu foi o nome dela no topo da conversa. A última mensagem continuava ali, intacta, com um ponto de exclamação ao lado — como uma sentença, como uma porta fechada. Nenhuma resposta. Nenhum sinal. Apenas silêncio.
Ele respirou fundo, tentando expulsar o aperto que lhe subia pelo peito até a garganta. Virou o rosto e seus olhos pousaram sobre a garrafa de uísque esquecida no aparador. Por um instante pensou em servir-se, mas o simples imaginar do gosto queimando a boca lhe trouxe repulsa. Um azedo amargo tomou sua língua antes mesmo do primeiro gole existir.
Apoiou a testa no vidro frio.
“Onde você está, Helena?”
A pergunta não saiu em voz alta. Ficou presa nos lábios, repetindo-se como um sussurro dentro do peito.
“Onde você está?”

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