Lívia observou a amiga em silêncio por alguns instantes, lendo em suas feições tudo o que ela não dizia. Então, inclinou-se sobre a mesa, os olhos firmes, a voz serena, mas carregada de propósito:
— Helena, eu vou cuidar disso pra você. Começando com a preparação os papéis do divórcio. — fez uma pausa breve, como quem dá tempo para a decisão pousar suavemente entre as duas. — Você só vai precisar entregar pra ele assinar, e faremos tudo de um jeito que ele nem desconfie o que está assinando.
O olhar de Lívia era decidido, quase protetor.
— Chegou a hora de parar de sobreviver por alguém que já não te enxerga, e começar a viver por você mesma.
Helena suspirou e estava prestes a responder, quando a porta da cafeteria se abriu e o som do sino anunciou uma presença que gelou o ambiente. Cássio.
Ele entrou acompanhado de Sílvia, que se pendurava em seu braço como quem exibe um troféu. O vestido dela era justo demais, o riso alto demais, o perfume doce invadia o ar.
Atrás deles, Renato e Tânia.
Lívia percebeu o olhar assustado da amiga e se virou discretamente, seu semblante se tornando sombrio ao visualizar a cena. Deu um leve aperto no braço da amiga como quem diz que está ali para apoiá-la, e Helena assentiu com um sorriso de canto em agradecimento.
Cássio a viu. O sorriso dele vacilou por um segundo, mas logo recompôs o semblante, afastando o braço de Sílvia com sutileza.
— Helena… que coincidência — disse, forçando um tom casual.
Sílvia inclinou a cabeça, fingindo surpresa.
— Helena, que bom te ver de novo, e logo tão cedo! — sorriu, mas o sorriso carregava um veneno sutil. — Cássio sempre comenta que você prefere ficar em casa, que não gosta muito de sair... Achei que não teria a oportunidade de te reencontrar tão rapidamente.
Helena baixou o rosto, esboçando um sorriso seco e carregado de ironia.
— Sabe... vocês precisam se decidir. Ou eu sou a esposa reclusa, que só quer cuidar da casa, ou sou a esposa oportunista, que só sabe pular de restaurante caro em grife de marca. Não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Levantou a cabeça, cravando os olhos em Cássio.
— É sempre bom ter coerência quando se conta histórias.
Cássio parecia prestes a explodir. Já tinha percebido que Helena havia mudado, mas nunca a tinha visto tão afiada antes.
— O que você pretende? Está tentando me envergonhar! — rugiu, com a voz carregada de autoridade. — Não vou aceitar que destrate meus convidados. Como seu marido, exijo que os respeite!
Os amigos riram baixinho, tentando disfarçar o deboche.
Helena permaneceu em silêncio, o olhar fixo na xícara à sua frente, respirando com cuidado para que a tensão não escapasse em seu semblante.
Os clientes presentes trocavam olhares discretos, alguns franzindo a testa, outros inclinando-se levemente para ouvir, todos captando a tensão silenciosa que se instaurava entre os eles.
Mas Lívia não estava disposta a engolir veneno.
— Respeito? — disse, com calma e firmeza. — Que curioso... acredito que um homem casado, andar com uma mulher, que não seja sua esposa, pendurada em seus braços, seja mais desrespeitoso do que muita coisa.
O ar parecia rachar ao meio.
Silvia corou, indecisa entre indignação e constrangimento.
Cássio endureceu o rosto e tentou retomar o controle:
— Vim apenas encontrar o pessoal para falar de trabalho. Nada demais.
Lívia arqueou uma sobrancelha, irônica.
— Trabalho? — disse, deixando escapar um sorriso contido. — Parece mais uma confraternização de bastidores.
Sílvia lançou-lhe um olhar ferino, tentando disfarçar a irritação com um sorriso falso.
— Oh, querida, alguns de nós realmente trabalha — retrucou, a voz carregada de pompa. — Não dá para passar o dia inteiro pintando paredes e tomando café, não é?
— Pintando paredes? — Lívia parecia prestes a explodir, o rosto corado de raiva contida. — É incrível como algumas pessoas nunca conseguem enxergar quem realmente mantém tudo funcionando.
Helena permaneceu imóvel, respirando fundo, sem precisar dizer uma palavra. O silêncio dela parecia cutucar ainda mais o grupo, tornando o ar pesado e desconfortável.
— Engraçado — comentou Tânia, distraída, mexendo no celular —, a gente lê tanto sobre o Studio Cassiani e nunca vê a esposa dele sendo mencionada em lugar algum. Achei que fosse apenas mais uma daquelas mulheres discretas que não se envolvem nos negócios do marido.
Lívia recostou-se na cadeira, cruzando as pernas lentamente. O olhar frio pousou em Tânia com firmeza contida. — Discrição e dignidade são qualidades raras — disse, com voz calma, mas carregada de significado.
Silvia, com o semblante fechado, tentou reagir ao mesmo tempo que se fazia de vítima, o olhar fixo em Lívia:
— Da forma como fala, parece até que está insinuando que nós não somos dignas.
Lívia deu de ombros, avaliando-a de cima a baixo.
— Não posso afirmar com certeza, afinal não te conheço. Mas muito se revela na postura de uma pessoa. — Disse, pausando para que cada palavra caísse pesada sobre Silvia.
Um silêncio cortante se estabeleceu, como se tivesse congelado o ambiente. Cássio, tenso, endireitou o corpo e falou com um tom ríspido:
— Helena, por Deus, contenha sua amiga! Isso é ridículo. Não sei o que você anda imaginando, mas já passou dos limites.
Cássio entrou batendo a porta. A expressão, uma mistura de fúria e constrangimento.
Helena estava na sala, lendo, exalando um ar invejável de tranquilidade.
— O que foi aquilo hoje, Helena?! — explodiu. — Que espetáculo você e aquela sua amiguinha armaram pra me humilhar?
Helena manteve-se calma, apoiando a o livro nos joelhos.
— Eu não disse nada, Cássio. Só estive lá.
— Exato! Não disse nada! Ficou lá, me deixando ser ridicularizado! — gritou ele, aproximando-se. — Eu tenho uma reputação, entende? Um nome! Você parece esquecer disso cada vez que abre a boca, ou quando não abre. Você me humilhou! Me fez parecer um idiota na frente de todos!
— Eu só tomei um café. — respondeu ela mantendo o tom baixo. — Talvez o problema seja o que as pessoas estão começando a ver, e não o que eu digo.
Ele ficou imóvel por um instante.
— Sabe o que é inadmissível? — disse enfim, com o rosto próximo ao dela. — O seu comportamento. Você precisa aprender o seu lugar.
— E qual é o meu lugar, Cássio? — perguntou, firme.
Ele hesitou, então desviou.
— Você vai me ouvir. — Ele continuou, apontando-lhe o dedo. — Como punição, esqueça o evento de cinco anos da empresa. Eu estava até pensando em te deixar ir, mas você não vai.
— Tudo bem, Cássio. Como quiser. — disse apenas.
Ele respirou fundo, como se esperasse uma discussão, uma súplica.
Mas Helena apenas se virou e voltou a ler seu livro.
Ele sentiu um aperto estranho, não sabia descrever o que era, mas aquilo o deixava alerta e ainda mais irritado.
— E já que gosta tanto de silêncio — continuou, amargo —, vai ter a casa inteira pra você. Hoje eu não volto. Usa esse tempo pra pensar no que fez.
Pegou as chaves do carro e saiu, batendo a porta com força.
Helena, sozinha na sala, ficou em silêncio. Mas havia um leve sorriso em seu rosto.
Porque, pela primeira vez, não doía.

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